Quando se fala no «País» e nas dificuldades que atravessará, poder-se-ia pensar que o mesmo é constituído por uma massa homogénea de interesses, afetados de igual forma por tais dificuldades, quando, na verdade, assim não é, sendo, ao invés, múltiplos os interesses que nele se manifestam, não raro contraditórios entre si, fato demonstrado pela existência de toda uma pluralidade de partidos políticos que lhes dão expressão. De resto, se assim não fosse, justificar-se-ia, apenas, a existência dum único partido, tipo «União Nacional», refletor da pretensa homogeneidade dos interesses existentes, como acontecia no tempo do fascismo.
Traduzindo-se, pois, a realidade do país em múltiplos interesses, conflituando, não raro, entre si, de que o observado, amiúde, entre o capital e o mundo do trabalho, é um exemplo, a forma, entretanto, encontrada para os «gerir» foi o recurso ao regime classificado de Democrático, com regras que lhe serão próprias e que todos os «oficialmente» intervenientes na peleja política terão aceitado, ainda que, depois, cada interesse em presença e consoante a correlação de forças num dado momento existente, procure interpretá-las de forma a tirar o máximo proveito delas, mesmo que enviesadamente. Afinal, já Churchill reconhecia que tal regime não é perfeito…
Assim, na interpretação das regras do mesmo que se possa fazer, ao pretender-se reconhecer ao partido mais votado em eleições legislativas o direito a constituir governo, não será menos verdade que, também, se poderá interpretar as ditas como concedendo aos demais par-tidos que, per si, menos votos obtiveram, o direito a opor-se a essa governação (por isso, se fala em partidos da «oposição»), com todas as consequências, em termos de «estabilidade governativa», que daí possa advir, se estes últimos, todavia, no seu conjunto, somarem mais representantes no Parlamento do que o primeiro. Dir-se-á, neste caso e no seguimento da imperfeição reconhecida por Churchill, que são os «custos» que o regime, também, terá de suportar, ainda que sendo sempre dentro das suas regras que os tais custos deverão ser atenua-dos/ultrapassados…
Entretanto, não deixa de ser curiosa a forma, como na disputa entre os diversos interes-ses/partidos em jogo, se chama à colação o coletivo povo, do tipo o povo deu a vitória ao partido «X», ainda que o dito partido só tenha recebido uma percentagem minoritária do seu voto ou o povo quis que o partido «X» governasse, ainda que sem maioria absoluta, como se o povo, antes das eleições, se tivesse reunido num grande plenário nacional e decidido, previamente, qual o número de votos a atribuir a este ou àquele partido! Não seria mais transparente evocar-se, tão só, as «regras» do regime, para se fazer esta ou aquela exigência à luz dos votos recebidos?
Talvez por, tantas vezes, ver evocado o seu nome em «vão», é que o povo se tem vindo cada vez mais a demitir do regime em causa, voltando as costas aos atos eleitorais que lhe são próprios, vendo no dito uma «gestão» de interesses, mas viciada!
A não ser que se entenda que tudo se resume a uma inocente questão «semântica», mal compreendida pelo dito povo.
Foto: © Andrés Monroy-Hernández