O Percurso Judaico de Faro passa por 14 sítios e está dividido em duas partes. A primeira é dedicada ao período anterior ao século XV, e uma segunda parte, aborda o pós-Inquisição.
O local passa hoje despercebido, mas o eco que teve nas vidas de milhares de pessoas é digno de ser recordado.
O número 11 da Rua Ivens albergou o café de José Bento Ruah, o último elemento da comunidade israelita em Faro. Foi funcionário das finanças, negociador de antiguidades e agente de seguros.
No porta ao lado da sua, nasceram os gémeos Samuel e Joel Sequerra, dois judeus que viriam a mudar-se para Barcelona, onde, durante a Segunda Guerra Mundial, socorreram mais de um milhar de refugiados, que por intermédio dos irmãos farenses, escaparam aos horrores do Holocausto e dos campos de extermínio nazi.
Este é um exemplo de todo um legado que Ana Teresa Rodrigues, formada em Arqueologia e História e guia turística há 10 anos, tem vindo a divulgar desde 2014.
Até então, tirando o cemitério judaico, monumento nacional junto ao Hospital de Faro, «nada existia de palpável sobre a cultura hebraica» na cidade. Uma lacuna incompreensível, até porque o primeiro livro que se imprimiu em Portugal, o Pentateuco (conjunto dos cinco primeiros capítulos da Bíblia), foi composto na oficina do judeu farense Samuel Gacon, a 30 de junho de 1487. «Aliando esses dois fatores, achei interessante a ideia de criar um percurso temático», explica Ana Teresa.
Em novembro último, aquando da inauguração da «Exposição para a Difusão do Conhecimento – Núcleo Histórico da Imprensa de Gutenberg e do Pentateuco de Faro», patente na antiga capela do Paço Episcopal, a guia pensou em dar mais um passo.
Acrescentou um 14.º ponto ao percurso e começou a desenvolver um novo site, «independente e focado apenas no património cultural judaico da cidade de Faro», disponível desde 25 de março.
O Percurso Judaico de Faro passa por 14 sítios e está dividido em duas partes. A primeira é dedicada ao período anterior ao século XV, e uma segunda parte, aborda o pós-Inquisição.
A primeira paragem é na Rua do Município, onde a guia turística começa por contar que a história judaica no Algarve remonta ao século VI a.C.,« data atribuída a duas lápides funerárias encontradas perto de Lagos, um dos mais antigos achados arqueológicos da Península Ibérica». Em Faro, na altura, existiam 35 famílias judaicas e o porto da cidade foi utilizado para se proceder ao embarque dos judeus para locais como o Norte de África, em 1496.
Outra curiosidade é que a meio da Rua Manuel Belmarço, funcionou, provisoriamente, uma das sinagogas de Faro e a Casa dos Pobres, onde se acolhiam os judeus com menos posses financeiras. Já na Rua Castilho, coexistiam duas sinagogas. O Club Farense é outro ponto de itinerário, já que foi fundado, em 1863, por membros da comunidade judaica. Na Rua Filipe Alistão há um solar de arquitetura barroca onde residiu a família de Abraão Amram, um destacado comerciante e industrial. Em 1897, quando os reis D. Carlos e D. Amélia visitaram o Algarve e ficaram alojados no Paço Episcopal, Abraão Amram fez questão de emprestar as melhores peças de mobiliário, pratas e alfaias de sua casa, para que a família real tivesse uma estadia condigna em Faro. O Cónego da altura, monsenhor Pereira Boto, terá dito ao rei: «saiba vossa majestade que é muito difícil encontrar um cristão tão bom como este judeu»…
As visitas ao percurso são feitas por marcação, agora através do novo website, consoante a disponibilidade de Ana Teresa. A crónica sazonalidade do turismo algarvio também se faz sentir. «Os meses em que há mais procura são abril, maio, junho e setembro. Os preços variam consoante o número de pessoas no grupo», conclui. Segundo a guia turística, o público que maior interesse mostra nesta iniciativa são «famílias, grupos de judeus e muitos portugueses, mas todos os que estiverem interessados nesta cultura podem e devem participar».
António Valente, o guardião do Cemitério Judaico de Faro
O Cemitério Judaico de Faro guarda 76 túmulos e apesar de ter estado muitos anos ao abandono, em 1993 foi reaberto ao público, sendo um dos únicos vestígios da presença judaica em Portugal, depois da Inquisição. António Valente, o atual responsável pelas visitas guiadas no local, conta que no ano de reabertura foram plantados 18 ciprestes em homenagem a Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português que salvou 30 mil vidas durante a Segunda Grande Guerra, sendo que 10 mil eram judeus. E há uma explicação simbólica. «No hebraico não há números, por isso os judeus usam letras do alfabeto como números. Quando escrevem o 18 aparece a palavra chai, que significa vida».
O primeiro túmulo do local pertence a um rabino chamado Josef Toletano, que remonta a 1838. Já o último é o de Abraão Ruah, irmão de Samuel, um dos médicos de Salazar, presidente do Concelho de Ministros no Estado Novo. Ainda segundo António Valente houve mais uma família que se destacou na capital algarvia, «a família Sequerra», sendo que «hoje ainda há muitos descendentes, principalmente na Madeira».
Na visita ao local, o guia conta a história das três famílias mais importantes na comunidade de Faro, Amram, Sequerra e Ruah, mostra o mobiliário de uma das sinagogas de 1830 e apresenta um filme, narrado pelo judeu Isaac Bilton. «Há muitos judeus que vêm aqui, ainda no passado domingo tive um grupo de 110 pessoas da Bélgica», conta o responsável.
Apesar do Cemitério não estar diretamente relacionado com o «Percurso Judaico», Ana Teresa e António dizem trabalhar em sintonia. «Há muitas pessoas que vêm diretamente do percurso para aqui e muitas vezes eu próprio conto que temos um percurso disponível», refere o professor de História.
Para o futuro, os dois historiadores têm planos. Ana Teresa gostava de conseguir criar um Centro de Interpretação. Já António Valente está a pensar escrever um livro, até porque «tenho mesmo muitas folhas soltas escritas».
Atualmente há 14 famílias de judeus no Algarve, contudo, em Faro, outrora a cidade algarvia de maior relevância para a comunidade, apenas existem duas famílias que, segundo António Valente «nem sequer falam português».
Já as visitas ao Cemitério Judaico de Faro, na companhia de António Valente custam cinco euros por pessoa e têm a duração de hora e meia. O cemitério é responsabilidade da Comunidade Israelita de Lisboa e independente do projeto de Ana Teresa. No entanto, os membros daquela comunidade «ficam contentes por valorizarmos este património», relata.
Ideia remonta a 2010 mas só agora funciona
O primeiro caminho judaico nasceu em 2010 pela vontade de duas dezenas de interessados, sendo um dos quais, o então autarca José Macário Correia. António Valente, professor de História reformado e atual responsável pelo Cemitério Judaico, foi o percursor da ideia.
O objetivo era mostrar a marca cultural que os judeus deixaram na cidade. Apesar de inovadora, a iniciativa acabou por ser posta de lado, devido aos problemas de saúde do professor e à falta de tempo para lhe dedicar. Mais tarde, em 2014, Ana Teresa escolheu os 13 pontos mais relevantes da cidade e criou o Percurso Judaico de Faro.
A Câmara Municipal de Faro, que ainda hoje é parceira, colocou 13 placas explicativas em vários pontos. Hoje sobram apenas oito, já que cinco foram furtadas. Está a ser pensada uma solução alternativa para as substituir.





