Ainda o sol não tinha nascido e já se viam as labaredas no Palácio da Fonte da Pipa, um edifício do século XIX, às portas de Loulé. De acordo com Irlandino Santos, comandante dos Bombeiros da cidade, o alerta foi dado às 6h10 da manhã, através do 112, indicando fogo «no sítio devoluto da Fonte da Pipa».
À chegada, os soldados da paz não encontraram indivíduos perto do edifício, não há vítimas a registar, apenas danos patrimoniais. O comandante explicou ainda ao «barlavento» que à chegada ao local «o fogo já ardia com grande intensidade.
Assistiram de imediato três viaturas do corpo de bombeiros de Loulé», auxiliadas com reforços também do corpo de bombeiros de Faro, Albufeira e São Brás de Alportel, «no sentido de minimizar os prejuízos. Perdeu-se o telhado mas não houve uma derrocada total. Toda a estrutura do edifício foi afetada, das paredes, ao chão, tetos», explicou Irlandino Santos ao «barlavento»- «Apenas os peritos poderão dizer se será possível recuperar o edifício», bem como apurar quais as causas deste incêndio. A Policia Judiciária já está a investigar o caso. Vítor Aleixo lamenta e crítica abandono do património
Em declarações ao «barlavento» o presidente da Câmara Municipal Vítor Aleixo recordou que a Fonte da Pipa era «um palácio do final do século XIX de burguesia local que tinha aquele edifício como local de permanência nos períodos de verão. Os louletanos com o passar dos anos foram-se habituando à visão daquele palacete e tinham com ele uma ligação sentimental forte. Nesse sentido, o que aconteceu hoje é uma má notícia e uma perda que a todos nos deixa triste», lamenta. O autarca sublinhou que «é necessário dizer que não se trata de um edifício do Estado, nem património municipal, mas sim de privados. É detido por uma empresa shareholder constituída na maioria por fundos ingleses. Adquiriram a propriedade há mais de três décadas sempre na expectativa de urbanizar os terrenos. Acontece que o Plano Diretor Municipal (PDM) que data de 1995 nunca deu abertura para a construção e as pessoas entenderam que não deviam gastar dinheiro na propriedade. Nem na sua componente rural, nem na conservação e manutenção daquele que é o seu principal ativo. Do meu ponto de vista, isso foi um erro. Mas não me compete a mim, nem zelar, nem dar conselhos a pessoas que têm um determinado património e que melhor que ninguém saberão como utilizá-lo», criticou.
Sobre os atuais detentores da propriedade Vítor Aleixo avançou ainda ao «barlavento» que ao longo dos anos falou «com as proprietárias duas ou três vezes, inclusive no meu gabinete, e tivemos vários contactos. Mostraram sempre interesse em agarrar no assunto a partir de uma operação de urbanização, algo que à luz dos instrumentos de gestão do território legalmente aplicáveis àquela área estava fora de causa. Hoje mesmo fiz questão de ligar à representante em Portugal a dar-lhe a triste notícia após deslocar-me ao local pelas 6h50».
Palácio de lendas e História
O palácio da Fonte da Pipa, não se esgota no edificado. Gastão de Brito e Silva, editor do blogue de fotografia «Ruinarte», aquando da visita ao palacete, em agosto de 2013, escreveu o seguinte: «a sua imerecida fama prende-se em histórias de assombração, tendo eu sido alertado várias vezes por populares, dos perigos que ali poderia encontrar. Segundo se conta, à laia de mito urbano, a filha de um proprietário terá falecido na quinta e há quem a tenha visto à janela da torre. Há também outra versão que terão sido sepultadas na propriedade, vítimas da gripe espanhola, a pneumónica nos anos de 1916-18, e hoje ainda deambulam as suas penadas almas por este local». Em 1875, após uma viagem pelo norte da Europa, Marçal de Azevedo Pacheco mandou construir o palácio, com a intenção de receber a régia visita do rei D. Carlos, que acabou por ficar em Estói. Contratou José Pereira Júnior (Pereira Cão) pintor que tinha trabalhado no Real Palácio da Ajuda, para a decorar. Mais tarde, em 1920, a casa foi adquirida por Manuel Dias Sancho, um abastado cidadão de São Brás de Alportel, que decorou o jardim num estilo inspirado nos mosaicos de Gaudi, utilizando conchas, porcelanas, cascas de caracol, como incrustações nos bancos e mobiliários. A crise de 1929 atirou-o para a falência e o palácio foi então adquirido pelo algarvio Francisco Guerreiro Pereira que enriqueceu o jardim com plantas exóticas. Ficou na família até ser vendido a uma sociedade de construções, em 1981.
Contactado pelo «barlavento»a propósito deste sinistro, Gastão de Brito e Silva considera que «infelizmente estamos perante mais um rocambolesco cenário de inépcia burocrática que condenou ao longo de décadas este lindo palacete que tanta falta fará ao património algarvio».
«Quando fotografei e iniciei as minhas pesquisas sobre este edifício, falei com um representante do proprietário para saber alguns pormenores quanto ao seu futuro que já se adivinhava este, seria uma questão de tempo», sublinhou. «Na altura, embora degradado, era notório que tinha havido um cuidado na manutenção e restauro que envolveu carinho e investimento, sendo o seu estado de abandono fruto de um embargo burocrático que desencorajou a continuidade. Qualquer solução para este caso teria sido mais proveitosa do que a ruína. Se a preocupação era urbanística, deveriam olhar em redor por todo o Algarve defendendo a sua magnífica paisagem e travarem de vez o caos urbano que se instalou nesta região». E conclui: «espero que daqui se tire uma valiosa lição. A ganância e a inoperância têm uma fatura bastante pesada em que todos ficamos a arder».
Almargem lamenta perda
Também a associação ambientalista reagiu, enviando uma nota à comunicação social. «A cidade de Loulé acordou hoje com um grande incêndio no palácio da Fonte da Pipa, notável moradia situada nos arredores a sul da cidade, junto à estrada que segue para Faro. Neste momento ainda devem estar a ser contabilizados os danos e as possibilidades de recuperação que o edifício ainda possui, mas foram assinaláveis as perdas materiais sofridas no seu interior e na cobertura. O palácio foi construído na segunda metade do séc. XIX pelo proprietário da fazenda em que se situa, (que na época se chamava Quinta da Esperança ou Fonte da Esperança), a grande figura louletana de então, o conselheiro Marçal d’Azevedo Pacheco (1847-1896), jurista, político de primeira linha do Partido Regenerador, deputado e par do Reino do nosso Liberalismo oitocentista, acérrimo defensor das causas louletanas e tio do futuro e igualmente famoso ministro das Obras Públicas do Estado Novo, o Engº Duarte Pacheco. Foi erigido para morada principal da família do proprietário, mas acabou por ser pouco usado pelo mesmo, no final da sua vida, e foi aí que acabou mesmo por falecer a 17 de Abril de 1896», lê-se no documento.
«A obra arquitetónica inspirou-se nas tendências românticas da época, que se concretizaram um pouco por toda a Europa em bucólicos palácios situados no campo e com notáveis preocupações estéticas, ao gosto e posse de cada um. Tinha as paredes e tetos artisticamente decorados, e muita incorporação de madeiras no seu espaço interior. Tinha recebido importantes obras de recuperação nos anos 1980, mas entretanto o edifício estava a degradar-se constantemente. Há poucos anos tinha servido para uma atividade cultural do âmbito do programa Allgarve, em 2008 onde provavelmente os louletanos em geral o tinham apreciado pela última vez. Segundo consta era atualmente propriedade de um fundo financeiro inglês que esperava potenciar economicamente a propriedade, mas agora teremos de aguardar para ver o que se vai seguir para aquela que é seguramente uma das jóias arquitetónicas da nossa cidade».
