Contudo, escrever sobre a relação entre participação política dos jovens e sexo, poderá ser algo mais desafiante.
Ao longo dos últimos cinco anos tenho dedicado uma parte significativa do meu tempo ao desenvolvimento e implementação de projetos que visam, por um lado, estimular e aumentar a participação política dos jovens e, por outro, reformular os atuais espaços e instrumentos para a participação dos mesmos.
Este texto assenta numa premissa muito básica que irei partilhar, correndo o risco de alguma injustiça – pois na realidade ainda temos dirigentes políticos de elevada qualidade, sentido de missão e profissionalismo.
Acredito, e felizmente não sou o único, que hoje temos uma sociedade com um nível de conhecimento e de experiência que necessita de um novo modelo de envolvimento dos seus cidadãos.
Um modelo onde os processos de construção de políticas públicas e de tomada de decisão aos mais diversos níveis e sobre a “coisa pública” não podem ficar limitados ou circunscritos a um grupo de indivíduos – ainda que legitimamente e sendo eleitos para este fim – poderiam decidir muito melhor se existissem instrumentos onde o cidadão e a cidadã se revissem e considerassem que a sua opinião seria tida em consideração.
Poderíamos iniciar um debate sobre os espaços e os instrumentos que já existem na nossa legislação – do poder local ao central – ou até se abordagens que atualmente estão muito na moda, como os Orçamentos Participativos, dão resposta ao que se pretende de uma sociedade mais participativa.
Pessoalmente… tenho dúvidas. Criar uma sociedade mais participativa, exige em primeiro lugar que as pessoas estejam habilitadas para participar. O tema da participação em geral e dos jovens em particular, não pode aparecer apenas em tempos eleitorais, ou nos discursos de campanha.
Sem criarmos políticas e programas, dentro e fora da escola, onde possamos trabalhar com as crianças e os jovens, sem criarmos novos espaços e formatos de participação, e sem repensarmos os espaços existentes, dificilmente iremos mudar esta tendência.
Quando é que, por exemplo, numa sala de aula, e isto desde o ensino pré-primário, estimulamos as crianças a participar nos processos de decisão sobre o seu meio?
Só este trabalho permitirá caminhar na direção de uma democracia realmente mais participativa, mais perto das necessidades reais dos seus cidadãos e com uma maior co-responsabilidade de todos na criação das comunidades que desejamos para as nossas vidas.
A ECOS – Cooperativa de Educação, Cooperação e Desenvolvimento tem sido um dos espaços privilegiados de criação de novos projetos na área da democracia participativa, e em particular, no trabalho com os jovens e com as autarquias – já que é principalmente ao nível do poder local que a proximidade e o impacto do envolvimento dos cidadãos e cidadãs é mais imediato e com resultados mais visíveis.
Atualmente, através dos diversos projetos e formações que temos realizados e do reconhecimento regional, nacional e internacional que temos vindo a adquirir estamos a coordenar deste junho, uma rede Europeia sobre a participação do jovens – DYPALL Network (Developing Youth Participation at Local level), que envolve 22 parceiros de autarquias e de associações de 17 países na Europa.
Temos ainda em marcha o projeto ALGARVE2020 – um contrato jovem. Este projeto inovador tem o objetivo que sejamos o primeiro distrito do país a ter um plano de ação a quatro anos com enfoque na juventude.
Envolve a Universidade do Algarve, a AMAL, a CCDR Algarve, o IPDJ, o IEFP, diversas direções regionais, autarquias e todo um conjunto de associações da região.
Está de momento e com base em diversos processos de auscultação e debate com os jovens do Algarve, a elaborar um plano em 12 áreas de políticas públicas, que vão da habitação, ao emprego, saúde, à cultura e inclusão social. É a primeira vez que tantas entidades se juntam para pensar e trabalhar em conjunto.
Este projeto que atualmente é apoiado pela Secretariado de Estado do Desporto e Juventude e conta com o financiamento do Programa Erasmus + (Ação Reformas Políticas), tem como intenção criar uma plataforma de trabalho contínuo em matéria de juventude na nossa região, onde todos estes atores, em conjunto com a juventude possam cada vez mais elaborar políticas e programas que tornem a nossa região o melhor lugar da Europa para um jovem viver (e possivelmente também do mundo).
De momento temos em aberto até ao final do mês de Julho uma Agenda Jovem2020 – Legislativas (http://www.euparticipo.org/algarve2020/), onde desafiamos a população jovem do Algarve a lançar propostas para Portugal, que serão posteriormente discutidas com os diversos candidatos à Assembleia da República pelo círculo eleitoral do Algarve, durante o Fórum Juventude Algarve a decorrer de 17 a 20 de setembro, na Universidade do Algarve.
Agora, sobre o sexo… bem, na verdade, é um tema como o tema da política, continua cheio de tabus, preconceitos e perceções incorretas. Agora cabe-nos a nós despertar o mesmo nível de interesse e curiosidade que os jovens (e não só) têm pela temática do sexo, pela participação política. Ora, isto necessita de alguma criatividade e, acima de tudo, de um compromisso efetivo.
A verdade é que necessitamos de reinventar a forma como se faz política e como se educa para a participação política em Portugal! Aí sim teremos uma nova geração de cidadãos e cidadãs e uma não apenas uma população onde tentam fazer de nós meros consumidores e consumidoras de decisões, produtos e/ou serviços.
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Bruno António, 35 anos, é diretor executivo da cooperativa ECOS. É consultor e formador internacional na área da juventude.