Às primeiras chuvas, a areia colocada artificialmente durante este verão já começou a desaparecer com a maré. Os turistas parecem não se importar e aproveitam os desníveis para relaxar. A situação também não surpreende os ambientalistas. «O areal de uma praia mantém-se em equilíbrio dinâmico com o mar. Nalguns casos, uma praia pode ficar praticamente sem areia num ano, para, no seguinte, regressar de forma natural», explicou João Santos, dirigente da associação Almargem.
Contudo, no caso da praia de Dona Ana, «a descarga artificial de areia introduziu um novo perfil na praia que o mar tentará sempre contrariar. Era previsível. Foi essa a razão pela qual a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) resolveu construir o dique de retenção a norte, obra ilegal, pois não foi antecedida de um estudo de impacte ambiental, como a lei prevê. Caso sucedam episódios de sueste, é provável que, mesmo assim, grande parte da areia desapareça», acrescentou.
Em contraponto, o mar traz agora novos sedimentos, de cor diferente, que contrastam com a areia castanha que ali foi despejada. A praia é hoje um híbrido de cor acastanhada com «madeixas» que lembram o seu aspeto perdido. Foram «soterrados os elementos paisagísticos definidores da beleza desta praia, os monumentais rochedos e leixões. A qualidade da areia introduzida é miserável. Na realidade, não se trata de areia, mas de uma mistela de cascalho, areão e lama. Estamos, portanto, perante um aterro de entulho que nada tem a ver com a areia clara e dourada original», lamentou Fernando Silva Grade, ativista da Almargem e um dos principais críticos da intervenção que custou de 1,8 milhões de euros ao erário público. «Atualmente, devido à nova configuração da praia, a água acumula-se formando lagunas e poças sobre um substrato que é uma mistura de cascalho e lama», acrescentou.
A 20 de julho, a Almargem anunciou a apresentação de uma queixa formal à Comissão Europeia (CE), por infração ao direito comunitário no caso do plano de intervenção efetuado na praia de Dona Ana. Qual é o ponto de situação? «A burocracia de Bruxelas continua a imperar. Apenas a 16 de setembro, a CE assinalou como registada a queixa, tendo, entretanto, iniciado uma investigação junto do Estado português com vista a averiguar se terão sido violadas quaisquer normas legais relativas à avaliação de impacto ambiental. Só depois da resposta do governo é que a CE decidirá se abre ou não um processo de infração», explicou João Santos.
Também contactado pelo «barlavento» Sebastião Teixeira, diretor regional da APA, no Algarve, desdramatiza a situação. O que se passou «na Dona Ana, aconteceu também nas outras praias da região, sendo um efeito natural das tempestades». O dirigente da APA foi mais longe, «parece que as pessoas se esquecem que no Algarve também chove».
Sebastião Teixeira é perentório ao rejeitar que o investimento tenha sido perdido e explica que uma obra desta dimensão, de alimentação artificial do areal, quando é feita, é planeada tendo em conta diversos fatores. Por isso, «são sobrealimentações». Ou seja, «é colocada mais areia do que a necessária, mais 15 a 25 por cento, para que o mar faça o reajuste natural, ficando a maioria submersa». Sebastião Teixeira considera que, no próximo ano, a praia já estará diferente, sendo provável que os desníveis desapareçam. «A norma é que o primeiro ano seja marcado pela quantidade e o segundo pela qualidade», afirmou.
Águas pluviais ou cano de esgoto?
Quem desce as escadas para a desfrutar da praia de Dona Ana, em Lagos, passa ao lado de uma conduta que desagua diretamente para o areal, formando uma poça de água estagnada e pestilenta. Muitos interrogam-se sobre a origem deste cenário insólito, já que a conduta é, supostamente, para escoar águas pluviais. Na verdade, despeja também águas residuais de origem indeterminada.
«Neste caso é difícil perceber porque isto acontece, pois esta zona inclui habitações recentes. É claro que à rede de águas pluviais podem chegar efluentes diversos relacionados com limpeza de jardins, garagens, que, em situações de águas paradas, como a poça da praia de Dona Ana, podem tornar-se malcheirosas», desdramatiza João Santos, dirigente da Almargem.
No entanto, João Branco, presidente da direção nacional da Quercus, tem uma opinião bastante diferente. «Não é compreensível, nem aceitável que, com uma obra desta dimensão e as elevadas verbas alocadas não previssem intervenções para as águas pluviais ao longo de toda a bacia. Pelo contrário, esta situação demonstra que a obra» feita no verão passado «é casuística e não teve em conta todos os fatores que deveria ter tido, como a questão das águas pluviais».
«Ter um cano destes a despejar para a praia é um claro sinal de subdesenvolvimento e da pouca importância que as autoridades locais e nacionais dão às questões da qualidade ambiental das praias. Se isto seria preocupante em qualquer parte do país ou do mundo, no Algarve assume especial importância, pois a praia e o turismo balnear são o principal motor da economia local», sublinha o dirigente da Quercus.
«É, na realidade, uma vergonha a receção que espera os turistas quando descem as escadas e se deparam com tal cenário, em função do estatuto que esta praia tinha ainda não há muito tempo – a de mais bonita do mundo», conclui Fernando Silva Grade, da Almargem.
Em declarações ao «barlavento», Sebastião Teixeira, diretor regional da APA, no Algarve, confirmou que o cano que despeja na praia é de águas pluviais. «O que acontece é que, apesar disso, como passa por zonas urbanas acaba por trazer sujidade», como dejetos de cães e gatos, exemplificou. Além deste insólito, junto ao miradouro, ainda é visível a herança da demolição do antigo restaurante que ficava instalado no meio da arriba, junto ao acesso de madeira. A calçada está partida, com tubos à vista, ainda que esteja delimitada.
Sebastião Teixeira revelou ainda ao «barlavento» que ambas as situações serão corrigidas em breve. «Está a ser acompanhado e estamos a criar uma solução, mas é algo que só poderia ser feito, após a intervenção de alimentação artificial», deste verão.
Sinalética jaz na areia
A sinalética que avisa para o perigo de derrocadas das falésias, já foi ela própria vítima. «Tal como a Almargem referiu diversas vezes, o mais correto seria delimitar, na época balnear, todas as zonas de risco com uma vedação dissuasiva de postes e corda. Poderia ser parcialmente removida em dias de tempestade, tal como acontece com outros equipamentos instalados nas praias. Contudo, a sinalética colocada é desadequada e quase não tem efeitos práticos», lamentou João Santos. «Duvido que a localização, qualidade do material e forma como foi colocado tenham sido feitos nas melhores condições – o que, mais uma vez, não é compatível com a dimensão e valor da obra», considerou João Branco, dirigente da Quercus.
Alheios a tudo isto, parecem estar os turistas que desfrutam o sol de outubro. «Quando estivemos na praia e explicámos a situação a alguns turistas eles sentiram-se indignados. Reconheço, contudo, que muitos dos turistas que vieram pela primeira vez ao Algarve podem não se ter dado bem conta da situação, já que na maior parte das praias do Mediterrâneo a areia é de qualidade semelhante. O que as praias portuguesas têm de excecional é a qualidade única e diferenciadora da sua areia em toda a Europa, o que provoca admiração e fascínio a quem nos visita», concluiu Fernando Grade, da associação Almargem.