O comandante da GNR de Tavira disse ontem em tribunal que o jovem acusado de matar o pai à facada numa aldeia do concelho terá agido sem intenção e por desespero, sublinhando que lhe custou mantê-lo na cela.
Na terceira sessão do julgamento, que decorreu ontem no Tribunal de Faro, Ricardo Sousa disse considerar que Maurício Cavaco «não teria intenção» de matar o pai e que o fez «por desespero», depois de «ter suportado a situação [alegado contexto de violência domestica] ao longo de anos».
Uma prima, amigos e pessoas da comunidade ligadas ao acusado reforçaram em tribunal que este era obrigado a trabalhar pelo pai, e sujeito a esforços pesados, desde os 12 ou 13 anos, diariamente e muitas vezes até depois da meia-noite.
Maurício Cavaco, acusado de matar o pai à facada numa aldeia de Tavira, para alegadamente defender a mãe de uma situação de violência doméstica, está ser julgado por um tribunal de júri, em Faro.
O crime ocorreu em dezembro de 2023 na casa da família, na aldeia de Várzea do Vinagre, na freguesia de Santa Catarina da Fonte do Bispo, quando o jovem, na altura com 19 anos, alegadamente interveio em defesa da mãe, matando o pai, de 63 anos.
O sargento Ricardo Sousa, que esteve no local do crime, disse que encontrou na altura o jovem «transtornado» e com «mágoa», e que lhe pareceu que este «não estava consciente do que tinha acontecido».
O militar acrescentou ainda que, ao contrário do que acontece com outros detidos, lhe custou «mantê-lo na cela», sentimento que nunca tinha tido em duas décadas de serviço, atribuindo-o à forma como o arguido falou consigo, ao que ouviu sobre o caso e pelo seu próprio traquejo profissional.
Ouvida por videoconferência, a prima e madrinha do acusado disse que a maneira de ser do tio era a de uma pessoa «com educação do interior, autoritária», e que a vítima mortal exercia «violência psicológica» sobre o filho e insultava Maurício e a esposa, mas frisou que nunca tinha assistido a agressões nos momentos familiares em comum.
A familiar disse ainda que o tio era «muito exigente» para com o filho, que depois dos horários escolares, muitas vezes até à meia-noite, tinha de efetuar tarefas ligadas à manutenção do monte onde habitavam e que, desde os seus 12, 13 anos, o via a carregar sacos de carvão pesados.
As 10 testemunhas ouvidas na sessão de hoje, entre amigos e pessoas ligadas ao percurso pessoal do jovem, como uma catequista, o diretor da escola e a chefe dos escoteiros, reforçaram a personalidade mais fechada e receosa do jovem e salientaram que este era «obrigado a trabalhar» pelo pai.
O patrão de Maurício desde 2023 e vizinho da família recordou a vítima mortal como uma pessoa «agressiva e conflituosa», e sustentou que, na localidade onde habitavam, todos tinham receio dele.
Na primeira sessão do julgamento, em 09 de janeiro, Maurício Cavaco assumiu o crime, tendo sido o próprio a ligar para o número nacional de emergência, mas disse não se lembrar do momento em que desferiu o primeiro golpe e os restantes, numa altura em que a mãe já tinha abandonado a casa para pedir ajuda aos vizinhos.
O jovem relatou que nunca tinha pensado em matar o pai, descrevendo-o como uma pessoa violenta e contando que, pelo menos nos últimos 10 anos, ele e a mãe eram alvo de constantes ofensas, humilhações e ameaças por parte do homem, que ameaçava mesmo a mulher de morte.
O jovem está em prisão domiciliária na casa de uma tia, depois de ter passado alguns meses na prisão a aguardar os procedimentos para a colocação de pulseira eletrónica.
Várias centenas de pessoas assinaram, no ano passado, um pedido de libertação do jovem, alegando que este foi vítima de maus-tratos e que não constitui um perigo para a sociedade.
Os tribunais de júri só são possíveis para casos em que a pena máxima dos crimes em causa seja superior a oito anos de prisão, estando vocacionados para os chamados «crimes de sangue».