O diagnóstico está feito. A «má qualidade da gestão» do Centro Hospitalar do Algarve assenta «na deriva economicista das políticas de saúde» e causou várias complicações. «Por exemplo, perdeu-se a idoneidade em Cirurgia (em Faro) e a Ortopedia está sob ameaça séria, tal como a Anestesiologia», sublinhou Jaime Teixeira Mendes à plateia, que juntou alguns dos 149 internos que começam este mês as suas carreiras nos três agrupamentos de centros de saúde da região e nas unidades hospitalares do CHA.
Avisou sobretudo aqueles que vão passar pelos serviços dos hospitais que «é um ambiente crispado, de médicos que procuram fazer o seu trabalho com qualidade, mas muitas vezes traídos pelas orientações da administração, que consideramos ter desempenhado as suas funções desastrosamente e ter mesmo violado, muitas vezes, normas elementares que fazem parte da nossa profissão».
«O ano passado, o presidente do concelho de administração» do CHA, Pedro Nunes, «que é um ex-bastonário, chegou a pressionar os internos do primeiro ano a fazerem 24 horas de urgência, mas acabou a recuar para o que foi regulamentado», ou seja, 12 horas ou 18, no limite. «Mas é este o presidente que vão ter, esperemos que não por muito tempo. A continuarmos assim, tudo se destruiria. Quanto a mim já tarda a substituição desta administração que não tem uma única voz a defendê-la», disse.
Já depois do discurso, o «barlavento» questionou Jaime Teixeira Mendes sobre qual seria o perfil ideal para o sucessor de Pedro Nunes. «Teria que ser um bom gestor, que por um lado, começasse a dar importância à gestão intermédia, penso que isso é uma falha», permitindo mais autonomia a Portimão e Lagos.
Por outro lado, «sei que toda a Ordem dos Médicos está contra este tipo de nomeações, isso é garantido. Nomeações políticas, de gestores que provavelmente estavam mais próximos do partido, do que pelas suas capacidades de gestão».
Segundo este dirigente, cirurgião pediátrico, esta lógica contamina toda a hierarquia. «O gestor nomeia o diretor clínico, que depois nomeia os chefes de serviço. Antes não era assim. Os chefes de serviço ocupavam o cargo por concurso. Penso que este Ministério tem de repor isso. Aliás, propus ao ministro regressar ao antigamente, em que o diretor clínico era eleito pelos médicos do hospital. Isso funcionou e era democrático. Agora, a nomeação política é que tem tendência a dar estes problemas. É um pouco uma ditadura, não é?», questionou.
Jaime Teixeira Nunes deixou também claro ao «barlavento» que a Ordem dos Médicos apoia uma eventual reversão do processo de fusão do CHA, mantendo todos os serviços e valências nos hospitais de Faro, Portimão e Lagos, tal como antes.
«Exatamente. Tem que ser. Penso que estes centros hospitalares foram criados numa ótica economicista. Nas normas internacionais, nunca se juntou dois hospitais numa distância com menos de 60 quilómetros. Para mais com as estradas que existem no Algarve, principalmente se for necessário usar a EN125», disse.
Sobre a ameaça de perda da idoneidade do serviço de ortopedia, «uma das coisas que impressionou mal os colegas foram as queixas dos internos, pois o Dr. Pedro Nunes proibiu todos de irem a um congresso. Estas idas fazem parte da formação dos internos, alguns até tinham trabalhos a apresentar. Ora, isto é um decisão ditatorial». Dentro de seis meses haverá uma nova visita da Ordem dos Médicos a este serviço, prazo para verificar os parâmetros exigidos pelo Colégio de Ortopedia. Caso não sejam corrigidos neste prazo, não será possível formar mais médicos nesta especialidade no Algarve.
Por último, o «barlavento» perguntou o que falta à região para fixar, definitivamente, mais médicos? «É o bom ambiente e a boa formação. As pessoas não podem trabalhar sempre com uma chefia a criticar. Não se pode chamar burros aos internos, logo no primeiro ano. Um diretor de serviço não pode fazer isso, mesmo que pense», concluiu.
Internos trabalham 28 horas de seguida
Um médico que está a iniciar a especialidade em Medicina Geral e Familiar (MGF) e que foi interno no Barlavento, confirmou, em conversa com os jornalistas, «que esta fusão fez com que muitos dos recursos de Portimão tenham sido transferidos para Faro, e os de Lagos para Portimão. Fiz três meses de estágio em Lagos e a falta de médicos era de tal forma descomunal que, no meu primeiro dia de estágio, cheguei a estar eu e um interno do primeiro ano para 40 camas. E nem tinha especialidade naquela área. Na questão das horas de urgências, por norma, as 12 horas são humana e eticamentemente o mais correto. Mas presenciei na medicina interna, diversas vezes, e noutras especialidades os internos trabalharem além das 24 horas», denunciou sob anonimato. «É típico, um interno do primeiro ano da formação especifica fazer as 24 horas de urgência que lhe são indicadas, e depois disso ainda ver os doentes internados, fazendo 28 horas de trabalho total, de seguida». E «o problema não é individual, é da comunidade médica. Quando isto se torna um hábito, há a pressão do grupo. Quem escolheu vir para cá e tem pretensões de ficar, é muito difícil ir contra. Há uma campanha de medo que esconde a verdade», denunciou.
Debandada de médicos teve pico em 2015
Em 2015 saíram de Portugal mais de 400 médicos para a Europa, Arábia Saudita e Estados Unidos da América, segundo o presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos, Jaime Teixeira Mendes. «O problema é que o incentivo que é dado para fixar médicos no Algarve ou Alentejo é sempre muito menor do que vão receber para irem para França, por exemplo, que é agora um país que está a recrutar muitos médicos portugueses. Enquanto aqui vão ganhar mil e poucos euros, na Europa chegam a oferecer 10 mil euros mensais», considerou. «Não defendo tais aumentos, mas tem que haver incentivos não só monetários, mas sobretudo bom ambiente de trabalho», sublinhou.