Presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) falou sobre a decisão do governo britânico em integrar Portugal no corredor aéreo, explicou quais as preocupações para a época baixa e revelou as linhas de ação a seguir.
barlavento: A inclusão de Portugal, na lista de países seguros do Reino Unido, é uma boa notícia para o Algarve e um reconhecimento do trabalho?
João Fernandes: Não há dúvida de que é uma boa notícia e tanto assim é que já estamos a ter muitos desenvolvimentos num curto espaço de tempo. Tivemos, desde logo, pick ups fortes nas reservas dos hotéis, muito enquadrados numa lógica de reservas que estavam canceladas ou adiadas e que foram retomadas pelos clientes. Isto acontece antes do início da época do mês em que a presença dos britânicos é mais sentida no Algarve. No ano passado tivemos 758 mil dormidas em hotelaria classificada, em setembro. Foi, de longe, o mês com maior expressão de presença deste mercado. Por outro lado, também é importante que aconteça nesta fase porque temos, além do início da época alta do golfe [setembro], o turismo de natureza e o turismo náutico. É também a altura que tínhamos mais receio em relação à quebra da atividade turística e ao seu impacto no emprego e nas empresas. Portanto, esta notícia foi um tónico adicional para os quatro meses que nos restam.
Os britânicos ansiavam por esta decisão?
Não há dúvida. Ainda no final de julho houve um relatório, feito pela nossa delegação do
Turismo de Portugal, em Londres, que revelava que Portugal, e neste caso o Algarve, é o principal destino dos turistas do Reino Unido, mesmo com as restrições que se observavam, nessa altura. Agora, temos esta facilidade adicional e ela acontece quando o principal destino dos britânicos, que é Espanha, tem os condicionamentos acrescidos. Há aqui uma conjugação de fatores que, face à concorrência, nos permite ter, nos próximos tempos, e desde que a medida não seja revertida, uma janela de oportunidade.
As campanhas publicitárias ajudaram a essa conjuntura?
Estão em curso e vamos reforçá-las. Temos uma grande aposta, em carteira, com o Turismo de Portugal em ações sobretudo online. Lançámos para o mercado interno a campanha «O Algarve fica-te bem» e tínhamos, já programado, como habitual, ter campanhas nacionais e internacionais para o período antes da época baixa. Estamos, agora, a focarmo-nos em ações de campanha relacionadas com grandes eventos [Fórmula 1, Moto GP], e a concentrar meios para os atributos que são mais relevantes da época baixa [turismo de natureza, náutico].
Fomos prejudicados, em relação a outros mercados turísticos, por testarmos mais?
Fomos transparentes. Embora, antes do verão, tenha havido um impacto claro por termos testado mais e sido mais transparentes na divulgação da informação, a verdade é que a médio e longo prazo, a transparência e a fiabilidade de um país em relação a temas tão sensíveis como a saúde, são fundamentais. Lembro-me de comparar números e, a dada altura, a Grécia, testava menos quatro vezes que nós e têm praticamente a mesma população. Um país pode ter 100 mil habitantes, mas se não fizer testes, tem um rácio espetacular por 100 mil habitantes. O indicador deveria ser quantos infetados por 100 mil testes, para não condicionar os países. Noutros países, como Espanha, não havia frequência constante na publicitação dos dados. Isto, mais tarde ou mais cedo, é muito importante para a credibilidade de um país. Se hoje sentimos o impacto de termos sido transparentes, mais tarde essa fiabilidade vai ser a base para atrair turistas, investidores e novos residentes porque as pessoas podem confiar na informação que disponibilizamos, mesmo que não nos seja favorável.
Os números do mês de julho não nos foram favoráveis…
São valores que expressam a realidade que vivemos. Os destinos concorrentes, não estão melhores que o Algarve. Este e é um fenómeno que afetou todos de forma muito agressiva e dura. Portugal, e o Algarve em concreto, mesmo com as restrições, tem tido um desempenho, comparativamente a outros destinos, ainda assim melhor. O Algarve foi das regiões que melhor se preparou. Numa fase ainda antes do confinamento, tínhamos as empresas já com uma grande proximidade à Administração Regional de Saúde (ARS) e com planos de contingência a serem implementados. Durante o confinamento desenvolvemos medidas de apoio para as micro-empresas, que foram muito eficazes. Mais eficazes que as medidas de apoio noutros sectores. Mantivemos sempre a monitorização dos mercados e a relação com os parceiros, realizámos press trips e fam trips virtuais. Fizemos negociações que resultaram em grandes eventos [Portugal Masters, Fórmula 1]. No final de maio tivemos o primeiro voo da Edelweiss, de Zurique, quando mais ninguém tinha voos do norte da Europa para o sul da Europa. Tivemos a Luxair, a 31 de maio, a Transavia a 4 de junho e daí em diante passámos a ter, entre junho e agosto, ligações a 63 cidades europeias. São tudo ingredientes que levaram muito tempo a preparar.
Quais as perspetivas para o mês de agosto?
É muito difícil ter uma perceção. Num ano normal temos dificuldade, mas num ano como este é mesmo muito difícil. Pela perceção que temos e pelo contacto com os agentes, podemos dizer que o mercado português e o mercado espanhol foram, uma vez mais, muito importantes para atenuar a quebra de outros mercados internacionais [Reino Unido, Irlanda, entre outros]. O sector está de parabéns e todos elogiam a garantia de segurança que os nossos serviços transmitem e apresentam. Isto traduz-se numa realidade concreta. Estamos quase no fim de agosto e os casos no Algarve não têm aumentado. Isso é fruto de um grande trabalho e de muita gente, das autarquias, da Proteção Civil, da Segurança Social, da área da saúde, etc.
Ainda vamos a tempo de salvar o ano?
Esse conceito pressupõe que somos capazes de recuperar o que perdemos e não somos. Somos capazes de olhar para a frente e esgotar o potencial do contexto em que vivemos. Um quarto que não foi ocupado ontem, não vai ser ocupado hoje duas vezes. Temos que olhar para o tempo que nos resta este ano, atendendo que a época baixa é exigente, uma vez que não houve época alta. É muito exigente para as empresas e para os empregos e temos de apostar tudo em conseguir procura. Temos que olhar para essa época baixa com a necessidade, que sabemos que existe, de termos programas de apoio às empresas e aos trabalhadores.
O apoio do governo para o sector tem sido suficiente?
Não há nenhum país no mundo que tenha conseguido ultrapassar esta questão porque não era antecipável. Ninguém teve um desempenho extraordinário nessa matéria, até porque não somos um país rico. Agora, a minha principal preocupação é a época baixa e as medidas que devem existir, com uma discriminação positiva para o Algarve, que tem sazonalidade e que depende especialmente de um sector que foi muito afetado. O governo tem demonstrado essa sensibilidade e vamos aguardar que haja ações concretas. Já fizemos propostas. O ministro da Economia e a secretária de Estado já referiram a necessidade de um plano especial para o Algarve e vieram, várias vezes, à região auscultar os empresários. Têm as propostas em mãos, vamos aguardar.
Qual a maior lição que o Algarve retira desta pandemia?
Nos últimos dois meses de outubro [2018 e 2019] tivemos mais passageiros embarcados do que em agosto de 2015. Não é por acaso que isso acontece. Foi possível alargar bastante a procura. Em janeiro e em fevereiro, deste ano, tivemos crescimentos de 14,6 por cento de dormidas na região. O turismo de negócios, de natureza, náutico, entre outros, tinham pouca expressão na região e hoje já não é assim. Diversificámos mercados, diversificámos a oferta e crescemos em valor. Se virmos a evolução das receitas, é superior à evolução da procura. Se há lição que podemos tirar é que estávamos no bom caminho. As grandes linhas, que todos identificam como lições a tirar deste período, são as questões de sustentabilidade. Já estávamos a apostar em lógicas de maior sustentabilidade ambiental, económica, social e cultural e também na atenuação da litoralização. Agora, vale a pena é continuar a fazer o que estava ser feito. Se estávamos no bom caminho, o que temos de fazer é acentuá-lo. Temos que diversificar a base económica, numa perspetiva mais sustentável e temos que diversificar o turismo para o termos ao longo do ano. Isso não quer dizer que temos de captar mais valor de cada pessoa que nos visita, temos é de ocupar uma área mais vasta do território nessa procura.
Ligações aéreas Faro – Lisboa vão ser melhoradas
O presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA), João Fernandes, revelou ao barlavento que há intenções por parte da companhia aérea portuguesa TAP em melhorar as suas ligações entre a capital do Algarve e Lisboa. «Sempre dissemos que são deficitárias e, neste momento, temos vindo a trabalhar de forma mais recorrente com a TAP. Tivemos já duas rondas negociais para melhorar a conetividade entre as duas cidades e reduzir tempos de espera em Lisboa para mercados como Estados Unidos da América, Brasil, Canadá e Europa», adiantou. De acordo com o responsável, isso «implica um conjunto de ações, que estão a ser negociadas com a TAP, e parece que desta vez há mais boa vontade» por parte da companhia aérea. «Estamos aqui a colaborar para chegar a um bom resultado, não só nesta ligação, mas noutras oportunidades», concluiu.

