Cortinas do palco do Teatro das Figuras, em Faro, abriram-se e mostraram o que se passa e quem está por detrás delas, quando o objetivo é organizar um espetáculo.
A sensação de ir ao teatro é também a de entrar numa sala e sentir o calor das luzes, o cheiro da madeira que faz o chão, de ouvir as pessoas a acomodarem-se nos seus lugares e a ansiarem pelo começo do espetáculo.
Numa peça de teatro, por vezes, os atores já se encontram em palco antes de as pessoas entrarem na sala. Isso permite-lhes ter um contacto antecipado com aqueles que irão ser os apreciadores da sua arte, nos momentos seguintes. As atrizes já estavam no palco e a música de fundo estava no volume perfeito: permitia ouvir os seus movimentos e o som do público a sentar-se. Eram quatro e encaravam diretamente as pessoas, com olhares intimidantes.
Antes do espetáculo se iniciar, mantiveram-se em constante movimento a aguardar quem ainda estivesse por chegar à sala, mas assim que as portas fecharam, a peça começou. «A gaivota», era assim que se chamava a peça de teatro da autoria de João Garcia Miguel, estreada no Teatro das Figuras a 5 de junho.
Por volta das 19h30 começava a ser encenada a «ideia de uma humanidade em profunda transformação das suas relações com o corpo». A prestação das atrizes excedeu todas as expectativas. Qualquer pessoa que assistisse sentir-se-ia privilegiada por ali estar e por poder fazer parte da plateia. A peça durou uma hora e todos os minutos contaram para entender a história que estava a ser contada.
Porque o teatro é isto, combinar as palavras com o tempo para encenar a veracidade ou ficção. Para que isso seja feito com total plenitude, todos os pormenores contam. Não é suficiente o ator saber as falas e as deixar de cor. Não basta haver uma dinâmica que permita ao público ser totalmente captado pela peça.
É necessário que as luzes, o som, os adereços, a qualidade do espaço, colaborem com tudo o resto. Os talentos que compõem uma peça de teatro não estão só naqueles que a encenam, que a cantam, que a tocam, mas também nos que a organizam. Um palco de um teatro é constituído, maioritariamente, pelo chão, que o sustenta, e por uns panos pretos, chamados de «pernas».
Encontram-se nas laterais do palco e servem para esconder tudo aquilo que está atrás delas e que não deve ser visto pelo público. Cobrem a área por onde os artistas entram e saem, mas não têm só esse fim. A maioria das pessoas que assiste a um espetáculo, não perde muito tempo a pensar no que poderá lá estar, ou melhor, em quem poderá lá estar. Por detrás dos panos pretos ficam o processo de organização do espetáculo e as tantas horas de trabalho e dedicação necessárias para que acontecesse.
Não só as que foram despendidas pelos artistas, mas também por todos aqueles que permitiram que estes pudessem subir ao palco. E quem são essas pessoas?
A dificuldade perante o ecletismo
No mundo da programação, a variedade e criatividade são critérios base e caminham lado a lado. «O Teatro das Figuras é uma sala que acolhe todo o tipo de espetáculos, e é assim que queremos que seja», afirma o diretor Gil Silva.
A variedade da sua programação pode ser encarada como um entrave na facilidade de organização, mas, simultaneamente, como um fator que gera uma maior adesão do público.
O facto de subirem ao palco espetáculos de música, dança e teatro permite aumentar a abrangência de espectadores, atraindo pessoas de todo o país, e até estrangeiros. A vertente musical, geralmente, é a mais fácil de organizar.
É uma temática bastante procurada, o que permite tornar os seus espetáculos «os mais rodados». A preferência do público é direcionada para os de hip hop e Fado. Já a música erudita, também frequente, não é tão procurada.
Cláudio Felisberto, diretor técnico de palco, considera que a maior dificuldade está «naqueles espetáculos que não contêm informação suficiente. Uma companhia que esteja prestes a estar presente no Teatro e que envie, previamente, uma documentação com todos os detalhes de luz, som, cenários, tem tudo para ser bem recebida. Um plano que contenha informações exaustivas e demasiado detalhadas é sempre preferível a orientações reduzidas e improdutivas. O aprumo técnico é difícil de antecipar e a sua ausência pode ser o caminho para um espetáculo falhado. Seja ele de música, dança ou teatro, durante o seu processo de organização, a comunicação é estritamente necessária».
Uma equipa de apenas 16 funcionários, mais o reforço por vezes necessário na área de design, de técnicos e produção, está encarregue de idealizar, programar e concretizar todo um leque de propostas culturais. E estrear, na mesma semana, espetáculos que implicam organizações distintas e recursos variados implica muito esforço e dedicação.
Se falhar um, falham todos
Quando assistimos a um espetáculo ficamos, muitas das vezes impressionados com a sua beleza estética. O nevoeiro fictício que aparece no palco sem estarmos à espera, os cenários que se alteram consoante a sonância das músicas ou os temas teatrais, as luzes e os sons que estão em constante sintonia com os artistas e que acompanham os seus ritmos e movimentos. É como se os elementos cénicos pressagiassem as atitudes do artista. A verdade é que já estava tudo programado.
Rui Favinha é o diretor técnico de cena do Teatro das Figuras, responsável pela manutenção da montagem dos projetores, dos circuitos e de conservar todo o material elétrico, desde cabos de som a cabos de vídeo.
À primeira vista, poderá parecer um trabalho fácil e simples, mas se essa manutenção falhar o espetáculo falha também. Rui Favinha permanece numa mesa do lado esquerdo do palco, onde controla as entradas e as saídas dos artistas, dá as deixas e auxilia caso algum deles se esqueça das falas. «Isto acontece tanto no teatro, como na música ou na dança. Portanto eu estou sempre aqui para orientar. Tem de haver alguém aqui a controlar isso», revela.
Não é somente a prestação dos artistas que define o sucesso dos espetáculos. Quando as luzes das salas voltam a ligar e o público se prepara para regressar a casa, ouvem-se muitos comentários a elogiar os cenários, «que estavam incríveis» ou o som que estava com «ótima qualidade».
Assim, quem esteve encarregue desses elementos, também teve uma boa prestação. O sucesso de um espetáculo envolve todos os desempenhos, tanto do diretor do Teatro, como dos técnicos Cláudio e Rui e restantes elementos da equipa. Os seus trabalhos são precisos e minuciosos.
«O sistema por vezes também falha», assume Rui Favinha, mas é responsabilidade destes garantir que nem este falhe, porque se isso acontecer, falham todos.
A luz e os horários são inimigos da perfeição
Parecia um autêntico labirinto. Cabos por todo o lado, objetos que só quem conhecia saberia identificar. Os degraus das escadas eram extremamente pequenos e a luz era quase inexistente. «Imagine-se então durante os espetáculos, que temos de andar aqui completamente no escuro», conta o diretor técnico de cena, Rui Favinha.
A preparação e manutenção do espetáculo nunca termina quando este se inicia. Por vezes fazem-se alterações que obrigam os técnicos a caminhar pelas estruturas do Teatro, ao escuro. Isto porque somente a luz de palco deve ser vista pelo público e qualquer outra que possa aparecer é uma intrusa. Por isso, durante essa manutenção, o técnico é entregue à escuridão e ao risco.
Na sala onde iria ocorrer a peça de teatro «A Gaivota», estavam dois técnicos a preparar os projetores de luz. Um deles estava num escadote, suficientemente alto que lhe permitia aceder ao teto. Fazia um trabalho que implicava tempo, cuidado e precisão.
Qualquer pressa ou movimento brusco poderiam colocar a sua vida em risco. «Este é um trabalho por vezes perigoso. E aqui não há horários. Estamos cá todos os dias e ao fim de semana também, torna-se difícil ter vida pessoal», afirma Rui Favinha.
O essencial é invisível aos olhos
Chama-se varanda de operação das varas e é onde os panos que cobrem o palco, bem como os cenários e outros elementos, são controlados manualmente. Funciona através de um sistema de contrapesos que permite puxar mais de 30 quilogramas, tudo de forma silenciosa.
O público não ouve e nem repara no trabalho de força que ali está presente. Dezoito metros acima do palco está uma sala de controlo de motores e de painéis. Ao entrar, o chão é feito de uma estrutura que permite ver toda a plateia. «É preciso não ter medo e ter muita responsabilidade», assume o técnico Rui Favinha.
O receio e as vertigens não podem estar definitivamente presentes na via de quem caminha por lá diariamente. A janela que vemos no fundo da sala de um Teatro é o local de onde os técnicos controlam a luz e o som. Mais uma vez não os conseguimos ver, mas assistimos ao trabalho que estão a desenvolver. A luz acende-se progressivamente e a música de fundo diminui. As atrizes regressam ao palco, de mãos dadas, e fazem vénias para agradecer a presença do público.
Na plateia, as pessoas aplaudem sem parar e algumas levantam-se porque sentem que um aplauso não é suficiente para expressar as emoções que estão a sentir. Sente-se a vontade de reviver aquele momento mais uma vez. Passam-se alguns minutos assim. As atrizes saem de palco e voltam a entrar, repetindo algumas vezes este ritual de agradecimento.
Alguns membros da equipa do Teatro estão na plateia. Aplaudem também, com um misto de orgulho próprio e comum. Os que não estão do lado do público, é certo que também expressam alegria por ter terminado mais um espetáculo com sucesso. O público sai, em fila, sobre as indicações de uma técnica de sala. Quem está por detrás das cortinas, permanece lá e prepara-se para os próximos espetáculos. As portas do Teatro encerram, amanhã haverá mais.
Esta reportagem de Marta Condeça, aluna de Ciências da Comunicação da Universidade do Algarve, no âmbito da Unidade Curricular de Jornalismo e Produção Editorial, lecionada por Filipa Cerol Martins, é publicada através de uma parceria com a docente, que selecionou os trabalhos mais originais para apreciação da redação do barlavento.



