O objetivo de uma estrada nacional é garantir uma fluidez de tráfego rodoviário entre zonas descontínuas, tal como a algarvia EN125 deveria possibilitar a circulação viária dentro da região. Infelizmente, o que assistimos presentemente é a uma estrada cada vez mais disfuncional e esquecida das funções que lhe assistem.
Um problema com decénios, é certo, mas agravado com as melhorias introduzidas, um paradoxo indecifrável. De trás vem o mau hábito de os autarcas não conseguirem afastar as habitações e as múltiplas ligações diretas feitas na via, o que ocasionou garagens a despejar carros diretamente para lá, mil caminhos de terra batida a desembocarem na via, restaurantes, lojas e publicidade pejando as margens. Mas isto foi ontem. Hoje, o que os engenheiros e quejandos vieram propor não foi corrigir e minorar os erros do passado, mas simplesmente validá-los definitivamente.
Reconheça-se o mérito das variantes construídas em Lagos, Almancil e Faro, mas é muito pouco em comparação com os prejuízos causados pela rotundização de uma estrada nacional, que assim fica reduzida a avenida ou coisa que lhe valha. O objetivo de uma estrada nacional é conseguir rapidez nas deslocações, pelo que, em geral, deve garantir a possibilidade de conduzir com velocidades máximas e em segurança. Os engenheiros responderão que a segurança foi tida em conta com as 1001 rotundas previstas, pois reduzem a perigosidade dos nós de ligação, onde ocorrem mais acidentes.
Os senhores do canudo estão certos, o que não parece acertado é conseguir baixar a sinistralidade de uma via de escoamento regional à custa de a reduzir a uma rua urbana. Veja-se o absurdo da rotunda em via nacional: de acordo com o código de estrada, na rotunda a prioridade é de quem está a circular lá dentro, o que significa que um veículo que se desloque em estrada nacional tem que abrandar à aproximação da rotunda e dar prioridade a um outro que use aquele nó para seguir da estrada de terra batida de Barrancos de Cima para Barrancos de Baixo.
Numa rotunda todas as vias que lá desaguam são semelhantes e de igual prioridade. Quais seriam as alternativas construtivas? São mais caras, concedo, mas permitem manter a eficiência de uma estrada fundamental para a vivência do Algarve, porque uma estrada cheia de nós é como uma artéria cheia de coágulos, o sangue até pode circular (com dificuldade), mas a qualidade de vida da pessoa não será a melhor.
Por exemplo, na cidade de Lagoa o que justifica uma rotunda para distribuir o tráfego para Carvoeiro, criando um tamponamento da EN125. Não será defensável que a estrada principal flua em túnel e se instalasse uma rotunda por cima? O mesmo para os semáforos de Ferreiras/Albufeira.
Não seria desejável que as estradas secundárias se ligassem por uma série de viadutos e vias de aceleração e desaceleração, mantendo sempre a prioridade da uma estrada essencial em detrimento de vias puramente locais? Não seria de indemnizar algumas pessoas e retirar garagens e acessos quase diretos de casas particulares a esta importante rodovia? É que mantendo em foco o principal objetivo, a circulação fácil pela EN125, não a tornaríamos obesa como está atualmente, dificultando o atravessamento da região e poluindo ainda mais do que deveria, sendo reconhecido que o trânsito de para e arranca não só mata uma economia como também produz mais poluição atmosférica.
Tantas expetativas foram criadas nos algarvios para tão mal acabada solução técnica. Nem sequer se cogitou fazer uma ciclovia ao longo do seu percurso, dando acolhimento aos transportes suaves. Optou-se apenas pelo mais fácil, para diminuir as estatísticas da sinistralidade, porém reduziu-se a estrada a uma avenida. Talvez, agora, até fosse de colocar umas árvores em separador central e nas bermas, para tornar mais agradável o passeio. De resto, estas obras na velha estrada EN125 apenas merecem um rotundo esgar de desdém dos algarvios e dos que visitam estas paragens durante todo o ano. Só falta irem buscar a Joana Vasconcelos para decorar as rotundas e, talvez aí, a asneira fique apenas com ar de asneirinha.
Opinião de David Roque | Professor de História