Vivemos tempos exigentes, em que o debate sobre a saúde se tornou inevitavelmente político, mas em que importa regressar a uma pergunta anterior, mais profunda e essencial: que queremos para o futuro da nossa vida comum?
No Algarve, como no resto do país e da Europa, a longevidade conquistada pela medicina moderna está a ser travada por uma realidade preocupante: vivemos mais anos, mas com mais sofrimento, mais doenças crónicas, mais solidão e mais desigualdade no acesso aos cuidados. As listas de espera prolongam-se, os serviços esgotam-se, os profissionais desmotivam-se. A saúde, tal como a entendemos, chegou a um ponto de ruptura.
Não é por acaso que o Reino Unido – o país que criou o mais famoso sistema de saúde universal da Europa, o National Health Service (NHS) acaba de apresentar um plano de transformação profunda, com um horizonte de 10 anos, baseado numa ideia central que também nós, democratas-cristãos, defendemos há muito: prevenir é cuidar. E prevenir é, antes de mais, um dever ético, social e político.
O Fit for the Future: 10 Year Health Plan for England assume, com clareza, que o modelo assistencial vigente está esgotado. Hospitalocêntrico, burocrático e fragmentado, um modelo que se afasta da comunidade e das pessoas. O que propõe, em alternativa, é um verdadeiro pacto nacional pela saúde preventiva, pela literacia em saúde, pela equidade territorial e pela responsabilização partilhada.
Esta proposta deve ser lida como um sinal dos tempos: nenhuma democracia se pode manter saudável se ignorar os determinantes sociais da saúde. Nenhuma economia será sustentável se daqui a 10 anos cerca de 40% da despesa pública for absorvida por um sistema de saúde reativo. E nenhuma sociedade será justa se as crianças das zonas mais pobres forem condenadas, à partida, a uma esperança de vida mais curta e com mais doenças.
O desafio que temos pela frente é mais do que técnico – é moral. E é por isso que, também no Algarve, devemos refletir sobre o futuro da nossa saúde não como um problema exclusivamente médico, mas como uma «questão de bem comum».
Um novo modelo para uma nova longevidade
O plano inglês propõe um triplo movimento transformador que poderíamos e deveríamos adaptar para Portugal:
- Da doença à prevenção: inverter a lógica do sistema, centrando-o na promoção da saúde ao longo da vida;
- Do hospital para a comunidade: aproximar os cuidados das pessoas, investindo nos centros de saúde, na farmácia comunitária, na saúde digital e na articulação com o poder local;
- Do controlo central à responsabilidade partilhada: empoderar os cidadãos, os profissionais, os municípios e as instituições sociais.
Estes três eixos traduzem-se em medidas concretas: investimento em prevenção da obesidade, restrições à publicidade de comida ultra processada (junk food), testes genómicos neonatais, ampliação da vacinação, rastreio precoce de doenças, cuidados personalizados com base em inteligência artificial, promoção da literacia digital em saúde, e um programa nacional de incentivos a comportamentos saudáveis.
Mas o mais inovador não está nas tecnologias ou nos fármacos. Está na ideia de que «a saúde começa muito antes da doença»: começa na alimentação das crianças, no ar que respiramos, no exercício que praticamos, nas horas que dormimos, nos vínculos que mantemos. Começa em casa, nas escolas, no trabalho, nas paróquias e nas ruas.
Este é, aliás, um princípio profundamente cristão: a pessoa é um todo indivisível, e o cuidado com o corpo e a mente deve ser expressão de um respeito maior pela vida e pela dignidade humana.
Uma oportunidade para Portugal — e para o Algarve
Portugal não pode ignorar o que se passa além-fronteiras. O nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrenta desafios semelhantes aos do seu modelo inspirador, o NHS britânico: pressão insustentável sobre os hospitais, dificuldades no acesso aos cuidados primários, desigualdade entre regiões e envelhecimento da população. E, apesar de muitos esforços dos profissionais, os ganhos em saúde estão a estagnar e, em muitos casos, em serio risco de regressão.
É tempo, por isso, de perguntar: Queremos continuar a correr atrás da doença, ou vamos finalmente começar a investir na saúde?
O Algarve, enquanto região com especificidades próprias – marcada por uma população envelhecida, por territórios dispersos e por fragilidades estruturais no acesso aos cuidados – pode e deve ser do meu ponto de vista o território selecionado para um piloto regional de prevenção integrada da doença.
Nesse sentido sugiro aos candidatos autárquicos a discussão pública de cinco caminhos concretos, inspirados no plano inglês, mas adaptados à realidade portuguesa e algarvia:
- Criação de Centros Comunitários de Saúde Preventiva em cada concelho algarvio, que unam médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, técnicos do município e instituições locais, com horários alargados e foco na prevenção e proximidade;
- Implementação de um Programa Regional de Longevidade com Qualidade, que integre rastreios regulares, acompanhamento digital, promoção da atividade física e acesso a terapias complementares (como fisioterapia, nutrição ou saúde mental), com forte componente de literacia e capacitação;
- Reformulação da abordagem à Saúde Escolar, introduzindo avaliação nutricional, rastreios de saúde oral e mental, educação alimentar e envolvimento das famílias, com o objetivo de erradicar a obesidade infantil até 2030;
- Valorização do papel das farmácias comunitárias e das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) na promoção da saúde preventiva, garantindo-lhes financiamento, formação e integração nos sistemas digitais do SNS;
- Estabelecimento de um Pacto Regional para a Saúde Global, envolvendo autarquias, universidades, ordens profissionais, associações de doentes, movimentos sociais e confessionais, para definir metas e compromissos comuns até 2030;
- Prevenção e liberdade: uma leitura personalista e o papel das famílias.
É importante esclarecer que a defesa da prevenção não significa impor uma moral higienista ou um novo dirigismo estatal. Pelo contrário: significa reforçar a liberdade pessoal, dotando os cidadãos das condições e dos conhecimentos necessários para fazerem as melhores escolhas para si e para os seus.
Não há verdadeiro cuidado da saúde sem respeito pela liberdade. Mas também não há liberdade autêntica onde existe ignorância, pobreza, exclusão ou desinformação. Prevenir a doença é dar poder às pessoas para viverem com mais autonomia, mais conhecimento e mais responsabilidade.
É aqui que entra, com toda a sua força, a visão personalista da democracia cristã: a saúde é um bem pessoal e social, que exige responsabilidade individual mas também políticas públicas justas, subsidiárias e solidárias.
Nenhum plano será bem-sucedido se não envolver o coração da sociedade: as famílias. É no seio da família que se aprende a cuidar, a proteger, a valorizar o corpo e o outro. E é nas redes de vizinhança, nas escolas, nas paróquias, nos clubes, que se criam as condições de apoio mútuo que tantas vezes evitam o agravamento da doença.
O Estado deve reconhecer, apoiar e envolver estas realidades, e não as substituir. A política de prevenção deve, por isso, ser também uma «política de proximidade», que fortalece o tecido social e reconhece o papel da sociedade civil organizada.
Uma convocatória para o futuro
Tal como dizia Jacques Maritain, um dos inspiradores do pensamento democrata-cristão, «o bem comum não é apenas a soma dos bens individuais, mas uma vida boa partilhada por todos numa comunidade de pessoas livres». Por isso este artigo não é um lamento e muito menos uma crítica vazia. É sim uma convocatória! O futuro da saúde e da longevidade com qualidade de vida não está pré-determinado – ele está nas nossas mãos.
O plano britânico mostra que é possível – com ambição, ciência, valores e cooperação – transformar um sistema em crise numa esperança renovada. Cabe-nos a nós, enquanto cidadãos, comunidade política, ética e cultural, fazer o mesmo em Portugal e no Algarve. No governo, nas autarquias, nas associações, nas famílias.
Prevenir a doença é cuidar da vida. E cuidar da vida é – no sentido mais intimo do termo – amar. Que essa seja a nossa bússola para navegar o futuro.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio e democrata cristão