A restauração em Portugal enfrenta custos a subir enquanto o consumo não para de cair, com as microempresas a registar margens comprimidas e encerramentos silenciosos, alerta hoje a AHRESP.
A Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) alerta hoje para a pressão crescente sobre o setor da restauração, que continua a ser um pilar da economia, do emprego e da atratividade turística, mas enfrenta margens cada vez mais comprimidas e encerramentos, sobretudo entre micro e pequenas empresas.
Em 2024, último ano com dados públicos disponíveis do INE, o setor contava com 74.524 empresas e 324.130 trabalhadores, números que, isoladamente, sugerem um setor dinâmico, mas que escondem uma realidade estrutural determinante: 91% são microempresas e 51% são Empresários em Nome Individual (ENI). Esta natureza fragmentada e de micro dimensão, torna a análise agregada e global insuficiente para retratar os problemas reais de quem trabalha no terreno.
A AHRESP sublinha que muitos destes negócios são de proximidade, de base familiar e desempenham uma função social acrescida — não só pela criação do próprio posto de trabalho, mas também pela presença nos territórios de baixa densidade, onde muitas vezes são o único ponto de referência comercial e social da comunidade.
Nos últimos anos, o setor acumulou aumentos de custos em várias áreas. Dados do INE apontam para uma subida da alimentação, com destaque para legumes (+28%), ovos (+24%), peixe seco (+24%) e carne (+8%), a par de um aumento da energia, que voltou a crescer em 2026, e dos custos com trabalho, com a remuneração média a subir de 938 euros em 2022 para 1.152 euros em 2025.
Em paralelo, a procura apresenta sinais de retração, com menos clientes e menor consumo médio por refeição. Segundo a associação, as empresas têm ajustado preços, mas abaixo do ritmo de crescimento dos custos, o que tem conduzido a um esmagamento das margens e a dificuldades em manter a atividade e o emprego.
A AHRESP alerta ainda para a existência de «encerramentos silenciosos», que não são captados pelas estatísticas oficiais e contribuem para uma subavaliação da dimensão real das dificuldades no setor.
A análise agregada tende, assim, a ocultar assimetrias relevantes, já que as empresas de maior dimensão conseguem mitigar parte da pressão através de economias de escala, ao contrário das micro e pequenas unidades, que operam com estruturas mais frágeis.
A associação defende que as políticas públicas devem ter em conta esta realidade, respondendo às condições concretas de quem opera no terreno, com menor capacidade para repercutir nos preços o aumento efetivo dos custos e com uma base de clientes em retração.
O setor da restauração é apontado como estruturante para a economia nacional, com impacto em toda a cadeia de valor, do setor primário ao terciário, e com relevância para o turismo e a coesão territorial.
A AHRESP considera necessário criar condições que garantam a sustentabilidade destas empresas e a preservação do tecido económico associado à restauração. Fundada em 1896, representa atividades ligadas à restauração, similares e alojamento turístico, sendo uma das principais associações empresariais do país.
Foto: Bruno Filipe Pires