As mesas já estão arrumadas e os bonecos de papel recebem os últimos retoques, mas ainda há vestígios de cola, tintas, cartão, papel e da muita imaginação usada para criar as personagens principais da oficina educativa do Museu de Portimão neste verão.
Num canto há um arqueólogo subaquático que poderá encontrar alguns dos tesouros escondidos no fundo do mar, enquanto do outro lado, com um lenço na cabeça, está a conserveira que durante horas trabalhou no espaço onde, outrora, funcionou a fábrica de conserva de peixe «La Rose». Um olhar mais atento leva a reparar noutra personagem, que ainda existe e que continua a trabalhar numa das margens do rio Arade, o salineiro. Já mais a sul no rio, havia um faroleiro, mas agora ficou apenas a infraestrutura que ilumina o mar nas noites mais escuras…
Estas são apenas algumas das personagens que as crianças retrataram, pois o tema deste ano da oficina do Museu é dar vida às profissões do rio Arade. O leitor mais sagaz dirá, com certeza, que neste rol há ofícios que já não existem nas localidades banhadas por este curso de água que separa Portimão e Ferragudo. É verdade, mas a ideia é mostrar aos mais petizes quais «as profissões que acompanharam o Arade ao longo dos tempos e dá-las a conhecer», explicou ao «barlavento» Nuno Silva, técnico desta oficina educativa. Por sua vez, os responsáveis procuram sempre associar o tema ao Museu, à sua história, às suas raízes e à sua envolvente.
«Ao criar estas personagens há uma explicação sobre o que faziam ou fazem», acrescentou. Se o ofício existe há vários anos, há também uma tentativa de mostrar a evolução que a profissão sofreu. Um outro exemplo de um modo de subsistência que acabou, após o progresso da cidade, é o barqueiro. Então é necessário «explicar às crianças que antigamente não havia pontes para atravessar o rio, por isso tinha que existir uma espécie de taxista, que transportava as pessoas de uma margem para a outra, só que em vez de usar um táxi, um carro, usava uma barca», contou o técnico.
Para o pequeno Rodrigo, com 7 anos, que ajudou a criar um boneco um pouco mais pequeno que ele, é mais fácil jogar pelo seguro e retratar uma personagem que vê com frequência. «Fiz o mariscador, porque costumo ver, quando atravesso a ponte e está a maré vazia, os mariscadores a apanhar coisas na lama», argumenta com audácia. Mas afinal que coisas são essas? Com rapidez, o pequeno aprendiz responde que são «amêijoas, ou seja, crustáceos, aqueles que estão dentro de conchas».
A lição ficou bem aprendida, pois soube ainda enumerar algumas das profissões como o carpinteiro naval, o pescador, o remendador de redes ou o guarda-rios. A ideia é dar margem de manobra às crianças para que reflitam sobre o tema, mas quando os técnicos reparam que há ofícios que os mais novos não mencionam, os responsáveis perguntam se conhecem determinado trabalho e explicam no que consiste. Para criar as personagens foi usada a técnica do papel marché, havendo um forte incentivo à reciclagem do cartão, do papel ou até os trajes que vestiram estas personagens. «As crianças trouxeram roupas que já não usam, pois também queremos passar a mensagem de que é importante dar novos usos aos produtos que já não utilizámos», sublinhou Nuno Silva.
Há, contudo, outro aspeto fundamental desta oficina que é motivar o trabalho de grupo. «Eles são muito individuais. Ligam-se às consolas, aos telemóveis, aos tablets, chegam aqui e nota-se muito que alguns deles, em casa ou na escola, trabalham muito de modo individual. E aprender a estar em grupo é fundamental», considera o técnico. É por esta razão que cada um tem que desenhar uma profissão, para que depois esta imagem seja trabalhada pelos cinco elementos de cada grupo. «Ou seja, de um boneco há cinco desenhos, seguindo-se um brainstorming. Um bocadinho do teu que é giro, um bocadinho de um outro e cria-se só um», esclareceu. O produto final, que o «barlavento» já espreitou, será mostrado ao público em agosto, como é habitual.
Ocean Revival pode ser visto em terra
O Museu de Portimão inaugurou a exposição «Um Mergulho no Parque Subaquático de Portimão – Ocean Revival», constituída por um conjunto de 24 painéis com fotografias da autoria de Augusto Salgado, Fátima Martins, Jorge Godinho e João Encarnação.
A exposição de verão, patente até 30 de agosto, pretende ilustrar a evolução do parque subaquático pioneiro em Portugal, situado a três milhas de Alvor. Este é um recife artificial inaugurado há dois anos, criado a partir da submersão de quatro navios de guerra da Marinha Portuguesa.
O projeto nasceu com o objetivo de promover o turismo subaquático na região, criando um grande recife artificial, com condições para a proliferação da vida marinha, onde os mergulhadores, tem a oportunidade de apreciar a riqueza e diversidade do mar algarvio.
«Esta mostra surgiu após uma proposta que o Museu fez aos promotores do projeto. Eles aceitaram e o que está à vista é uma exposição montada e concebida por nós, com as fotografias que eles nos forneceram», disse ao «barlavento» José Gameiro, diretor científico deste Museu.
Esta é na opinião deste responsável uma forma muito acessível de «residentes, turistas e visitantes, contactarem com esta realidade». É que para visitar este Museu Subaquático é necessário mergulhar ao largo de Alvor, não sendo a sua visitação a quem não tenha conhecimentos desta modalidade.
Por sua vez, há uma ligação, do Museu ao projeto, pois este espaço tem, na sua cisterna, o núcleo do Parque Subaquático, que, em forma de «submarino», proporciona a quem visita o Museu um «mergulho» no recife artificial.