O empreendedor Luís Cortes conseguiu conquistar a atenção da população de Lagoa ao apresentar um projeto inovador de bike sharing para o concelho, durante a primeira edição do Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lagoa, no ano passado. A ideia surgiu numa «altura em que a tecnologia de quinta geração [deste tipo] de bicicletas de uso partilhado está a ganhar importância».
A sua experiência em utilizar tais sistemas em outras cidades da Europa fê-lo notar que, «apesar de condições climatéricas adversas, o sistema funciona bem, e tem imensa procura, não só de residentes, como também de turistas», explicou ao «barlavento».
Não foi necessário muito para que este natural de Ferragudo tenha decidido tentar trazer esta tecnologia para o concelho de Lagoa. Arregaçou as mangas, arriscou e sujeitou este projeto à votação da comunidade. «A primeira edição do Orçamento Participativo, em 2014, coincidiu com o meu regresso ao Algarve por motivos profissionais. Nesse sentido, depois de ter conhecimento desta nova tecnologia de bike sharing, tentei aceder ao financiamento público para dar resposta a um lacuna local», conta Luís Cortes. A ideia foi bem aceite. O projeto acabou por estar entre os mais votados.
A Câmara Municipal de Lagoa compromete-se com 55 mil euros, o que corresponde a 40 por cento do investimento total. A restante fatia, 82 mil euros, é assegurada por uma multinacional canadiana, a Bewegen, que resolveu abraçar o projeto, escolhendo o município lagoense para ser o primeiro na Europa, a implementar este sistema inovador.
Em rigor, será o segundo local, pois na fábrica da Volkswagen, na Alemanha, já existe um projeto semelhante desta multinacional, mas funciona em circuito fechado para os funcionários.
Luís Cortes chegou à empresa do Canadá «através de um contacto pessoal com Russell Meddin, blogger, pioneiro nos Estados Unidos da América nestes sistemas e fundador do bike share na Filadélfia», que lhe recomendou «a BikeEmotion, projeto português, criado em 2011 na Universidade de Aveiro, cuja ideia é dar flexibilidade aos utilizadores de bicicletas partilhadas», revela. Com o recurso a dispositivos GPS, cada bicicleta troca informações com uma central, informando-a sobre a sua localização, em tempo real. As pessoas podem utilizá-las e deixá-las onde desejarem.
Luís contactou a multinacional, que já tinha aproveitado esta tecnologia portuguesa nos EUA. De imediato demonstrou interesse em montar um sistema e geri-lo, em parceria com a autarquia de Lagoa. Para isso, a Bewegen recorre à WeGoShare, empresa portuguesa e parceira europeia dos canadianos.
Mas afinal como vai funcionar o projeto? Na prática, são 21 bicicletas, distribuídas por três estações, que já estão a ser construídas em Ferragudo, Carvoeiro e Nossa Senhora da Rocha.
O passo seguinte é impulsionar as regras de utilização, para que moradores e turistas desfrutem de um meio de locomoção sustentável, saudável e ecológico. O tipo de bicicleta que vai circular pelo concelho de Lagoa, é auxiliada por um sistema elétrico, conhecido na gíria por «Pedelec».
A ideia é oferecer «uma alternativa sustentável aos transportes públicos que, hoje, não vão ao encontro das necessidades dos cidadãos», considerou.
A descentralização da mobilidade é uma necessidade que a maioria dos algarvios ainda não coloca em prática. Ainda assim, Luís considera que há cada vez mais sensibilização para as alternativas disponíveis.
«Com o avanço da tecnologia e movimentação da população para as cidades, temos perdido o à vontade natural de recorrer a uma bicicleta para deslocações médias ou curtas, seja para fins profissionais ou de lazer», justificou.
Em relação à realidade algarvia e até nacional, o mentor do projeto nota uma «mudança na mentalidade das pessoas, através da influência de turistas do norte da Europa». O concelho de Lagoa «é atrativo para esta prática, constituindo uma enorme ciclovia com paisagens naturais, ao que se junta um excelente clima durante grande parte do ano». Apesar da pequena dimensão, a estrutura está preparada para crescer, caso a procura o justifique. A rede deve estar operacional até ao próximo mês. As estruturas terão um sistema de carregamento de baterias, através das docas que formam cada uma das estações. Ainda estão por definir os custos de utilização deste serviço.
No entanto, Luís avançou que, apesar de não ficar a gerir o projeto, o protocolo que fez com os promotores prevê uma tarifa social, com discriminação positiva para os residentes no concelho. Também a manutenção das bicicletas ficará a cargo de dois profissionais locais, dinamizando a economia do concelho.