Portugal sagrou-se hoje vice-campeão da Europa nas estafetas mistas dos Campeonatos da Europa de corta-mato, em Lagoa, num resultado histórico que marcou a estreia portuguesa no medalheiro desta disciplina.
A seleção nacional terminou a prova no segundo lugar, com o tempo de 17.16 minutos, a quatro segundos da Itália, que revalidou o título europeu com 17.12. O Reino Unido fechou o pódio, ao concluir a corrida em 17.17. A recuperação decisiva surgiu no último percurso, quando Isaac Nader levou Portugal do quinto ao segundo posto, sob forte apoio do público no Parque Urbano do Parchal.
A estafeta mista reuniu algumas das seleções mais competitivas do crosse europeu. O formato privilegia a consistência coletiva e a gestão do esforço em percursos curtos e intensos. A prova é disputada em estafeta mista, com quatro percursos alternados entre atletas femininos e masculinos.
Disputada apenas desde 2017, esta foi a primeira vez que Portugal subiu ao pódio na estafeta mista. O resultado reforça o historial medalhado de Portugal nos Campeonatos da Europa de corta-mato.
A equipa portuguesa integrou Patrícia Silva, Rodrigo Lima, Salomé Afonso e Isaac Nader, todos com currículo internacional recente. Patrícia Silva abriu a prova sob forte pressão competitiva, num contexto marcado pela responsabilidade de correr em casa. «Antes da prova estávamos todos nervosos. Temos sempre o peso de sermos uma boa equipa e de estarmos a correr em casa», afirmou.
A atleta concluiu o seu percurso em 4.09 minutos, no nono lugar, em igualdade de tempo com a Polónia. «Dei o meu melhor. Se calhar não foi o que ambicionava, mas foi o possível, e o que importa é que, no fim, conseguimos chegar ao segundo lugar», disse.
Rodrigo Lima entrou num segundo segmento exigente, marcado pelo ritmo elevado e pela densidade competitiva. O atleta assumiu como objetivo «manter ou ganhar posições». «Sabia que cada metro que ganhasse contava. Tentei acompanhar o grupo e entregar bem posicionado, porque os dois últimos percursos seriam muito fortes», afirmou.
Coube depois a Salomé Afonso uma das recuperações mais relevantes da corrida. Medalhada nos recentes Campeonatos da Europa de pista curta, a atleta ganhou sete posições e colocou Portugal em quinto antes da última troca. «Cada esforço, independentemente da posição em que cada um se encontra, vale imenso a pena no resultado final», sublinhou.
Isaac Nader: Prata nas estafetas mistas de crosse mostra nova «geração de ouro»
Isaac Nader enquadrou a medalha de prata conquistada em Lagoa como um sinal claro de renovação e ambição no meio-fundo português. «Todos demos tudo hoje para conseguir o segundo lugar. É muito importante para Portugal, é muito importante para nós», afirmou.
O atleta natural de Faro defendeu que a atual geração deve assumir ambições elevadas. «Acho que estamos a caminho de uma grande geração de ouro do atletismo português no meio-fundo. Os portugueses têm de começar a pensar em grande e não ter medo de falhar», disse, acrescentando que «as pessoas que pensam grande são muitas vezes criticadas».
Nader rejeitou leituras individualistas do resultado. «No final, correm quatro, não corre um. O segundo lugar não vem só do Isaac, só da Salomé, só da Patrícia ou só do Rodrigo. Vem de todos», afirmou.
Sobre a gestão do último percurso, explicou que procurou controlar as emoções associadas a competir em casa. «Queria chegar à frente o mais depressa possível, mas não demasiado depressa, para não pagar a fatura no final», disse. Admitiu ainda a superioridade italiana. «A Itália era muito forte, é campeã pelo segundo ano consecutivo, mas noutro momento acredito que também conseguiremos chegar ao ouro».
Patrícia Silva e Salomé Afonso lideram o contributo feminino na estafeta
O contributo feminino teve peso determinante no resultado alcançado por Portugal na estafeta mista, com prestações consistentes de Patrícia Silva e Salomé Afonso.
Patrícia Silva destacou o significado emocional da medalha. «Ganhar a primeira medalha para Portugal numa estafeta mista, em casa e ao lado dos meus companheiros, teve um sabor muito especial», afirmou.
Salomé Afonso reforçou a dimensão coletiva do resultado. «Numa equipa não há estrelas, somos todos a estrela. O resultado final é a soma do esforço de cada um», disse, ao explicar que, no momento da entrega do testemunho a Isaac Nader, percebeu que o pódio era uma possibilidade real. «Sabia que era possível. Restava saber qual».
O momento simbólico da conquista ficou marcado após a meta, quando Salomé Afonso beijou Isaac Nader, o que selou uma recuperação decisiva perante o apoio vibrante do público algarvio.
Além da medalha inédita nas estafetas mistas, o resultado em Lagoa marcou o regresso de Portugal aos pódios nos Campeonatos da Europa de corta-mato. O último pódio datava de uma medalha de bronze em sub-23. A última medalha de prata coletiva remontava a 2010, também no Algarve.
O desempenho em Lagoa surge numa fase marcada por vários pódios internacionais do atletismo português em pista curta. Confirma a consistência competitiva desta geração e reforça a ambição de Portugal no panorama europeu do corta-mato.
Fotos: FPA/ Sportmedia e Marcelino Almeida