A passada quinta-feira, 21 de julho, foi dia de dupla festa na cidade de Loulé pois, para além da visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a comunidade louletana homenageou a ilustre escritora Lídia Jorge que recebeu a Medalha de Honra do Município, entregue pelo Chefe de Estado e pelo Presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo.
O Cine-Teatro Louletano abriu as portas para receber uma cerimónia verdadeiramente sentida, na qual estiveram presentes figuras de vários quadrantes da sociedade, sobretudo da área da cultura, para homenagear aquela que já foi considerada, em 2013, pela Magazine Litéraire, como «uma das dez grandes vozes da Literatura estrangeira».
Manifestando uma humildade digna das grandes personalidades, Lídia Jorge dirigiu-se aos seus concidadãos referindo que uma das justificações desta distinção e pela qual se sente confortável ao aceitá-la tem a ver com a fidelidade às suas origens.
«Sempre me mantive fiel a esta terra, a Boliqueime, freguesia dos meus antepassados e onde nasci, a Loulé, a primeira cidade onde morei, e ao Algarve, minha região de origem. Nunca enjeitei esta pertença, nunca a minimizei nem a escondi, nunca receei assumir-me como uma neta de camponeses do Sul. Nunca vi incompatibilidade entre ser-se de um lugar e pertencer-se ao mundo. Só aprendendo a amar a aldeia local se pode amar a aldeia global», sublinhou a autora de «O Dia dos Prodígios».
Lídia Jorge aproveitou esta oportunidade para fazer uma abordagem à importância do livro e da leitura no mundo global, referindo a ligação entre o nível de leitura das populações e a sua capacidade de emancipação.
«É indesmentível que a cultura da leitura torna as nações mais lúcidas, mais determinadas, mais exigentes com elas mesmas e com os outros, mais capazes de reivindicar justiça, de criarem riqueza, mais capazes de perceberem que existe uma relação entre o que se dá e o que se recebe. Ao invés, existe uma relação entre a falta de leitura e a submissão atávica e acrítica, que submete os povos a todo o tipo de arbitrariedades, sem poderem encontrar as palavras próprias para se defenderem», considerou.
Por último, a homenageada não quis deixar de partilhar esta Medalha com o seu «companheiro de viagem», o jornalista Carlos Albino, deixando ainda uma mensagem aos jovens criadores: «façam deste território um lugar de transfiguração».
Presidente da República enaltece escritora
Admirador confesso de Lídia Jorge há já largos anos, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o convite que lhe foi endereçado para estar presente nesta cerimónia constituiu um «apelo irresistível que obrigava a que aqui estivesse, por uma questão de justiça e por uma questão de intuição».
Para o Chefe de Estado, esta cerimónia reveste-se de especial importância já que «é um momento de gratidão dos louletanos a alguém que nunca deixou de ser fiel às suas raízes mas que, por causa das suas raízes, sempre falou e escreveu para o mundo».
Apesar dos inúmeros prémios nacionais e internacionais que já recebeu ao longo da sua carreira, nomeadamente da Academia das Ciências, da Fundação Casa de Mateus, do PEN Clube, Jean Monnet, Fundação Günter Grass, União Latina, Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, entre outros, Marcelo Rebelo de Sousa acredita que esta distinção do Município louletano terá um «significado muito especial» para a escritora.
O Presidente da República aproveitou a ocasião para uma análise mais aprofundada à obra de Lídia Jorge, desde o lançamento de «O Dia dos Prodígios», em 1980, naquela que foi o seu livro de estreia e que, como referiu Eduardo Lourenço, constitui «o livro-chave do novo olhar romanesco no Pós-Abril».
Uma obra que manifesta um novo olhar do País virado para a experiência colonial portuguesa, tal como «A Costa dos Murmúrios», de 1988, onde a autora volta a confundir a História e as estórias individuais.
«Lídia Jorge compreendeu, de forma muito aguda, esses tempos do fim do Império e da abertura de novos caminhos para uma sociedade completamente diferente. Lídia Jorge retrata e continua a retratar aqueles anos que parece que foram vividos há séculos mas que foram vividos há pouco mais de 4 décadas», observou este responsável.
Com um estilo de escrita ao qual muitos já designaram como «manuelino» pela capacidade de aglutinar criativamente diversos motivos que vêm de África, de Lisboa e, sobretudo, da sua terra natal, Marcelo Rebelo de Sousa referiu ainda a importância do papel da mulher na literatura de Lídia Jorge.
Abertura ao mundo une escritora e município
Após ter lido uma mensagem do Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, sobre esta ocasião, o presidente da Câmara Municipal de Loulé, Vítor Aleixo, deixou palavras de apreço por Lídia Jorge e tudo o que ela representa enquanto «a maior embaixadora além-fronteiras».
«Lídia Jorge representa e nunca deixará de representar a expressão e o sentimento de uma comunidade que muito lhe deve e esta homenagem e medalha que lhe é atribuída agora significa, na sua última essência, tão-somente um pequeno contributo pelo muito que tem feito por nós», sublinhou o presidente da Autarquia.
Tal como a homenageada e a sua obra, também Loulé é um «município aberto ao mundo» que procura novas relações com outros municípios, que aposta na internacionalização e que procura novos modelos de políticas públicas para uma cooperação descentralizada. Neste âmbito, o autarca adiantou que, neste momento, o município de Loulé está a desenvolver um processo de geminação com a cidade francesa de Créteil, e que irá consubstanciar-se até ao mês de outubro.
Num momento de homenagem a uma das mais ilustres louletanas de sempre, Vítor Aleixo recordou ainda outras personalidades oriundas deste concelho com um importante papel nas suas respetivas áreas e que também foram distinguidas com Medalhas de Mérito do município: José Mendes Cabeçadas, Aníbal Cavaco Silva, Duarte Pacheco, António Aleixo, Casimiro de Brito, Laginha Serafim, Laura Ayres, entre outros.