O chef Hugo Nascimento e a mulher Joana mudaram-se para Odeceixe onde criaram o Näperõn, um espaço gastronómico no coração da vila.
Podemos tirar o chef da cozinha, mas não podemos tirar a cozinha do chef. Ou, neste caso, a sua paixão pela cozinha. Após 20 anos a trabalhar com o conceituado chef Vítor Sobral, tendo-se tornado no seu braço direito, parceiro de negócios e amigo, o chef Hugo Nascimento e a sua mulher Joana decidiram sair da cidade. O casal instalou-se a mais de 200 quilómetros (km) a sul de Lisboa, onde a alma gastronómica de Hugo deu origem ao Näperõn.
A história começou há quatro anos quando Joana, a mulher do chef, que conheceu quando trabalhava na Tasca da Esquina em Lisboa, descobriu um novo destino de férias na costa oeste algarvia.
«A Joana andava sempre à procura de lugares novos e descobriu as Casas do Moinho, em Odeceixe», um conjunto de casas rústicas transformadas num aldeamento turístico contemporâneo.
Passaram a visitar regularmente e, sempre que lá estavam, Hugo oferecia-se para cozinhar uma refeição para os outros hóspedes. Os proprietários, que se tornaram seus amigos, gostaram tanto da ideia que quando Hugo e Joana lhes disseram que queriam sair de Lisboa, desafiaram-nos a mudarem-se para Odeceixe. Uma semana depois, estavam a fazer as malas.
Odeceixe é uma vila tranquila no topo de uma colina, com casas tradicionais caiadas de branco e um moinho com vista para o Rio Seixe, uma fronteira natural entre o Algarve e o Alentejo. «É longe de tudo», exclama o chef. E era precisamente isso que ele e a sua família procuravam.
No entanto, depressa se apercebeu que faltava algo na sua vida… precisava de voltar à cozinha! A partir daí, as coisas evoluíram muito rapidamente e o restaurante que existia nas Casas do Moinho recebeu uma nova vida.
Hoje, este aldeamento turístico conta com dois restaurantes geridos pelo chef lisboeta: o Assador, que serve sobretudo carne assada e peixe, e o Näperõn, um restaurante de fine dining que, sem grande alarido, se tornou no centro das atenções da vila.
O pequeno restaurante está escondido atrás da fachada de uma das casas da vila, emoldurada de azul-lavanda e vermelho, numa rua íngreme em calçada que desce até a um moinho.
O Näperõn está situado no coração da vila, onde os hóspedes começam o dia com um pequeno-almoço saudável antes de saírem para explorar as praias locais, e serve como recepção do aldeamento turístico.
Hugo explica que o nome Näperõn «tem a ver com tudo o que queremos partilhar aqui; tem a ver com a memória, o conforto, a casa de família, o pormenor, a hospitalidade e o afeto».
O espaço é uma surpresa incrível. Ao entrar, os comensais são surpreendidos pela sala luminosa, aberta e moderna, instalada sob uma pérgula de vidro com vista para um deck com piscina infinita e para o moinho. A parede do fundo foi forrada com livros antigos e bibelôs que contrastam com a decoração simples e contemporânea idealizada pelo casal, que contou com a ajuda da designer de interiores Alexandra Neves Carvalho.
As mesas são em madeira com tampo em mármore e as cadeiras revestidas a verde-azeitona. Candeeiros de vime rústicos pendem sobre as mesas.
O ambiente descontraído parece saído diretamente de uma revista de design. O restaurante, com capacidade para 32 pessoas, tem também uma «prateleira showroom» com vários produtos artesanais, como cerâmicas da Nosse, travessas de madeira, e está repleto de quadros de artistas amigos do casal. O tema acolhedor estende-se aos bastidores, onde o chef remodelou e redesenhou recentemente a cozinha, incluindo uma grande e convidativa ilha em madeira.
Embora discreto, o restaurante recebeu a distinção de Melhor Restaurante do Ano 2022 pela conceituada Revista de Vinhos. «É um grande reconhecimento», admite o chef, que diz ser também um grande incentivo para o início de uma nova época.
De Lisboa, Hugo trouxe a sua experiência e o seu talento de primeira classe e deu liberdade à sua criatividade nesta pequena vila promissora. Aqui procura os melhores produtos locais, valoriza-os e torna-os seus. Os «produtos bons, sazonais e locais» são a essência do seu menu, incluindo os da sua própria horta e do jardim de ervas aromáticas que estão logo ao lado do restaurante.
O conceito é simples: «Um restaurante de assinatura com um menu mensal. Sete momentos (90 euros) e uma ou duas surpresas. Ou quatro momentos (60 euros) com sobremesa à parte (12 euros), mais a harmonização de vinhos (45 euros)».
Embora sejam tomadas todas as precauções para ter em conta alergias, o chef apresenta já as suas desculpas: «Não temos um menu vegetariano. Foi tudo pensado do início ao fim. O primeiro prato é influenciado pelo segundo, terceiro e quarto; há uma sequência».
E, como em qualquer boa história, tem de ser partilhada desde o primeiro momento do menu, composto por pequenos petiscos, seguidos de pão caseiro, azeite e «manteiga de amendoim».
Depois dos momentos de partilha iniciais, segue-se uma entrada fria, como uma sopa fria de nabo e amêndoa ou um cappuccino de boletus com fio de ovos e caviar, e depois uma entrada inspirada em dois produtos locais: a batata-doce e as alcagoitas, que, de uma forma ou de outra, estão sempre presentes na ementa.
«O nosso menu é composto basicamente por peixe e marisco, mas tem também algumas carnes».
A ementa muda todos os meses e de acordo com a estação. E, embora queira manter o «elemento surpresa» para os seus clientes, o chef revela que os pratos de peixe podem incluir criações como sarrajão com cogumelos e alho francês selvagem, ou corvina com pepino e maracujá. A carne, que aparece no menu mais extenso, inclui pratos como pá de porco com figos e agrião.
Chega depois a altura da primeira sobremesa «para refrescar o palato e preparar os comensais para o que está para vir, explica Hugo, «uma sobremesa mais doce». E, claro, os tradicionais petits fours servidos com café.
A carta de vinhos foi cuidadosamente elaborada e inclui colheitas de todas as regiões portuguesas, mas sobretudo referências locais como os vinhos Vicentino, produzidos no Alentejo, e Arvad, perto de Silves, uma vez que o chef procura cada vez mais transmitir todos os aspetos do terroir local.
Fruto da paixão deste chef, que é claramente um espírito livre na gastronomia, Näperõn é uma pequena joia, um verdadeiro destino gastronómico que combina hospitalidade com mestria culinária.
O restaurante está aberto para jantar de segunda a sábado.








