Há hoje discursos políticos em Portugal que manipulam a História recente do país (Guerra colonial/ retornados) para alimentar ressentimentos, dividir a sociedade e prejudicar as relações com os países lusófonos.
Hoje há discursos feitos no Parlamento que não procuram esclarecer: procuram incendiar. Não procuram memória: procuram ressentimento. Não procuram justiça: procuram dividir portugueses contra portugueses, retornados contra residentes, africanos contra europeus, brasileiros contra portugueses.
A Democracia Cristã Algarvia não pode calar-se perante uma linguagem que, em nome de uma falsa defesa da Pátria, acaba por empobrecer Portugal, ferir a nossa história e degradar as relações com povos irmãos de África e do Brasil.
O Algarve sabe bem o preço da História. Das suas vilas e cidades partiram jovens para uma Guerra Colonial longa, dura e injusta. Muitos regressaram marcados; outros não regressaram. A Guerra do Ultramar mobilizou uma parte esmagadora da juventude masculina portuguesa e deixou cerca de 10 mil militares mortos, dezenas de milhares de feridos e inválidos, e mais de 100 mil vítimas civis nos territórios africanos.
Não falamos disto por cálculo político. Falamos porque há famílias em Faro, Olhão, Tavira, Loulé, Portimão, Lagos, Albufeira, Silves, São Brás, Monchique, Alcoutim, Castro Marim, Vila Real de Santo António, Lagoa e Aljezur que ainda guardam fotografias, cartas, medalhas, silêncios e lágrimas.
O Algarve sabe também o que foi acolher. Depois do 25 de Abril de 1974, Portugal recebeu centenas de milhares de portugueses vindos das antigas colónias. Estimam-se em cerca de 600 mil os chamados «retornados», muitos dos quais, na verdade, tinham nascido em África e «não tinham para onde regressar».
Enfrentaram dificuldades, discriminação e perda material; mas foram integrados, trabalharam, abriram empresas, educaram filhos, enriqueceram a sociedade portuguesa. O Algarve não lhes fechou a porta. Como se diz por cá, «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão»; mas, mesmo com pouco pão, Portugal soube repartir mesa, trabalho e futuro.
É por isso que nos repugna a demagogia que transforma a dor dos retornados em arma de arremesso e a memória da guerra em pretexto para hostilizar africanos, brasileiros ou imigrantes lusófonos. Defender os retornados não é odiar África. Honrar os antigos combatentes não é insultar o Brasil. Amar Portugal não é diminuir os povos que falam a nossa língua. Pelo contrário: uma Pátria adulta honra os seus mortos, acolhe os seus vivos e respeita os seus irmãos.
Tomemos o exemplo do algarvio Gago Coutinho, um herói nacional, parente de muitos de nós que temos origem nas terras do Barrocal. Não precisamos de o transformar num santo laico nem de esconder o contexto colonial em que trabalhou.
Mas seria indigno negar a grandeza científica do seu labor. Oficial da Marinha, geógrafo, navegador e estudioso da cartografia, Gago Coutinho colocou o rigor acima da propaganda.
A Direção Cultural da Marinha recorda que, a partir de 1898, iniciou atividade como geógrafo e realizou trabalhos de grande valor científico em Timor, Moçambique, Angola e São Tomé e Príncipe, aplicando conhecimentos de geodesia, astronomia e geografia matemática.
Na então África Oriental Portuguesa, a Missão Geodésica criada em 1907, sob orientação de Gago Coutinho, trabalhou até 1910. Em quatro campanhas, durante 26 meses de mato, estabeleceu uma rede de triangulação com cerca de 83 vértices e 800 quilómetros de desenvolvimento linear.
Isto não foi gritaria. Foi ciência. Não foi insulto. Foi método. Não foi ressentimento. Foi serviço. Num tempo em que Portugal ainda pensava em termos imperiais, Gago Coutinho deixou uma lição que permanece válida para a República democrática: quem quer servir Portugal deve primeiro conhecer a realidade, medi-la com rigor, respeitá-la com humildade e agir com responsabilidade.
Ora, é precisamente aqui que se vê o contraste com o mau serviço que o Chega presta hoje às relações de Portugal com África e com o Brasil. Uma coisa é criticar governos estrangeiros, acordos mal feitos, políticas migratórias desordenadas ou falhas do Estado português. Isso é legítimo.
Outra coisa, bem diferente, é converter a política externa numa feira de insultos, reduzir comunidades inteiras a suspeitos, tratar a imigração lusófona como ameaça civilizacional e transformar a língua portuguesa — esse mar comum onde cabemos todos — num campo de batalha eleitoral.
Quando dirigentes do Chega insultam chefes de Estado estrangeiros, como sucedeu com André Ventura em relação ao Presidente Lula da Silva, chamando-lhe «bandido», não estão apenas a atacar um político brasileiro; estão a empurrar Portugal para uma diplomacia de taberna.
A Reuters confirmou que essa declaração foi feita por André Ventura numa convenção do Chega e recordou ainda que o deputado articulou protestos contra Lula durante a visita do Presidente brasileiro a Portugal. Um partido português pode discordar de Lula, de Bolsonaro, de qualquer governo africano ou europeu. Mas Portugal não ganha autoridade no mundo quando substitui a crítica pela grosseria.
As relações entre Portugal e o Brasil não são uma nota de rodapé. São uma dimensão essencial da nossa identidade diplomática. O Portal Diplomático português recorda que Portugal e o Brasil têm uma relação «única», assente num passado e numa língua comuns, com relações diplomáticas estabelecidas desde 1825 e enquadradas hoje pelo Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta de 2000.
Quem trata esta relação com leviandade está a brincar com dois séculos de história, milhões de cidadãos, milhares de empresas, laços familiares profundos e a própria projeção internacional da língua portuguesa.
O mesmo vale para África. Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial não são «problemas» no mapa mental português. São Estados soberanos, povos irmãos, parceiros estratégicos, comunidades humanas com memória, sofrimento, fé, cultura e dignidade.
A Democracia Cristã não aceita a culpa coletiva, nem o saudosismo imperial, nem o antiportuguesismo masoquista. Mas também não aceita a arrogância de quem fala de África como se África fosse cenário, ameaça ou caricatura.
A doutrina social cristã ensina-nos que a política deve servir o bem comum, respeitar a dignidade da pessoa humana, proteger os frágeis e construir comunidade.
O Papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli Tutti, lembra que a política, quando busca o bem comum, é uma das formas mais preciosas de caridade e que a amizade social exige reconhecer cada ser humano como irmão ou irmã. Isto não é ingenuidade. É civilização. A firmeza nas fronteiras, a exigência na legalidade, o combate ao tráfico de pessoas e a defesa dos trabalhadores portugueses são compatíveis com o respeito pelos imigrantes, pelos brasileiros, pelos africanos e pelos que procuram entre nós uma vida digna.
A Democracia Cristã algarvia tem, pois, uma palavra clara: não aceitaremos que a memória dos nossos combatentes seja usada para semear ódio; não aceitaremos que a dor dos retornados seja instrumentalizada contra os povos africanos; não aceitaremos que Portugal seja reduzido a um país pequeno, zangado e malcriado; não aceitaremos que a lusofonia seja substituída pela xenofobia.
Gago Coutinho mediu terras, traçou cartas, corrigiu erros, provou que o Equador passava pelo Ilhéu das Rolas e serviu Portugal com inteligência. O Chega, quando insulta o Brasil e hostiliza a África lusófona, desmede Portugal, rasga pontes e diminui-nos perante o mundo. Entre a cartografia rigorosa de Gago Coutinho e a cartografia moral do ressentimento, escolhemos a primeira: a do conhecimento, da responsabilidade, da dignidade e da verdade.
Portugal não precisa de odiar para existir. O Algarve não precisa de gritar para ser ouvido. E a Democracia Cristã não precisa de inimigos fabricados para defender a Pátria. Como diriam os antigos, «quem semeia ventos, colhe tempestades». Nós preferimos semear justiça, memória e fraternidade. Porque Portugal será tanto maior quanto mais fiel for à sua alma: atlântica, europeia, lusófona, cristã, livre e humana.
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio, engenheiro naval e democrata cristão
Foto: Chega