Atualização da investigação indica que a rotura do carril poderá ter ocorrido antes do descarrilamento em Adamuz, hipótese ainda provisória avançada hoje.
A investigação ao acidente ferroviário de Adamuz, no sul de Espanha, aponta agora como hipótese principal a rotura de um carril antes da passagem do comboio de alta velocidade que descarrilou. A informação consta de uma nota de atualização da Comisión de Investigación de Accidentes Ferroviarios (CIAF), divulgada após as primeiras 72 horas de trabalho no local.
O desastre envolveu dois comboios de alta velocidade — um da Iryo e outro da Renfe — e provocou 45 mortos, número confirmado pela RTVE após a recuperação e identificação dos últimos corpos. Há ainda 29 feridos hospitalizados, sete deles em unidades de cuidados intensivos, segundo a Junta da Andaluzia. Já foram dadas 96 altas, à data de publicação desta notícia, quinta-feira, dia 23 de janeiro.
A CIAF sublinha que as conclusões são provisórias e que nenhuma hipótese está excluída nesta fase.
O que mudou na investigação
Na primeira nota, divulgada 24 horas após o acidente, a CIAF descreveu o sucedido, a mobilização dos investigadores e a recolha inicial de provas, mantendo todas as hipóteses em aberto.
Na atualização hoje divulgada, a comissão apresenta primeiros indícios técnicos concretos. Sustenta a possibilidade de a rotura do carril — numa zona de soldadura — ter ocorrido antes da passagem do comboio Iryo que descarrilou. A mudança marca a transição de uma fase exploratória para uma fase inicial de análise técnica.
Indícios técnicos identificados
Os investigadores da CIAF realizaram nos dias 20 e 21 de janeiro uma inspeção exaustiva às rodas do comboio Iryo. Detetaram marcas compatíveis com impacto na cabeça do carril nas rodas direitas das carruagens 2, 3, 4 e 5, todas elas presentes nos eixos ímpares destas carruagens.
As marcas têm um padrão uniforme e são compatíveis com um impacto na cabeça do carril. A correspondência visual entre essas marcas e a secção do carril partido na «zona zero» do descarrilamento levou os investigadores a considerar que o carril já estaria fraturado antes da passagem do comboio.
A análise é reforçada por um detalhe técnico: as marcas aparecem apenas nas primeiras rodas de cada bogie, não nas segundas. A CIAF explica que, a velocidades de cerca de 200 km/h, a segunda roda passa apenas três centésimas de segundo depois da primeira. O carril impactado não tem tempo de recuperar a deformação, pelo que não golpeia a segunda roda.
A investigação identificou ainda marcas semelhantes em rodas de três comboios que circularam pelo mesmo local antes do acidente: o comboio 130 da Renfe, que passou às 19h09, o comboio 109-003 da Iryo, às 19h01, e o comboio 109-011 da Iryo, às 17h21. A descoberta reforça a hipótese de o problema na via já existir horas antes do descarrilamento.
No terreno, os investigadores observaram que o carril, após o ponto de rotura, tombou para o exterior. Apresenta sinais de contacto lateral com rodas, o que sugere que a carruagem 6 do Iryo — a primeira a descarrilar — já não encontrou continuidade na via.

O que aconteceu
O acidente ocorreu no domingo, 18 de janeiro, cerca das 19h45 locais, à entrada da estação de Adamuz, na província de Córdova. As últimas carruagens do comboio Iryo, que fazia a ligação Málaga–Madrid com 300 passageiros a bordo, descarrilaram a cerca de 200 km/h e invadiram a via contrária. Ali circulava um Alvia da Renfe, na ligação Madrid–Huelva, com 186 passageiros.
O choque projetou várias carruagens para fora da via. As duas primeiras carruagens do Alvia caíram por um aterro de quatro metros de altura. Foi um dos mais graves acidentes ferroviários registados em Espanha nos últimos anos.
Como a rotura do carril pode ter provocado o descarrilamento
A CIAF descreve um mecanismo técnico que explica como a rotura do carril pode ter estado na origem do descarrilamento. Quando o carril está fraturado, a parte anterior à rotura suporta momentaneamente todo o peso da roda, enquanto a parte posterior não atua solidariamente. Cria-se um «degrau» que golpeia a roda.
Esse impacto repetido, comboio após comboio, pode ter agravado progressivamente o estado do carril até à perda total de continuidade da rodadura. Foi então que o comboio Iryo descarrilou.
Durante os dias 20 e 21, a equipa da CIAF extraiu várias amostras do carril para análise: partes da zona de rotura, um metro de cada lado, um fragmento de 40 centímetros desprendido, amostras de zonas não afetadas e um cupão do carril paralelo que inclui a soldadura correspondente. Todas as amostras foram colocadas sob custódia da CIAF e transportadas para Madrid.
A comissão insiste que esta explicação constitui apenas uma hipótese de trabalho, que terá de ser confirmada por cálculos, simulações e análises laboratoriais detalhadas.
O que ainda não se sabe
A CIAF esclarece que não está excluída nenhuma hipótese quanto às causas da rotura do carril. As amostras recolhidas serão analisadas num laboratório metalográfico.
Em paralelo, serão descarregados e analisados os dados dos registadores embarcados dos dois comboios envolvidos. O processo decorrerá nas próximas semanas.
A comissão lembra que o seu trabalho não visa apurar culpas ou responsabilidades. Visa apenas identificar causas técnicas e contribuir para a prevenção de futuros acidentes.
Operativo de emergência mobilizou mais de 800 efetivos
Desde a noite de domingo, mais de 800 efetivos participaram no operativo de emergência coordenado pela Junta da Andaluzia. A primeira ambulância chegou ao local 15 minutos após o alerta.
O presidente da Junta da Andaluzia, Juanma Moreno, visitou o local na noite do acidente e voltou esta quinta-feira para acompanhar as últimas buscas. «O impacto foi brutal. A imagem da zona zero ficou-me gravada. Os vagões tinham ficado reduzidos a um amontoado de ferros», declarou o responsável, citado em comunicado oficial.
O operativo integrou a Agência de Emergências da Andaluzia, o serviço 061, bombeiros de Córdova e Adamuz, Guarda Civil, Polícia Nacional, UME, Cruz Vermelha e o Instituto de Medicina Legal, que realizou 43 autópsias.
O Plano Territorial de Emergências foi desativado na quinta-feira, 22 de janeiro, às 18h01, após a localização das duas últimas vítimas, informou a Junta da Andaluzia.

Adamuz: a aldeia que socorreu
Os habitantes de Adamuz socorreram as vítimas nos primeiros momentos, antes da chegada dos serviços de emergência. Levaram mantas, comida e água. Abriram casas. Ajudaram no que puderam.
«Quero destacar a generosidade imensa dos vizinhos de Adamuz. Saíram em auxílio das vítimas de forma espontânea e altruísta, num exercício exemplar de humanidade», afirmou Moreno. O presidente anunciou que se realizará uma homenagem de Estado às vítimas em Huelva no sábado, 31 de janeiro.
