Mar de fora é um mar que cresce de modo inesperado; surge como uma maré que vai mais longe que o habitual. Obriga-nos a recuar.
Prelúdio
Mar de fora é um mar que cresce de modo inesperado; surge como uma maré que vai mais longe que o habitual. Surpreende-nos pela sua intensidade, a vaga a espraiar mais, obriga-nos a recuar. É uma corrente poderosa a formar-se lá mais atrás no horizonte.
1.º andamento: molto vivace
Em Olhão, no café-restaurante onde alguns de nós, professores, costumamos comer, muito frequentado pela classe trabalhadora, a que trabalha duro; e também pela arraia-miúda que sobrevive de biscates e de ir à maré, atividade que dá sustento a meio-mundo nesta terra prodigamente localizada à beira da formosa e rica ria.
Neste restaurante, onde se come bem por 6,50 euros, com tudo generosamente incluído (o que é quase inacreditável e em vias de extinção, creio), é possível esboçar um pequeno quadro realista e um breve retrato impressionista do país.
Respeito estas pessoas. Rudes, grosseiras mesmo. Dizem uns disparates e também umas verdades. São pouco instruídos. Falam alto, quase sempre de futebol, do safar a vida. Divertem-se com pequenas provocações. Desabafam e comentam impiedosamente o país e os políticos quando o olhar encalha na televisão. Então, são o rosto do Portugal zangado.
Desconfio que o Chega, com o seu discurso populista, irá colher por aqui muitos votos. O que é um contra senso, penso. Tal como foi na eleição de Trump, o operariado branco das zonas socialmente deprimidas do MiddleWest votar massivamente num político milionário, um mentiroso de primeira apanha, que tem na sua Trump Tower da 5.ª avenida em Nova Yorque, casas de banho com sanitários de ouro.
2.º andamento: andante
No outro dia, encontrei um ex-aluno, fez a escolaridade obrigatória e já está a trabalhar. Tem a vida bem orientada o suficiente para jantar fora e sair à noite. E a propósito da vida, a política vem à baila com o prolongar da conversa. Falámos de escola, trabalho, emigração. E fico a saber que é militante do Chega. É fã do Ventura. Surpreendido, dou-lhe réplica, argumento em oposição. Mas ao ouvi-lo, quando o assunto é o crescimento e as mudanças na cidade de Olhão, argumentar que a frente de ria está bonita, houve investimento, mas a vida cada vez mais cara, só para turistas. Só se fala em hotéis e mais hotéis – isso é para as elites. A falar como se a frente ribeirinha fosse a cara lavada e bonita de um corpo malcuidado escondido nas traseiras. Penso, no fundo, isto poderia ser eu a falar.
3.º andamento: aleggro ma non troppo
Não, não estamos propriamente no fantástico e maravilhoso mundo Disney, como se Portugal fosse um imenso parque de diversões e de produção de eventos. Muito pelo contrário, achamo-nos desanimados neste país pateta e sem piada em que estamos transformados. O primeiro-ministro é optimista. Pois eu estou pessimista, assim como milhares e milhares de portugueses que nos estudos e sondagens de opinião mostram insatisfação e não se entusiasmam nem acreditam num futuro melhor. O atraso económico português e a pobreza e desigualdade social é estrutural, vem de trás, mas no ano em que se comemoram 50 anos do 25 de Abril, há muito que gostaríamos de ver em prática políticas mais corajosas, portadoras de mudanças consistentes. Estamos todos mais exigentes. Cansados de tias e tios Patinhas, ora ostensivamente gastadores e exibicionistas, gastando mal o dinheiro; ora demasiado poupados, mergulhando de cabeça nas contas certas e pouco ou nada dando aos sobrinhos que desejam mais e melhor escola, mais e melhor habitação. A Donalda queixa-se de os ter há tanto tempo em casa, já tão crescidos.
Post-Scriptum. Por uma questão de simpatia, atrevo-me a aconselhar Pedro Nuno Santos a descolar o mais rapidamente possível de António Costa e da narrativa dos barões socialistas (Augusto Santos Silva, Carlos César, …) de que este governo caiu por culpa de um parágrafo e de um processo judicial.
E esperemos que a maré de março não venha bruta, o mar fêto num cão raivoso.
Paulo Penisga | Professor