Duas associações algarvias juntam-se por uma noite, em torno de um interesse comum. A Associação Livre de Fotógrafos do Algarve (ALFA) recebe na sua sede, a jovem Associação Aeronáutica do Algarve (AAA), na sexta-feira, 18 de março, às 21h15 na galeria ARCO, em Faro.
«Vamos falar sobre a utilização do filme kodak kodachrome, que durante décadas foi o suporte favorito para muitos fotógrafos registarem aviões. Hoje em dia, há muita gente a colecionar diapositivos (ou slides) e há leilões muito concorridos na Internet. Um slide raro original pode chegar facilmente aos cem euros ou mais», explica Fernando Mesquita, 51 anos, colecionador, investigador da história da aviação e sócio da AAA.
Mesquita tem em casa cerca de 50 mil diapositivos, que começou a juntar a partir de 1998. A paixão nasceu no Aeroporto de Faro, onde trabalha há mais de 25 anos, nas operações aeroportuárias. Interessa-lhe sobretudo imagens de máquinas voadoras da idade de ouro da aviação, há muito desaparecidos dos céus ou em vias de extinção, como os antigos Boeing 707 e 727.
«Estes slides são tudo o que resta. Mas há outro aspeto interessante. Quando o filme kodachrome era revelado, o laboratório imprimia a quente um número de série no caixilho em cartão, o que nos permite saber a idade aproximada. Cada slide é algo real e único. É o que estava dentro da câmara do fotógrafo no momento em que disparou o obturador», explica.
Mesquita explica que há uma técnica neste hobby, conhecido por «planespotting». «O standard é um registo do avião de perfil, com uma lente fixa de 50 milímetros para minimizar as distorções, com o sol por detrás do fotógrafo. Tem sempre de mostrar a matrícula/registo do aparelho», para futura memória.
«Quem fotografou aviões em kodachrome durante os anos 1950/60 tem hoje uma pequena fortuna», tal é a procura por parte dos entusiastas.
Segundo Mesquita, a fotografia de aviação em Faro só começa a surgir com frequência e intensidade no início da década de 1980. «Tudo o que se conhece do período entre 1965 e finais dos anos 1970 foi registado por estrangeiros de passagem pelo Algarve. Até hoje ainda não apareceu nenhuma coleção de um fotógrafo local com material desse período».
Fundada em janeiro de 2015, a Associação Aeronáutica do Algarve (AAA) tem 35 sócios com perfis muito diversos. «A ideia é juntar os amantes da aviação que explorem essa paixão de várias maneiras diferentes. Podem ser fotógrafos, planespotters, modelistas, pilotos, ou entusiastas», explica o presidente Pedro Fernandes, técnico de segurança operacional no Aeroporto de Faro.
Ao exemplo do que fazem as outras associações congéneres, a ideia é organizar visitas regulares a aeroportos e bases aéreas militares. Mas não só. «Temos pessoas convidadas para darem palestras em escolas secundárias sobre as oportunidades que existem no mundo da aviação. Queremos colmatar uma falha do sistema educativo, que é explicar aos alunos que, para além dos cursos superiores, existem outras possibilidades para carreiras profissionais igualmente válidas, aliciantes e com boas remunerações».
«O Capitão Piloto Aviador da Força Aérea Portuguesa, David Fernandes, da Manta Rota, Instrutor na Esquadra 103 de Alpha Jets em Beja já aceitou o repto. A ideia é convidar um piloto militar, um piloto comercial, eventualmente um controlador aéreo, e um oficial de operações aeroportuárias” para o contacto com as escolas.
Para já não existe uma sede física prevista, mas há uma ideia ambiciosa a longo prazo. «Temos idealizado um espaço próprio e estamos a fazer contactos nesse sentido. O ideal seria termos um espaço na baixa de Faro, uma espécie de messe de pilotos que funcionasse como pequeno núcleo museológico. Penso que criaria uma dinâmica espetacular» na capital algarvia que, aliás, tem um lugar na história da aviação em Portugal.
Já Paulo Côrte-Real, professor do ensino secundário e atual presidente da ALFA também manifestou ao «barlavento» o seu agrado pelo evento conjunto com a AAA. «Vemos com muito bons olhos este tipo de parcerias. É uma das formas de dinamizarmos a arte e a cultura», considerou. «Hoje há um grande interesse no digital, mas o analógico é o início da fotografia e continua a ser o suporte com mais alma». A ALFA comemora este mês oito anos de atividades e junta 610 sócios. Todos os meses organiza uma tertúlia para debater a fotografia numa vertente não técnica em ambiente informal. A entrada é livre e aberta à comunidade.
Faro já teve um tesouro aeronáutico
Para Fernando Mesquita, Faro já teve um avião histórico que hoje seria uma verdadeira atração. Era o Lockheed Super Constellation «Vasco da Gama» construído para a TAP em 1955.
Foi o primeiro da companhia portuguesa, e mais tarde, esteve diretamente envolvido na Guerra do Biafra (1967/70), a partir da capital algarvia.
«Segundo contavam colegas mais antigos, houve um hangar que durante muito tempo esteve controlado pela PIDE, em colaboração com a CIA. Eles traziam feridos e regressavam com armas. Faro foi uma base de operações, durante pouco tempo, mas isto aconteceu», recorda Mesquita.
O «Vasco da Gama» acabou os dias aqui, tal como dois Constellation mais pequenos. A prova? Recentemente, durante as obras da expansão do Aeroporto de Faro «quando fizemos a placa nova, demos com uma asa e um motor enterrado. A asa ficou lá e o motor foi para o lixo, era um pedaço de metal retorcido. Antigamente não se vendia para a sucata como hoje. Era mais fácil enterrar», compara.
O «Vasco da Gama» (Tango Lima Alfa) ainda serviu alguns anos de restaurante, em meados da década de 1980. Depois foi armazenado.
«Houve um projecto de um antigo director do Aeroporto de Faro, que o queria recuperar e pôr em exposição na rotunda onde estão hoje as esculturas dos observadores».
Ainda se fizeram «negociações e conversações», mas a verdade é que o veterano avião da TAP acabou por ser abandonado num baldio no Patacão em 1999. Vândalos pegaram-lhe fogo e um sucateiro espanhol levou o resto.
«O avião ardeu. Passado um mês e pouco, recebi uma chamada da Suíça, de uns senhores que estavam a restaurar o Super Constellation da Breitling» que hoje é exibido em festivais aéreos por toda a Europa.
«Os suíços precisavam desesperadamente de peças e sabiam que havia um destes aviões parado em Faro. Só que telefonaram-me passado um mês e meio depois do incêndio que destruiu o avião. Bem, o homem quase que chorava ao telefone. Ficou inconsolável quando lhe contei. Não queria acreditar…»
Pedro Fernandes da Associação Aeronáutica do Algarve diz que «é uma das coisas que infelizmente, não vou conseguir inverter, por muito que me custe. Durante anos a fio, eu tal como outros entusiastas, vimos este avião degradar-se. Ninguém fez nada para o salvar. Acredito que se uma associação como esta existisse na altura, as coisas teriam sido diferentes. Nem que tivéssemos feito um cordão humano sua volta», sublinha.
Durante a tertúlia de dia 18 de março, dois «spinners» deste avião, as únicas peças que restam hoje, estarão em exposição.
Faro guarda avião africano desde 2007
Desde Abril de 2007 que um avião privado, um Boeing 727-100, está retido no Aeroporto de Faro, à ordem do Tribunal Penal Internacional (TPI), na cidade holandesa de Haia. A aeronave, matrícula 9Q-CMC, é propriedade do antigo vice-presidente Jean-Pierre Bemba, da República Democrática do Congo.
Bemba é acusado de crimes de guerra e contra a humanidade. Entretanto, em Faro, o avião tornou-se um estorvo e já faz lembrar o caso do velho Boeing 707 do ex-ditador do Zaire, Mobutu Sesse Seko, que esteve 15 anos a enferrujar em Lisboa, até finalmente ter sido desmantelado para sucata em 2006.
Vislumbrando o previsível final dramático para este clássico, perguntamos ao entusiasta Fernando Mesquita se perspectiva a possibilidade do B727 encalhado poder vir a dar origem a um projeto semelhante ao do aeroporto de Zurique – que recuperou um bimotor russo para criar um restaurante/bar? Ou o antigo 747-200 que foi transformado num hotel em Estocolmo?
«Teria que ser um privado a avançar, a comprar o avião a preço simbólico. A seguir, teria um grande problema para resolver. Neste momento, não existe saída para o transportar por terra. O Aeroporto de Faro tem duas portarias, ambas pequenas. Mesmo considerando a hipótese de o retirar pelo sítio do Arábia, seria muito difícil há um desnível muito grande. Portanto, teria que se desmantelar a infraestrutura e seria uma operação muito cara. Há outra hipótese. Poder-se-ia desmantelar o avião. Mas que é quem é que faz isso? Quem é que desmantela asas? Só mecânicos qualificados que cobram uma fortuna. E mesmo assim, seriam necessárias gruas especiais para o remover dali».
Mesmo um potencial interessado em tirar dali o avião por via terrestre, teria que pedir autorizações especiais à ANSR – Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária para o transportar. De acordo com as especificações deste modelo, só de envergadura mede 40,59 metros. Tem uma altura máxima de 10,36 metros e 157 metros quadrados de asa.
«Quanto a mim, a Lufthansa é que poderia ter interesse, pois é um dos últimos exemplares da sua série que está intacto. Mas em boa verdade, muitos destes aviões foram parar ao deserto, e há clássicos mais clássicos. A Alemanha liga muito às antiguidades. Em Munique têm um Dakota e um Junkers 52. Nós deixamos arder o último Super Constellation da TAP», considera.
No entanto, o nariz do 707 de Mobutu, uma aeronave com uma nostalgia especial para Portugal, pois pertenceu à frota da TAP, foi salvo e restaurado. Está hoje em exposição no Museu do Ar, em Sintra.
Pedro Fernandes, presidente da Associação Aeronáutica do Algarve (AAA) não nega que tem esperança. «Se eu na qualidade de cidadão, chamar a atenção para o facto de o Boeing 727 que está parado em Faro desde 2007 ser um artefacto histórico que tem de ser preservado, ninguém me vai ligar. Mas se for um movimento organizado de pessoas, com alguma força, talvez haja uma maior hipótese de o salvar», diz.
Apesar de terem sido construídos 582, hoje, «B727-100 a voar, no mundo todo, não devem ser mais de meia centena, sobretudo a transportar carga. Há alguns também a operar em África. Portanto, as peças não têm valor. Há muitos que foram para os verdadeiros armazéns canibalizadores em Victorville, ou Marana, nos Estados Unidos da América, onde há instalações para aproveitar tudo”, conclui Fernando Mesquita.