Posso estar enganado. E tudo isto não passar de uma simples provocação. Mas, penso. A minha região não é verdadeiramente cosmopolita. O Algarve gosta de ver passar, aproveita, mas não aprofunda.
Podemos sempre optar pela justificação agradável da História, de que o Sul, desde as colónias comerciais fenícias à organizada, urbana e duradoura ocupação romana, passando pela presença árabe e a formação do evoluído Al Andaluz, com a sua cultura marcadamente urbana e comercial, os muitos conhecimentos técnico-científicos, da náutica à medicina, do esplendor das letras à tolerância religiosa, toda essa herança cultural, de que somos portadores, rica e profunda herança civilizacional e cosmopolita!
Bem… mas depois temos aquela versão do comer na gaveta, mais localizada em Tavira, podendo ser mais ou menos generalizada, expressão forjada, sabe-se lá em que realidade… pirataria moura, a ligar a outra expressão popular há mouro na costa ou ao corso inglês… Ou apenas, feitio de gente. E ouvimos constantemente que os do Norte abrem mais facilmente a casa, convidando a entrar.
Contudo, se tivermos em conta uma definição de cosmopolita:
adj. Que é frequentado ou visitado por pessoas de todos os países. E também sinónimo de internacional. Então o Algarve é a região mais cosmopolita de Portugal. E cidades como Faro, Olhão e Portimão são cidades verdadeiramente cosmopolitas.
Mas temos também a definição de cosmopolita como:
Cidadão do mundo, alguém que se sente pertencendo a diferentes culturas e lugares. Ou a definição de cosmopolitismo: ideia de fraternidade, de que fazemos todos parte de uma comunidade global, como irmãos de um mesmo mundo.
Bem… entre a herança cultural e as ideias feitas, qual a análise e a reflexão mais ajustada à realidade…
O problema do Algarve, no presente, é dedicar-se demasiado à exploração económica da presença dos outros, quase exclusivamente ao turismo, sacrificando território e beleza natural à custa de tanta empreitada, em vez de se encarar mais na sua identidade, história e projetos de futuro assentes nos pilares de uma consciência coletiva ecológica e social, ou seja, de harmoniosa relação entre a ação humana, o meio ambiente circundante e a construção de uma sociedade mais justa.
Só o entendimento do futuro, do que projetamos e pretendemos dos dias do amanhã, nos pode resgatar do melhor passado.
Paulo Penisga | Professor
