Produção elétrica em Portugal gerou mais de 1 milhão de toneladas adicionais de CO₂ em 2025, após aumento do consumo e travão no crescimento das renováveis, segundo a estima hoje a ZERO.
O crescimento da produção solar fotovoltaica em Portugal abrandou em 2025 devido a entraves administrativos e económicos, num contexto em que o consumo de eletricidade atingiu um novo máximo histórico sem um reforço equivalente das energias renováveis. Esta evolução resultou num acréscimo estimado de cerca de um milhão de toneladas de dióxido de carbono (CO₂) na produção elétrica face ao ano anterior.
- Produção renovável elevada, mas com perda de dinâmica estrutural
- Setor elétrico deixa de liderar a redução das emissões
- Apagão de abril reforçou dependência do gás natural
- Solar fotovoltaico cresce menos apesar da expansão acumulada
- Entraves económicos e limites da rede travam projetos
- Redes, armazenamento e eletrificação exigem resposta integrada
- Balanço de 2025 exige mudança de ritmo
Segundo um comunicado da ZERO – Associação sistema terrestre sustentável, enviado hoje às redações, o consumo de eletricidade totalizou 53,1 TWh em 2025, mais 3,2% ou 1,7 TWh do que em 2024.
Apesar de a produção renovável ter alcançado um valor absoluto recorde de 37 TWh, o crescimento foi praticamente residual, conduzindo a um maior recurso às centrais a gás natural. Como consequência, a percentagem de eletricidade renovável no consumo baixou de cerca de 70% para 68%, interrompendo uma trajetória de reforço contínuo das fontes limpas.
Produção renovável elevada, mas com perda de dinâmica estrutural
A ZERO sublinha que, apesar do abrandamento registado em 2025, a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis manteve níveis historicamente elevados, cobrindo cerca de 68% do consumo anual. Em determinados períodos do ano, esta percentagem foi superior, ultrapassando os 74% em alguns meses.
Ainda assim, a associação alerta que estes picos pontuais não substituem a necessidade de um crescimento estrutural mais rápido da capacidade renovável, indispensável para responder de forma consistente a uma procura elétrica em aumento.
Setor elétrico deixa de liderar a redução das emissões
A associação ambiental considera particularmente preocupante o facto de o setor elétrico deixar de compensar o aumento das emissões noutros setores da economia. Nos últimos anos, a redução das emissões associadas à produção de eletricidade tinha sido o principal motor do decréscimo das emissões totais em Portugal, tendência que poderá agora estar em risco.
Apagão de abril reforçou dependência do gás natural
O desequilíbrio entre consumo e produção renovável foi agravado pelo apagão de 28 de abril. Após este episódio, e por razões de segurança de abastecimento e receios quanto à importação de eletricidade de Espanha, registou-se um aumento significativo da produção elétrica a partir de gás natural fóssil.
Em 2025, a produção a gás natural totalizou 7,9 TWh, mais 54% do que no ano anterior, evidenciando a vulnerabilidade do sistema elétrico nacional sempre que as renováveis não conseguem responder ao crescimento da procura ou a situações excecionais.
Solar fotovoltaico cresce menos apesar da expansão acumulada
A ZERO reconhece que a capacidade instalada de produção de energia renovável em Portugal registou um crescimento significativo ao longo da última década, impulsionado sobretudo pelo solar fotovoltaico. No entanto, em 2025 verificou-se uma desaceleração clara no ritmo de instalação de nova potência, tanto centralizada como descentralizada, bem como uma relativa estagnação no reequipamento de parques eólicos.
A associação considera decisiva a conclusão da Avaliação Ambiental Estratégica das Áreas de Aceleração de Renováveis, atualmente em curso, para identificar zonas de menor risco ambiental e social e com maior aptidão para novos projetos.
Entraves económicos e limites da rede travam projetos
Apesar da existência de um volume significativo de projetos renováveis com licenciamento aprovado, muitos não avançam por razões económicas. A ZERO aponta a baixa remuneração da produção fotovoltaica como um dos principais entraves, sobretudo na ausência de soluções de armazenamento e face às limitações da rede ibérica, que dificultam a exportação de eletricidade nos períodos de excesso de produção.
Redes, armazenamento e eletrificação exigem resposta integrada
O crescimento do consumo elétrico reflete também tendências consideradas positivas, como a eletrificação de alguns setores da economia. Portugal conta já com mais de 200 mil veículos elétricos em circulação e registou, até novembro de 2025, reduções no consumo de gás natural fóssil, butano e propano nos setores industrial, residencial e dos serviços.
Ainda assim, a ZERO alerta que a eletrificação só contribuirá plenamente para a descarbonização se for acompanhada por uma expansão muito mais rápida da produção renovável, pelo reforço das redes elétricas, pela aceleração das interligações com Espanha e pela implementação de mecanismos de flexibilidade e armazenamento de energia.
Neste contexto, a associação sublinha a necessidade de cumprir as metas do Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) até 2030, nomeadamente no que respeita ao reforço da produção renovável e à instalação de capacidade de armazenamento em baterias.
Balanço de 2025 exige mudança de ritmo
Para a ZERO, o balanço de 2025 é claro: não basta eletrificar a economia. É indispensável acelerar a instalação de energias renováveis, reforçar as redes elétricas e as interligações ibéricas e planear o sistema elétrico de forma integrada, garantindo que o crescimento do consumo elétrico não se traduz num aumento das emissões nem num retrocesso no caminho para a neutralidade climática.