Ambicionamos o reconhecimento da qualidade do nosso produto e da nossa marca, isto poderiam dizer os escritores residentes no Algarve que tenho tentado realçar nesta rubrica que tem por guia o seu título – Da minha janela vê-se o Algarve – e este desejo de chamar a atenção para os muitos livros de qualidade editados no Algarve, que constituem por assim dizer um produto e uma marca locais.
Com as limitações que me são próprias e as da rubrica em si, desde logo o número de caracteres disponíveis (dois mil e quinhentos a três mil, incluindo espaços) tenho-me esforçado por levar o meu propósito avante. Mas voltando ao princípio, digo-vos que a frase com que comecei este artigo pertence à presidente da associação de produtores de ostras da Culatra, Sílvia Padinha, devendo no entanto ler-se «das nossas ostras» onde escrevi «do nosso produto».
Não sei se gostam de ostras, caros leitores, mas, em caso afirmativo, creio que preferirão as melhores e (talvez, porque não?) as que são de produção local, como as certificadas «Ostras da Culatra» de que se falava numa das últimas edições deste jornal, ideia que me pareceu bastante boa.
Quanto aos livros as coisas não me parecem muito diferentes (e eu sei que me vão criticar por esta afirmação!), porque se queremos literatura de qualidade no Algarve não me parece nada uma má ideia (aliás parece-me a única razoável) privilegiar a produção local, dando preferência aos livros de qualidade aqui editados. E isto implicaria desde logo uma política efetiva de apoio por parte das entidades locais e não vagas declarações de intenções.
Sei que esta conversa daria (e tem dado) pano para mangas e que é eivada de escolhos (para não lhes chamar preconceitos), mas não tenho espaço para muito mais, que os caracteres já começam a escassear para o tanto que haveria a dizer e que tem de ser dito e discutido. E eu, verdade seja dita, não sou dado a falar sozinho e ainda quero trazer aqui um poeta (e advogado) que vive em Faro mas nasceu em Tavira, como o poeta Álvaro de Campos.
Tiago Nené, é este o poeta, foi publicado, além do mais, numa edição bilíngue, pelo Ajuntamento de Punta Umbria, Andaluzia, Espanha, nunca tendo recebido essa atenção em Portugal. E o mesmo aconteceu a outros autores algarvios e portugueses que integraram a coleção em causa. Não vou comentar, acho que neste casos os factos falam por si. Tire o leitor as suas conclusões.
Mas vamos ao poema, retirado de Polishop, edição de 2010. Como comecei com ostras escolhi um poema de amor, pelas notórias características afrodisíacas comuns às ostras e aos poemas.
SINFONIA DAS NUVENS
eu acho que te amo, disse.
como se o amor,
o verdadeiro amor,
admitisse
algum tipo de dúvida
Até à próxima, caros leitores, e sejam felizes no amor, na gastronomia e nas leituras.
PS – para ser honesto, e eu tento sê-lo, ainda me sobraram alguns caracteres, mas a verdade é que já disse o que planeei dizer.
Crónica «Da minha janela vê-se o Algarve» de Luís ENE.