Em Lagoa, o Clube de Râguebi da Universidade do Algarve (CRUAL) é visto por atletas e treinadores como uma família, onde todos são bem-vindos.
No Algarve, a vontade de praticar este desporto começou há mais de três décadas quando, em 1992, um grupo de estudantes de várias cidades do país decidiu formar o Clube de Râguebi Universitário do Algarve (CRUAL), em Faro.
Começaram por participar em campeonatos universitários e, mais tarde, no Campeonato Nacional da Federação Portuguesa de Râguebi, onde disputaram os oitavos de final da Taça de Portugal. Em 2012, o clube decidiu investir na formação e, desde então, tem participado em várias competições.
Entre treinos, pré-competição e competição, a diversão é garantida e há um espírito de equipa invejável tanto no centro de treinos de Faro, dirigido por um dos fundadores Ricardo Rafael, como no de Lagoa, a cargo de Dave Alger, que conta com a ajuda de Wayne Aldred, nas classes mais novas, do treinador Darragh Jones, que dá treinos de Touch Rugby, e da sua mulher Alison, fundamental na parte burocrática.
Embora a vontade de treinar e progredir seja enorme, as condições não são as ideais. A falta de um campo relvado e postes, condições básicas, como eletricidade e balneários onde os atletas possam tomar duche, e transporte para as competições têm sido constrangimentos no desenvolvimento da equipa, mas Dave e Alison não desistem e usam as dificuldades como combustível para mover os atletas.
Ouvido pelo barlavento, Luís Encarnação, o presidente da Câmara Municipal de Lagoa, promete a requalificação do campo sintético do Estádio Capitão Josino da Costa ainda este ano, dando assim aos atletas todos os meios necessários para esta prática desportiva.
Como é «uma modalidade recente sem tradição» em Portugal, no concelho de Lagoa «não havia instalações disponíveis para tal», esclareceu o autarca.
Esta é «uma das grandes lacunas do município», admite Luís Encarnação, que garante ainda «iluminação nova muito em breve» e adianta que, quanto à utilização das instalações desportivas, propriedade do Clube Desportivo de Lagoa, o município tem tentado interceder para chegar a uma colaboração entre ambos, mas, até agora, sem sucesso.
Ainda que existam obstáculos, no centro de treinos de Lagoa a união transparece na alegria comum, quer se trate dos treinos das crianças ou dos adultos. O respeito e a disciplina são incutidos desde cedo, num ambiente alegre e familiar que prepara os atletas para as competições na capital do país.
Hoje, o núcleo de Lagoa é composto por cerca de 25 crianças, tendo a mais nova quatro anos. «No râguebi, há lugar para todos e um espírito de equipa enorme», sublinha Dave Alger.
«Se o atleta for grande e correr devagar, é perfeito para jogar na frente. Se estiver mais em forma e conseguir correr depressa, encaixa-se na perfeição na lateral», explica.
No CRUAL há jogadores de várias idades, nacionalidades, características e origens. Todos são bem-vindos e os seus pontos fortes valorizados.
Archie Glashier, nascido em Portugal e filho pais britânicos, começou a jogar há dois anos. Nunca tinha experimentado râguebi, mas decidiu juntar-se ao clube em conjunto com um amigo.
Hoje, aos 14 anos, é o capitão de equipa. Não só é um ótimo jogador, como também tem uma excelente capacidade de comunicar com os colegas. «Quando não fazem algo bem, explico-lhes o que correu mal e acabam por alterar o seu comportamento», resume ao barlavento.
A cultura do râguebi é diferente da que existe nos outros desportos e os seus valores são visíveis mesmo para quem não conhece as regras, uma vez que não é um desporto explorado no programa escolar português. A obediência às decisões do árbitro e a boa educação dos jogadores é notória e distinta.
«O râguebi baseia-se no respeito e no cumprimento das regras bem como no trabalho de equipa. Apoiamo-nos uns aos outros», reconhece Dave. Também Wayne concorda que os princípios ensinados nesta modalidade são diferentes. «É um jogo agressivo jogado por cavalheiros. É duro, mas todos os jogadores são disciplinados», aponta.
Dave Alger, antigo gestor bancário britânico agora reformado, e Alison, juntaram-se ao CRUAL em 2018, um ano após a expansão da equipa para a zona oeste do Barlavento algarvio.
Já não imaginar as suas vidas sem estes jogadores e treinadores que veem como uma família. Sempre tiveram uma ligação ao desporto no Reino Unido, mas com o râguebi em particular: Dave começou a praticar na escola aos 14 anos e, aos 17, inscreveu-se num clube, enquanto Alison acompanhou o percurso de capitão de equipa do seu irmão mais novo ao longo de vários anos.
Apesar das mudanças de vida que experienciaram, esta paixão nunca desapareceu e, quando Dave viu um anúncio do CRUAL no jornal, não hesitou. Juntou-se ao clube e dois anos mais tarde, com 66 anos, concluiu um curso de treinador, tornando-se responsável por treinar os mais novos. «Desde que faço parte tem havido muitas melhorias e um crescimento notável», afirmou Dave.
A alegria e simpatia de Dave e Alison conseguem cativar qualquer um, mas como se não bastassem estas qualidades, trazem sempre um miminho para todos os jogadores a meio do treino: Laranja cortada aos pedaços para dar energia e proporcionar um momento de convívio e entusiasmo a todos.
Celebra-se também a multiculturalidade, entre portugueses, ingleses, franceses, sul-africanos e neozelandeses, e a comunicação não é um problema.
Para Dave, esta «é uma língua universal» e ajuda a desenvolver as competências sociais. «Queremos que joguem e disfrutem», acrescentou ao revelar que alguns membros da equipa estão já a realizar o curso de treinador. Assim, o CRUAL tem um futuro promissor, mas, para já, o foco está em fortalecer a sua estrutura e aumentar o número de jogadores.
Fotos: Phaze Photography





