Minimizar as perdas de água, poupar este recurso renovável e melhorar as condições de rega no perímetro de Silves são alguns dos argumentos que justificam o investimento da Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão.
Até aqui, os agricultores eram abastecidos através de um sistema de valas ou canais abertos, que remontam a meados do século passado, tal como a velhinha Barragem do Arade. Mas, até ao final deste ano, um novo sistema vai trazer a água sob pressão, como explicou ao «barlavento» o presidente da direção José Vilarinho.
Para melhor compreender a razão deste projeto, que compreende duas fases de execução, é necessário recuar alguns anos.
«Quando a direção pensou em fazer esta remodelação, o objetivo era a economia da água. Temos um sistema aberto e vamos implementar um sistema fechado, com canalização». O sistema de vala tem sempre perdas, no caso de Silves entre os 35/40 por cento do caudal, devido à inclinação e à geografia do terreno. E para que se possa manter um nível razoável no canal, a água tem de estar sempre em movimento. O que leva a desperdícios no final do circuito de rega.
O plano inicial previa que a água fosse bombeada do canal para um depósito. Em seguida seria distribuído sob pressão ao território rural dentro do perímetro de rega de Silves. Entretanto, enquanto o projeto não era candidatado a fundos comunitários, a Barragem de Odelouca entrou em funcionamento, passando a ser a preferência da empresa «Águas do Algarve» para o abastecimento de água em alta, deixando para trás a do Funcho.
«Passámos a ter disponibilidade de acesso à Barragem do Funcho, que foi construída para abastecimento público e para rega, com a intenção de criação de um novo perímetro».
Mas a verdade é que não houve dinheiro para essa nova delimitação de rega, tendo a «Águas do Algarve», para não deixar o Funcho sem uso, aproveitado a água daquela barragem, considerada então em excesso para a agricultura. Esta situação, acabou por prejudicar a associação. Passou a ter «menos água do que antes», apesar de existirem na mesma linha, a pouco quilómetros de distância entre si, duas barragens.
A do Funcho, mais a norte, era prioritária para fornecer o consumo doméstico, enquanto a «agricultura ficava com as sobras». Se a «associação já tinha problemas, passou a ter um maior: a falta de água», recordou o dirigente. Com a entrada em funcionamento de Odelouca, o Funcho ficou, supostamente, liberto para a agricultura, pois mais ninguém lhe deu uso. «Temos ali um depósito, que não tem utilização».
Foi por esta razão que a associação retificou o projeto original. «Em vez de irmos bombear ao canal, com este sistema vamos buscar a água ao adutor do Funcho-Malhão que já tem pressão».
Esta alteração significa ainda uma poupança de 1,7 milhões de euros na execução do projeto e de um milhão de kilowatts por ano. Esta nova versão já foi candidata a fundos comunitários.
Com o financiamento assegurado, a associação previa gastar 6,5 milhões na nova obra. No entanto, surgiu ainda outra ideia. Porque não prolongar a conduta e levar mais água para o concelho vizinho, numa segunda fase do projeto? Até aqui a água tem sido bombeada para Lagoa.
O projeto voltou a ser alterado, sendo aumentado o diâmetro da tubagem e acrescentados 800 metros ao comprimento da conduta principal. Ficou em 8,4 milhões e foi a concurso público por esse valor, esclareceu Vilarinho.
Agora, com a obra quase finalizada, pois deve estar concluída no final de setembro, coloca-se a questão do pagamento pelo consumidor. Se o sistema passa a ser fechado e são implementados contadores há que definir um custo para o utilizador. Aqui há uma polémica, segundo o presidente desta associação, com as entidades oficiais a tentarem «meter-se naquilo que diz respeito a estas associações», com a justificação do recurso aos fundos comunitários para a construção do sistema.
Desde 2002 há uma diretiva que implementou duas taxas a pagar – exploração e conservação – quando neste perímetro a taxa era única. A universalidade da aplicação da norma leva a que os agricultores do sul sejam «mandados pelos do norte, que não usam a rega», pois só a «utilizam no inverno para retirar o gelo», acusa Vilarinho.
No sul é necessário regar, porque não chove. A opção deste responsável e da direção que o apoia é que «a obra foi feita e não é para ficar pendurada, é para ser usada». Se o seu uso for eficiente acabará por gerar rendimento. «Então a direção decidiu cobrar a taxa de conservação, maior que o custo da conservação», começa por argumentar. No entanto, esta tarifa «inclui 70 por cento do consumo médio normal das plantações».
Isto é, se o agricultor gastar esses 70 por cento, não paga mais na fatura. «Quase que obriga a usar aquele bem que é disponível. Esta medida já está em vigor devido à lei de 2002», justificou. A associação deverá aumentar o custo do serviço, mas fazendo crescer também a percentagem de utilização para um valor entre os 70 ou 80 pontos percentuais.
Na opinião de Vilarinho, quem usar este recurso de forma correta não deve ver esta medida como um aumento, mas como uma penalização para quem não gere bem este recurso. O único dilema é que os preços devem ter que ser diferenciados entre Silves e Lagoa. Não tem lógica que os utilizadores de Lagoa, ainda com o sistema antigo, paguem por um serviço que só têm entre abril e outubro, quando em Silves o abastecimento de água para a rega passa a ser diário, todo o ano, com a comodidade de abrir uma torneira. Os contadores passam a ser obrigatórios, para monitorizar os consumos.
«Temos que pôr o contador, senão isto é uma rebaldaria pegada. Se eu não tiver que pagar água, ainda que as pessoas sejam boas, pensam, não fechei a torneira, que se lixe. Não, aquilo está a contar» e a gastar sem necessidade.
Associação garante a todos os agricultores que pagará indemnizações
O projeto original, orçado em 6,5 milhões de euros, incluía 600 mil euros para indemnizações aos agricultores. Contudo, o orçamento da obra que está atualmente a ser feita, não contempla nenhuma verba para esse efeito. No entanto, José Vilarinho garantiu ao «barlavento» que a associação pagará os valores «justos a que cada um tem direito».
«Pede-se dinheiro emprestado se for necessário. O facto é que a associação vive do que os agricultores pagam para o serviço», sublinha.
Vilarinho alerta ainda que há quem tenha direito a receber indemnização, «mas há outros que têm que pagar», afiançando que a associação não deixará de cumprir as suas obrigações.
«Problema político» não deixa abrir as torneiras
A nova infraestrutura vai, em princípio, beneficiar todos no perímetro rural de Silves – jovens agricultores, idosos, arrendatários, proprietários e até residentes estrangeiros.
Mas apenas quando estiver resolvido um obstáculo, para o qual a engenharia não tem solução. «Verbalmente já o disseram, mas ainda estou à espera que as entidades oficiais nos confirmem por escrito: sim senhor, pode ligar o seu sistema ao adutor do Funcho». José Vilarinho diz que o projeto foi implementado no terreno com «alguma base de fundamento».
Foi-lhe garantido que poderia fazer a ligação direta ao adutor da barragem do Funcho, atualmente em desuso para o abastecimento doméstico, e como tal, livre para a rega. Contudo, apenas tem «uma confirmação do Secretário de Estado do Ambiente, de que a associação pediu verbalmente às entidades e que lhe foi dito que sim».
Depois de vários pedidos de esclarecimento por escrito, solicitou uma audiência em abril passado. «Disseram-me que isto é um “problema político” e que será respondido antes das eleições» marcadas para 4 de outubro. «Não acredito que haja alguém que tenha coragem, depois de a obra estar pronta, de dizer que não, e ficam os seis milhões ali parados, inúteis. Acho que ninguém tem coragem para fazer essa asneira», acredita o presidente da direção da Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão, que ainda espera comemorar a «festa da ligação».
A remodelação do bloco de rega de Silves
O novo sistema que substitui as velhinhas valas a céu aberto, está pensado para ir buscar água diretamente ao adutor que vem da barragem do Funcho. No local, a cerca de seis quilómetros de Silves, está a ser ultimada uma central de filtragem. Daí sairá a água da rega através de uma conduta principal de seis quilómetros, rumo a Lagoa, a jusante.
O sistema trabalha por gravidade. Na origem, a água escoa através da conduta principal do sistema, de 1000 mm de diâmetro, passa paralela à EN124, atravessa o leito do Arade e segue para o concelho vizinho. Nesta fase final do circuito, enfrenta uma subida através de uma série de condutas de 800mm.
Apesar de não ser um sistema de grande complexidade técnica, a rede integra ainda várias condutas secundárias, que levam a água às propriedades espalhadas por uma área total de cerca de 800 hectares, nas zonas da Norinha, Casinhas, Garrado, Pedreira e Santo Estevão. A dimensão das parcelas agrícolas que vai servir varia os 0,1 hectares e os 30 hectares. As condutas secundárias vão dar a hidrantes, que distribuem a água homogeneamente por cada zona agrícola (entre várias propriedades), a uma pressão máxima 0,4MPa.
O débito final da torneira é ajustado conforme as necessidades e a dimensão de cada exploração, e contabilizado por um contador. A obra está a ser feita pela empresa Construtora – Oliveiras S.A e é acompanhada na Gestão e Fiscalização pela Riportico Engenharia Lda.
Contadores instalados depois da conclusão da obra previne roubos
O sistema agora implementado pela Associação de Regantes e Beneficiários de Silves, Lagoa e Portimão no perímetro de rega de Silves, até podia nem ter contadores, mas esta é uma medida que tem que avançar no projeto, devido à norma do uso eficiente da água.
E para quem pensa que fica barato instalar este instrumento de medição, engana-se. A mão de obra, equipamento e ligação ronda os 1140 euros, por cada um. Porque se trata de uma peça em metal, o contador só será colocado após este sistema estar a funcionar, segundo explicou ao «barlavento» José Vilarinho.
«Quem os rouba acaba por vendê-los por 50 euros…», estima. O responsável afirma que, no Sotavento, chegam a desaparecer cinco contadores por semana. «Colocar uma identificação do perímetro de rega no equipamento» é uma das ideias para desencorajar os furtos. No total, serão colocados 800 equipamentos, faltando apenas resolver um pequeno detalhe para que tudo possa funcionar: a autorização da ligação ao adutor do Funcho.