Encomendas de criação a autores portugueses e ucranianos e aposta em comunicar ciência ambiental fazem parte do programa dos encontros do DeVIR.
Está prestes a começar a 9.ª edição dos encontros do DeVIR, festival que, até 4 de novembro, dá a conhecer 13 estreias em teatro, dança, escrita, fotografia, cinema e ilustração que apontam o foco à atual emergência climática. Uma causa que, segundo José Laginha, diretor artístico do evento e também do CAPa – Centro de Artes Performativas do Algarve, em Faro, apesar da gravidade do problema, não está a ter a devida atenção. «Acho que não se está a levar a sério.
Além disso, a arte e os objetos artísticos também devem ter uma função de alertar. Não no sentido panfletário, mas de criar olhares alternativos para esta questão, é o mundo que está a acabar», sublinha ao barlavento.
«As mutações climáticas e a emergência ecológica têm muito a ver com o facto de estarmos numa região que toda ela dá sinais de começar a colapsar. É algo que já sabemos há muito tempo, e o futuro indica que vai ser muito pior», aponta.
Além da temática, outra marca forte deste festival organizado pela DeVIR/CAPa são as encomendas de criação. Nesta edição foi pedido a artistas portugueses e ucranianos «que respondessem à pergunta: de onde vimos, para onde vamos? É um esforço adicional da nossa parte, mas faz toda a diferença. Não é só dar trabalho, mas promover a criação num sítio onde há pouca. Também nos parece importante perceber que sugestões e reflexões nos podem trazer olhares alternativos, partindo de outras geografias que têm os mesmos problemas».

Além do cartaz, há uma programação paralela cujos protagonistas são cientistas portugueses e espanhóis da área da biologia marinha que investigam o impacto das alterações climáticas na costa sul da Península Ibérica.
O convite para comunicar ciência, segundo José Laginha, foi muito bem aceite quer pelo Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA) da Universidade do Algarve (UAlg), quer pela Universida de Cadiz. «Em boa verdade há poucas oportunidades para dar a conhecer o trabalho científico. Esse é um papel que nós queremos assumir, principalmente em relação às questões do Algarve. Precisamos da ciência, de uma ciência que contribua para que tenhamos consciência da real necessidade de alterar os nossos comportamentos», sublinha.
Claro, também o contexto geopolítico atual não fica de fora da programação. «Convidar criadores ucranianos não é uma coisa solta, ou seja, não há nem exotismo nem oportunismo. Nós, quando começou a guerra, acolhemos uma coreógrafa daquele país, durante sete meses e foi exatamente no contexto dessa residência que se começou a pensar programar compatriotas seus. São pessoas que estão neste momento a viver uma situação de fim do mundo antecipadamente, ou pelo menos, de fim de um país, pois tudo aponta para o abandono do apoio àquela contra-guerra. Fizemos uma pesquisa e escolhemos textos e ilustrações de gente muito diferente», explica.
Nesta edição dos encontros do DeVIR, a programação divide-se em duas fases (entre 12 de outubro e 4 novembro e janeiro e fevereiro de 2024) em Faro, Lagoa, Lagos, Loulé e Quarteira.
Cada espetáculo contempla duas sessões destinadas a alunos das escolas secundárias e uma outra dirigida ao público em geral.
O arranque é já esta semana, dias 12 e 13 de outubro, no Cineteatro Louletano, onde será possível assistir às estreias absolutas de «Aquilo que há-de vir», da atriz, performer e encenadora Paula Diogo e à leitura de «O que restará depois da guerra?», texto da poetisa e jornalista ucraniana Yuliia Iliukha, acompanhado pela ilustração da designer digital Oksana Drachkovska.

Seguir-se-á, entre 19 e 21 de outubro, no CAPa, em Faro, o segundo espetáculo, que integra um novo conjunto de estreias: «Caravela», da atriz Leonor Cabral, «A eterna idade (de onde vim? para onde vamos?)», um texto de André e. Teodósio, ilustrado pelo designer gráfico Afonso Martins.
De regresso ao Cineteatro Louletano, nos dias 24 e 25 de outubro, o terceiro espectáculo da 9.ª edição dos encontros do DeVIR apresenta «(Dis)connect», do bailarino e performer ucraniano Dmytro Grynov. «É uma criação de um bailarino ucraniano refugiado na Alemanha que vem apresentar uma criação que reflete muito esse mal-estar, de não saber qual é o sítio dele» fora da Ucrânia.
Nesta ocasião, José Laginha destaca ainda outro ponto alto. Trata-se de «por de onde vimos? para onde vamos? pelo amor é que vamos», texto da autoria de Cátia Oliveira/A Garota Não, que será lido pela própria. «É um texto original incrível, que tem tudo a ver com seu trabalho, partindo muito da sua própria realidade» que ganhará forma pela mão de Cristina faz, uma ilustradora algarvia.

O quarto e último espetáculo desta primeira fase dos encontros do DeVIR será a peça «1998 – elemento 1 – água» da autoria de Patrícia Portela, nos dias 2 e 4 de novembro, no CAPa. «É uma criadora que escreve divinalmente e nunca se apresentou cá», refere Laginha.
Além disso, será apresentado o texto «Guerra e natureza», do premiado romancista, jornalista e ativista ucraniano Stanislav Aseyev, com ilustração de Mari Kinovych.
«Aseyev esteve preso durante dois anos e a partir daí criou uma estrutura de difusão para dar a conhecer o que é que está a passar naquele território. É um homem que escreve do ponto de vista de quem sofreu a guerra na pele», acrescenta o diretor artístico
Ao longo dos quatro espetáculos será apresentado, em fases, os documentários «Playa Futura» e «Futuro das Praias».
Outro momento a destacar é «ato ÚNICO, a noite dos fotógrafos», que acontecerá na sexta-feira, dia 20 de outubro, no CAPa. Procura dar voz às imagens e homenagear cinco repórteres de guerra ucranianos e um português, entre os quais David Araújo (repórter de imagem RTP), Rui Duarte Silva (Expresso) e João Porfírio (Observador).

Por fim, a programação da primeira fase da nona edição dos encontros do DeVIR apresenta ainda a plataforma digital ARTEPENSAMENTO&informação em diversas escolas do ensino secundário, exibe o filme de Jorge Jácome, «Super Natural», no Cineclube de Faro, a 26 de outubro, e promove a exposição de fotografia «24.02.2022, o dia mais longo que nunca mais acabou», do jornalista-repórter de guerra David Araújo, na Galeria de Arte da Peça do Mar, em Quarteira, entre 8 de novembro e 13 de janeiro.
Incursão pela Culatra
Fora das plateias, o festival propõe um dia na Culatra, uma viagem pela paisagem desta ilha-barreira da Ria Formosa, atividade cujo título é «(em)RISCO» e que terá lugar a 28 de outubro.
«Começa com uma aula de ioga (facultativa) e será uma visita guiada, acompanhada por três cientistas e dois fotógrafos. Portanto, a ideia é que, através das informações que nos vão passando à medida que deambulamos, se perceba melhor aquilo que estamos a ver. De vez em quando, um fotógrafo que abre uma fotografia inédita em grande formato e contextualiza-a. A seguir ao almoço, haverá uma encenação que irá pôr cada um dos espetadores no papel de alguém que vive, está, ou vai à Culatra, partindo de perguntas que cada um responderá. Será uma maneira de percebermos até que ponto aquele território está em risco».
O percurso será acompanhado por Óscar Ferreira, Ana Matias e Rita Carrasco, do CIMA da UAlg, pelos fotógrafos Vasco Célio e Luís da Cruz e por Silvia Padinha, presidente da AMIC – Associação de Moradores da Ilha da Culatra.
Nessa mesma data, mas à noite, o CAPa acolhe o debate «(a)RISCO conversas informadas». O debate será mediado por Jorge Gallardo, do projeto Párpado/Be.Time, de Espanha. Participam Óscar Ferreira, do CIMA, Fernando Perna, da Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da UAlg, Gonçalo Duarte Gomes, da Associação Portuguesa de Arquitectos Paisagistas (APAP), Javier Benavente e Manuel Arcila, da Universidade de Cádiz, e Joanna Crowson, também da Bee. Time.