Exposição na sede regional do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) de Faro marca a efeméride. Núcleo de Banda Desenhada e Animação do Algarve quer passar o legado às novas gerações de autores algarvios.
Começou por ser só um grupo de amigos algarvios com gosto pela banda desenhada, que surgiu nos finais do anos 1990, no meio académico. Uma paixão que se estendeu a uma escala internacional, recorda Fernando Madeira, 46 anos, licenciado em Design de Comunicação pela Universidade do Algarve (UAlg) e conhecido no mundo da nona arte pelo nome artístico de Phermad.
Hoje «faço storyboards para anúncios, banda desenhada, e muito cartoon. Ao nível amador também crio as minhas personagens», diz.
Com quase um quarto de século de experiência na arte de contar histórias com desenhos em quadradinhos, Phermad vê uma diferença positiva entre passado e presente.
«Naquela altura, cerca de 80 por cento da banda desenhada era feita por rapazes. A autoria feminina era residual. Agora, o panorama é muito mais equilibrado. Antes, as mulheres interessavam-se sobretudo pela pintura, pela arte final, mas, felizmente, hoje já têm as suas histórias, as suas personagens, os seus mundos», compara. Por outro lado, o interesse não passou de moda nem desapareceu com a mudança dos tempos.
«Há uma transição. A juventude ainda tem muita vontade. No mundo digital de hoje é possível, por exemplo, um autor do Algarve conseguir chegar aos grandes festivais internacionais».
E temos qualidade para isso? «A evolução tem sido boa, embora as oportunidades temos de ser nós a criá-las. Mas há uma continuidade. Há sempre sangue novo a surgir, e este Núcleo serve para isso. Ao nível de retorno financeiro, em Portugal a banda desenhada é quase algo para amadores, como se fosse uma arte menor. Isso deixa-me triste».
No entanto, isso nunca foi obstáculo para o historial de edições que o núcleo tem. Quando entrou na UAlg, «fez-me sentido unir várias pessoas que gostavam de banda desenhada. Falávamos muito das novidades e dos eventos. Foi aí que surgiu a ideia de lançarmos um fanzine [publicação não profissional, produzida por entusiastas de uma cultura particular, para o prazer de outros que compartilham o mesmo interesse], uma revista onde juntássemos os trabalhos que tínhamos na gaveta, para os pôr cá fora. Queríamos estar unidos, agregar esforços», até porque já existiam outros fanzines, e havia oportunidade de estarem no Festival de Banda Desenhada da Amadora, Salão do Porto ou mini feiras de fanzines.
Assim, no início de 1998, «fiz uma maquete, chamada Humortovivos, porque a temática era a crítica social com casos mediáticos daquela altura. O projeto foi apresentado no IPJ, e o diretor Custódio Moreno gostou da ideia, por ser um trabalho criado por jovens. Como nem todos os trabalhos tinham essa vertente de humor, decidimos mudar de nome para Terminal», recorda.
«Começámos a fazer permutas de trabalhos. Mandávamos desenhos para outros fanzines e outros autores também mandavam para nós. Por exemplo, tínhamos a Teresa Câmara Pestana, editora do Gambuzine, e os trabalhos dela tinham uma vertente diferente dos nossos. Também colaborámos com o autor algarvio José Carlos Fernandes, um dos mais conceituados de Portugal. Deu-me permissão de publicar desenhos inéditos. Alguns foram capa, outros foram editados em posters, outros em edições especiais. Por tudo isso, crescemos muito».
E mais. «Durante o curso de design, a fanzine acabou por ser um balão de ensaio para mim e para outros colegas. Muitos usaram-na como uma plataforma para projetos mais arrojados, antes de entrarem no mercado de trabalho».
O Terminal publicou-se até 2006. «No final, já tínhamos muitos colaboradores de Leste e do Brasil. Chegámos a ter um colaborador da Alemanha e outro da Lituânia. Chegou a um ponto em que haviam mais trabalhos de estrangeiros e os de portugueses eram a conta gotas».
Mais tarde, «assumimos o nome de Núcleo de Banda Desenhada e Animação do Algarve. Criámos uma editora, Dr. Makete, que publicava os trabalhos do Terminal. Era quase uma parceria, em que eu era o coordenador. Ainda existe e damos apoio a quem está a começar. Passamos o legado de conhecimentos e fazemos parcerias com outros artistas», diz.
No entanto, nestes 25 anos, nunca formalizaram uma associação. «Não tínhamos essa vertente burocrática», embora isso seja cada vez mais uma necessidade para prosseguir as atividades do Núcleo.
«Publicar apenas a fanzine era algo redutor. Hoje saímos à rua. Fazemos oficinas de banda desenhada, estamos presentes em eventos culturais, desportivos, ou outros, com workshops, mini mostras, desenho de caricatura ao vivo e outras atividades na área. Na verdade, sempre houve essa necessidade deste mercado».
A última atividade foi no Walk & Art Fest – Barão de São João, no mês de novembro, em Lagos, «onde dinamizámos dois workshops, um de desenho e outro de criação de criaturas fantásticas, ambas inspiradas nas problemáticas ambientais».
Fernando Madeira, que gosta sobretudo «das aventuras de gangsters e polícias do noir dos anos 1950», conta com mais nove artistas no ativo no Núcleo de Banda Desenhada e Animação do Algarve. Para celebrar os 25 anos, está patente até 29 de março, na sede regional do IPDJ, em Faro, a exposição «300 meses» que também se insere no calendário do Ano Europeu da Juventude.
«É um agradecimento a todos os colaboradores que esboçam universos através de textos, balões, desenhos, e fazem ou fizeram magia, e ao mesmo tempo um convite aos mais jovens para participarem. Além disso, vamos também celebrar todas as parcerias que temos tido ao longo dos anos», conclui.
Encontro de Criativos a cada 15 dias em Faro
Segundo Fernando Madeira, artista, designer e fundador do Núcleo de Banda Desenhada e Animação do Algarve, uma das atividades mais regulares, a decorrerem há cerca de 10 anos são os Encontros Criativos, hoje organizados em parceria com a ADS – Associação de Designers do Sul.
Acontecem quinzenalmente à sexta-feira, na sede regional do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) de Faro, das 18h30 às 20h30. O acesso é livre a participantes de todas as idades que queiram ilustrar, pintar ou expressar-se de forma criativa com aguarelas, guaches, canetas. «E temos conversas sobre o que se passa na área do cinema, animação e banda desenhada. Às vezes, surgem oportunidades de fazer coisas».

