O GreenCoLab lidera o desenvolvimento de novos modelos de negócio sustentáveis a partir do mar e projeta o Algarve como referência internacional no estudo e aplicação industrial de algas.
A plataforma colaborativa GreenCoLab – Associação Oceano Verde está em expansão e ambiciona tornar o Algarve num polo mundial importante de conhecimento e de negócio no setor das algas, com foco na sua aplicação às mais variadas indústrias.
«As algas são um setor emergente. De uma forma efetiva, conseguimos trazer empresas muito boas para trabalhar na sua aplicação. Um exemplo que gosto sempre de dar são os dois produtos lançados no mercado pela Sumol no âmbito do projeto Vertical Algas, um molho de tomate com algas e também um smoothie», começa por explicar Hugo Pereira, coordenador geral do GreenCoLab – organização privada sem fins lucrativos fundada em 2018 no seio da Universidade do Algarve (UAlg), que se assume como uma plataforma colaborativa entre a investigação científica e o tecido empresarial.
«As algas são muito interessantes para vários setores, mas continuam a ter custos de produção elevados. Não conseguimos, por exemplo, substituir a soja. Não conseguimos competir em termos de preço», refere, sendo este um dos desafios do Vertical Algas, que junta 38 parceiros em Portugal, no âmbito do Pacto da Bioeconomia Azul, iniciativa que prevê desenvolver novas ou já existentes cadeias de valor no país, que junta as empresas à ciência.
Apesar de terem sido utilizadas durante muitos anos em diferentes aplicações, as algas fizeram parte da agricultura e também da alimentação. Estas práticas caíram em desuso, mas «começámos outra vez a puxar bastante pela biotecnologia de algas como uma matriz mais sustentável com diferentes aplicações», explica.

O GreenCoLab, com sede no campus de Gambelas da UAlg, em Faro, emprega mais de 35 quadros altamente especializados e concede estágios curriculares a dezenas de estudantes.
A associação está a mudar a sua operação para as instalações da CCDR Algarve no Patacão (antiga Direção Regional de Agricultura e Pescas), onde contará com novos espaços de laboratório e piloto com condições de excelência para efetuar investigação de ponta na área da biotecnologia de algas.
Esta mudança será crucial para potenciar ainda mais os serviços especializados de laboratório e aconselhamento hoje fornecidos pelo GreenCoLab a entidades de áreas como a agricultura (fertilizantes), cosmética, alimentação humana e aquacultura.
«Temos a ambição de ser, aqui no Algarve, um dos grandes polos do setor das algas, uma vez que temos um ecossistema único, com diferentes entidades já reconhecidas dentro e fora de portas pelo impulso dado a este recurso marinho».
Para isso, o GreenCoLab tem doze entidades associadas, entre as quais dois centros de investigação, das universidades do Algarve e do Porto, a Universidade de Aveiro, o Laboratório Nacional de Energia e Geologia e seis empresas (Necton, ALGAplus, Allmicroalgae, Sparos, Ignae, Riasearch e Gopsis).
Concentrado de algas para novos mercados
Um exemplo desta ambição é o projeto Premium Algae. Liderado pela Necton, envolve o GreenCoLab, a Universidade do Porto, a Universidade de Aveiro e a Universidade de Coimbra, quer dar um salto na forma como as microalgas chegam ao mercado.
Até agora, a produção tem estado centrada sobretudo na biomassa. «Neste projeto vamos mais longe. Queremos transformar algas em ingredientes, através do conceito de biorrefinaria, semelhante a uma refinaria de petróleo, onde o crude é separado em diferentes combustíveis. No nosso caso, separamos proteínas, lípidos ou pigmentos e criamos compostos específicos para cada indústria», explica Hugo Pereira.
Os mercados-alvo são três: cosmética, nutracêuticos e aquacultura. Ao concentrar compostos presentes naturalmente nas algas, será possível criar produtos com maior eficácia.
«Se conseguirmos extrair, por exemplo, um pigmento como a fucoxantina e fazer uma oleorresina, significa que numa cápsula conseguimos entregar uma quantidade muito maior do que a biomassa original, e que vai ser muito melhor para o ser humano. O mesmo princípio aplica-se a um cosmético ou a uma ração de aquacultura. Porque, no fundo, estamos a tirar o efeito de diluição, e a dar propriedades muito mais concentradas».
Para comprovar os efeitos, as universidades parceiras estão a desenvolver estudos celulares que analisam os mecanismos de ação. «Sabemos que muitos destes compostos têm um efeito, por exemplo, no sistema imune dos peixes ou em inflamações no ser humano. Mas os mecanismos de ação ainda não são totalmente conhecidos. Agora, vamos perceber cientificamente por que vias metabólicas isso acontece. Não é só dizer que funciona, é provar», reforça o coordenador.
A transferência para o mercado está facilitada pelo envolvimento da Necton, ao mesmo tempo fundadora e cliente do GreenCoLab, e líder nacional na produção e venda de microalgas.
«Em vez de vender biomassa, passará a vender ingredientes prontos a usar, através dos mesmos canais de distribuição, a produtores de rações, de cosméticos ou de suplementos», sublinha.
iOysters: criar ostras no deserto
O GreenCoLab faz parte do consórcio envolvido no projeto iOysters cujo objetivo é desenvolver e otimizar sistemas alternativos de produção de bivalves em circuitos fechados e semiabertos, que permitam uma produção independente do meio ambiente.
A ideia é criar ostras, de elevado valor nutricional e qualidade, sem depender da água do litoral. Em teoria, a vantagem é proteger a produção da contaminação microbiológica, poluição antropogénica, de metais pesados, doenças e biotoxinas marinhas, entre outros problemas.
Outra vantagem é poder implementar este tipo de sistemas enquanto soluções autónomas ou como componentes complementares de outros sistemas de aquacultura.
Pretende-se assim «uma aquacultura que seja autónoma e mais eficiente do que a produção de ostras tradicional que temos na Ria Formosa. Neste caso, um sistema que possa ser colocado, por exemplo, num deserto, onde existe a recirculação da água, usada também para a produção de microalgas», explica Hugo Pereira.
Embora admita que já há mais projetos neste sentido, «ainda assim é interessante porque não existe ainda nenhum sistema a trabalhar comercialmente. Continua a ser desafiante e a necessitar de investigação porque, pelo menos, à data, não existe nenhum sistema autónomo. A produção de ostras é feita em sistemas naturais e não em sistemas fechados».
A candidatura é apresentada por um consórcio de três beneficiários, com um investimento total de 1.432.954 euros, dos quais 1.142.570 euros são financiados. O GreenCoLab tem um financiamento de 347.025,60 euros, o S2AQUAcoLAB de 536.360,64 euros e a Oceano Platónico, Lda., de 549.568 euros.
Novel Food e a aprovação europeia
O GreenCoLab tem estado presente em feiras internacionais, onde tem dado a conhecer as suas potencialidades. Um dos exemplos é a utilização de algas para fortificar, do ponto de vista nutricional, hambúrgueres vegetarianos. O laboratório também desenvolveu diferentes linhas de cerveja e caviar com a utilização de algas de origem nacional.
«Basicamente, substitui as ovas de peixe que é utilizado, por exemplo, no sushi por uma matriz exatamente igual, mas é feita à base de algas e pode ser consumida por vegetarianos», explica Hugo Pereira.
Agora, novos desafios em cima da mesa. Um dos quais é a chamada agricultura celular, setor em que já há várias empresas europeias a trabalhar. O GreenCoLab é um dos parceiros do projeto Inovacel, financiado pelo Programa Regional ALGARVE 2030, que está a estudar um novo soro de origem vegetal, à base de algas, para o cultivo de células.
Um dos objetivos é estimular a produção de proteína para a alimentação humana a partir de células de peixe, tal como apresentado neste livro.
É aqui que entra a regulamentação europeia, conhecida como Novel Food, que regula novos alimentos que podem ser inovadores, a partir de novos processos de produção e tecnologias. Apenas podem ser colocados no mercado depois de um processo de segurança alimentar.
«Para um alimento cujo consumo na União Europeia era raro ou inexistente antes de maio de 1997, é preciso fazer o que se chama um processo de novel food. Esse processo obriga a testes de toxicidade e de alergenicidade que podem durar até dois anos. Só depois é possível obter a aprovação da União Europeia e garantir ao consumidor que o produto é seguro», esclarece o coordenador do GreenCoLab.
Nas algas, as mais conhecidas, como a Spirulina e a Chlorella, estão aprovadas porque têm consumo documentado há séculos. «Mas as novas, estamos a fazer processos de novel food para as conseguirmos introduzir no mercado da alimentação humana».
Questionado sobre se comeria um filete de peixe, produzido a partir de células cultivadas no novo soro à base de algas que está a ser desenvolvido no Algarve, o cientista não tem dúvidas: «Há uns anos, talvez dissesse que não. Hoje, não tenho complexo algum».
E traça um paralelo: «É como a aquacultura. Houve um caminho de educação da sociedade. Ninguém estranha comer um frango de aviário, e o peixe de aquacultura nacional tem uma qualidade incrível».
Ou seja, «há aqui um caminho de educação a percorrer com a sociedade, porque a verdade é que a população humana vai aumentar tanto, que vamos ter de arranjar estratégias para conseguir alimentar todos», acrescenta.
A indústria da carne de base vegetal segue o mesmo percurso. «Como produzimos algas em biorreatores, conseguimos também produzir bactérias em fermentadores. No fim, obtemos um pó que pode ser utilizado para alimentação humana», concluiu o coordenador.
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Reportagem publicada no livro «Algarve – Economia Azul: Inovação e Fundos Europeus na Região», recém-editado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com produção editorial do jornal barlavento.










