Contar o Algarve em «Quando a sul/ O azul/ Luar» será a prova dos nove do novo ColecTA’23 – Colectivo Teatral do Algarve.
A estreia acontece já na sexta-feira, dia 10 de novembro, no Cineteatro Louletano, um dos coprodutores de «Quando a sul/ O azul/ Luar».
«Estamos a definir como algarvio, pessoas que nasceram cá e que quase nunca daqui saíram. Outras que nasceram cá, mas vivem fora. Temos também estrangeiros residentes há algum tempo. É esta heterogeneidade que nos dá o Algarve, não só do ponto de vista humano, mas do território, dos universos, dos contextos», explica ao barlavento, o encenador Nuno Pino Custódio.
«Organizámos a peça a partir dos relatos pessoais de cada um, de ângulos muito diversos e da compatibilização de todos esses discursos. Depois há um outro molde. O concelho de Loulé é a matriz porque tem uma grande faixa interior e litoral. Temo-lo como exemplar do ponto de vista formal, da serra, do verde, do interior, da solidão, da pobreza até ao enclave do triângulo dourado, e ao turismo», descreve o também diretor artístico da EsTe | Estação Teatral da Beira Interior, fundada em 2004, no Fundão.
A génese do elenco tem origem numa open call para um workshop orientado por Nuno Pino Custódio, que decorreu de 28 de agosto a 2 de setembro, no Auditório do Solar da Música Nova, em Loulé.
«Fizemos uma ação de formação intensa de 40 horas, dentro da minha disciplina nuclear que é a máscara neutra». Angelo Lorusso, Carolina Santos, Laura Pereira, Letícia Blanc, Mauro Coelho, Rafaella Ambrozio, Sara Vicente, Tânia Silva e João Tátá Regala foram os escolhidos.
«Vi o seu rendimento, a concentração e o engajamento. Fiz as minhas escolhas e algumas já estavam feitas», quer pelo perfil, quer por fazerem parte de outras estruturas da região, ideia que está na génese da ColecTA’23.
Ainda sobre o que se vai passar em palco, o encenador sublinha que o lado (auto)biográfico do elenco apenas reflete a região. «Pedimos que contem o Algarve a partir dos seus ângulos específicos, mas depois entram no caminho do teatro, saem do documental para o desdobramento da representação», explica.
Ou seja, os atores «não se representam a si mesmos. Criam personagens novas. A diretriz é aquilo que os preocupa, o que os arrasta, que os mobiliza, que os inquieta, o que os faz amar. A personagem é uma alteridade».
Outra particularidade é que tudo tem sido criado em conjunto num processo participado. «Não distribuo papéis porque não há textos. O texto é uma consequência do ensaio. Não existe antes. Os atores também são autores», sublinha. «Costumo fazer textos de encenações e não encenações de textos», sintetiza.
Para se perceber melhor, Nuno Pino Custódio explica que «uma encenação de um texto seria, por exemplo, uma peça de Shakespeare. Já está feito, teríamos de o adaptar. Aqui é um outro exercício», compara.
«Partimos da serra, do verde e há uma pedra que rola. Aconteça o que acontecer, a pedra vai sempre desembocar ao mar. Há uma ideia de facto, de tragédia. O mar é onde se morre, onde se renasce, onde se pensa a utopia, onde não há mais sítio para ir. O mar é uma solução, falando de forma abstrata. O luar também é importante para fazer o contraste com o dia».
As nove personagens, «estão todas na sua estratificação. Umas na cidade, no inverno, outras no montado, outras na fábrica de conservas, outras na Marina. E há uma dimensão poética muito, muito livre de as colocar, no fim, no mar», num coro.
Questionado sobre se este trabalho tem potencial para ser apresentado noutras salas do país, o encenador admite que «é uma pergunta que gosto de responder. Falar o Algarve sem ser ontológico não seria falar do Algarve. Ou seja, isto interessa ao algarvio do ponto de vista local, mas também é universal».
Durante o ensaio que o barlavento assistiu, sobressai a ausência de adereços e cenários. «É mais evidente o corpo, que em si já é um grande dispositivo plástico. O que estamos a criar é um teatro de sugestão. As personagens mimam objetos ou dão estímulos para o público construir na sua cabeça. Mas há uma proposta de luz, figurinos e um dispositivo cénico» que promete surpreender. Dito desta forma, parece algo exigente. Depende da perspectiva…
«Do ponto de vista do objeto, respondo que não. Mas se me perguntar se hoje um espetáculo de teatro é exigente para o público, acho que sim». E justifica: «o teatro é uma necessidade do ser humano, mas a sociedade está a ir por outro caminho. O caminho do prazer imediato, da dopamina, dos telemóveis, da comunicação digital, da ausência de atividades de longo prazo, de longa duração, da ausência de reflexão. Estou a falar de uma sociedade que já não é mais contemplativa porque não tem tempo para isso», lamenta.
«É uma sociedade multitasking, da atenção de sobrevivência que não se compadece com a contemplação. Nesse sentido, é claro que é exigente. Mas não é apenas o teatro. Ler um livro é algo fora do que acontece nesta sociedade distópica», conclui.
Futuro para a ColecTA
Carolina Santos, codiretora artística da Mákina de Cena, explica que a escolha de Nuno Pino Custódio tem a ver com o facto de ser uma das principais referências em Portugal no campo da formação de atores, e também da Commedia dell’arte. Além disso, «somos uma estrutura recente que está ainda a estabelecer-se. Para liderar um projeto desta dimensão seria preciso alguém com uma competência pedagógica muito grande. E porque esta é uma primeira experiência, queríamos alguém que nos pudesse juntar a todos numa estaca de cocriadores sem hierarquias internas. A sua presença acabou por capacitar um corpo coletivo de criadores», diz.
O trabalho «está a ser muito especial porque trazemos todos bagagens muito diferentes. Todas as cenas e textos são criadas por nós, retalhadas e escrutinadas por todos ao milímetro». Santos explica que esta criação é realizada em parceria com a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, A Fera Teatro, Ar Quente, Artis XXI, Sin-Cera Teatro, Te.Atrito, TEL – Teatro Experimental de Lagos, ETIC_Algarve e Casa da Cultura de Loulé, entre «outros que não têm participação direta, mas que nos têm ajudado muito».
No futuro, «queremos fazer nova criação. Podem até nem ser as mesmas pessoas. A intenção é sempre haver uma chamada às estruturas algarvias, como se fosse uma iniciativa de junção» com o objetivo de fazer uma itinerância pelos teatros da região. A periodicidade poderá vir a ser trienal, de forma a que a próxima ColecTA possa ser incluída nos planos de atividades dos parceiro».
«Agora, a receptividade será muito importante. No futuro poderá haver outras possibilidades, como a encomenda de um texto, escrito de raiz para um coletivo», conclui.
Após a estreia no Cineteatro Louletano, o espetáculo «Quando para sul/ o azul/ luar» seguirá para o espaço da Mákina de Cena, para duas sessões, nos dias 11 e 12 de novembro. Em 2024 será apresentado do palco dos outros coprodutores: Auditório Carlos do Carmo, em Lagoa, Centro Cultural de Lagos e Teatro das Figuras, em Faro.
Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.













