Levados nas asas do amor como possibilidade de ocupação da memória da destruição, toda a inocência é possível e o destino humano um jogo sério.
Coimbra, 1987. As Asas do Desejo estreia no teatro académico de Gil Vicente. Então, estudantes, numa sala que nos fez crescer por dentro, mais do que as aulas na faculdade, vimos o filme de Wim Wenders, realizador que já nos havia deslumbrado com Paris, Texas.
São Brás de Alportel, 2024. O mesmo filme exibido no cineteatro da vila. Os anos passaram. Muitos sonhos voaram. Mas, felizmente, a capacidade de nos emocionar com a beleza e a tragédia da vida perdura.
Filmado numa cidade dividida, pouco antes da queda do Muro, o filme conduz-nos numa descida do céu, através do olhar dos anjos, até ao chão palpável da realidade quotidiana dos seus habitantes. Ignorado o muro pelos anjos Damiel e Cassiel, que deambulam pela cidade, invisíveis aos mortais, escutando pensamentos, presenciando acontecimentos e confortando os berlinenses nas suas preocupações diárias e dramas existenciais.
Do pano de fundo da História, cujas feridas são ainda um campo aberto, percorrido pela memória do personagem mais idoso que procura reconstituir mentalmente os lugares de outrora. E também, em paralelo, do plateau onde decorre a rodagem de um filme sobre a Alemanha nazi, para o qual foi convidado o ator Peter Falk (Columbo), ele próprio um ex-anjo.
Sensível e filosófico. Este é também um filme que nos convida a amar. Somos seduzidos pela paixão, da vida e da mulher, tal como um dos anjos que deseja tornar-se humano ao apaixonar-se pela trapezista do circo e poder experimentar as alegrias e tristezas de cada dia (magoar-se, beber um café, sentir frio e aquecer as mãos).
E finalmente o encontro, no bar de uma sala de concertos, ao som de From Her to Eternity, de Nick Cave, esse anjo negro, qual anunciação nascida nas profundezas do desespero amoroso.
Marion – Nós somos agora o tempo. Não apenas a cidade. Todo o mundo toma parte da nossa decisão. Tu e eu. Nós dois somos agora mais…representamos o povo e todos os lugares estão cheios de gente que sonha o mesmo que nós.
Levados nas asas do amor como possibilidade de ocupação da memória da destruição, assim como pela narrativa poética: Quando a criança era criança perguntava: porque é que eu sou eu? porque é que não sou tu? (Peter Handke), que vai pontuando o filme, toda a inocência é possível e o destino humano um jogo sério.
Nota: Obrigado ao Nuno Cardoso pelo cartaz, à Associação Cinema Lua e à sua criteriosa e regular programação que, com o apoio do município, dá a ver em S. Brás de Alportel alguns dos melhores filmes da atualidade assim como algumas pérolas da história do Cinema.