Casa dos Estudantes do Império inspira conversa do ciclo «cravo, palavra e melodia», em Faro, com curadoria de Kalaf Epalanga.
A conversa «A Casa que Germinou Nações», marcada para quinta-feira, dia 21 de novembro, às 19h00, no Club Farense, será o próximo encontro do ciclo «Cravo, Palavra e Melodia».
Com entrada gratuita, o evento propõe um debate sobre a Casa dos Estudantes do Império (CEI) e o seu impacto na formação cultural e política de jovens das antigas colónias portuguesas, especialmente durante a luta pela independência.
A discussão será moderada pelo escritor Amadou Dafé e contará com a participação da escritora Ana Paula Tavares e da professora Inocência Mata, que refletirão sobre o papel da CEI enquanto centro de pensamentos revolucionários e criativos que marcaram a trajetória de vários intelectuais africanos.
Nesta conversa, os participantes irão explorar como este ambiente influenciou a literatura lusófona e moldou as lutas e aspirações dos seus frequentadores.
Além das conversas, o ciclo «Cravo, Palavra e Melodia» inclui um concerto intitulado «Lua Ki Di Nos – Homenagem a José Carlos Schwarz», dedicado ao compositor guineense, no Teatro das Figuras, no sábado, dia 23 de novembro, às 21h30.
O tributo, com artistas como Manecas Costa, Karyna Gomes e Remna Schwarz, celebra a resiliência das nações de língua portuguesa, destacando o legado musical de Schwarz e o seu papel na promoção da identidade cultural guineense.
O ciclo encerrará na quinta-feira, dia 19 de dezembro, às 19h00, no Club Farense, com a conversa «Cravos e Causas: O Espírito de Abril Hoje».
Este último evento, com a artista Camila Maissune, a investigadora Ângela Coutinho e a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, abordará o impacto da Revolução dos Cravos na luta pelos direitos cívicos e o combate às desigualdades. As palestrantes vão também refletir sobre os desafios contemporâneos das sociedades pós-coloniais, unindo o legado de abril aos contextos atuais.
Casa dos Estudantes do Império, incubadora da liberdade
A Casa dos Estudantes do Império foi fundada em 1944, inicialmente para apoiar estudantes das colónias portuguesas em Lisboa. Embora o objetivo do regime fosse integrar esses estudantes na ideologia colonialista, o espaço acabou por tornar-se um centro de resistência e de troca de ideias progressistas, proporcionando a muitos estudantes africanos um ambiente propício para desenvolver as suas identidades culturais e as suas consciências políticas. Tornou-se, assim, um ponto de encontro para jovens intelectuais que acabariam por liderar movimentos de independência em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
A CEI serviu de plataforma para a criação e disseminação de um discurso de oposição ao colonialismo português, contando com figuras influentes como Agostinho Neto (futuro presidente de Angola), Amílcar Cabral (líder da independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde) e Eduardo Mondlane (um dos líderes da independência de Moçambique). Para muitos destes jovens, a CEI foi o primeiro contacto com as ideias de autodeterminação e emancipação, fomentadas tanto pela partilha de experiências como pela leitura de literatura revolucionária.
Em 1965, o regime de Salazar acabou por encerrar a CEI, receoso da influência crescente dos movimentos de libertação que ali se formavam. Ainda assim, o impacto da Casa dos Estudantes do Império manteve-se. A experiência nesse espaço marcou profundamente os líderes anticoloniais, que, ao regressarem aos seus países de origem, levaram consigo as ideias e os laços criados na metrópole.
Esse legado ainda ressoa na literatura, música e política dos países africanos lusófonos, continuando a influenciar as relações culturais e históricas entre Portugal e os seus antigos territórios coloniais.
Salazar deixou uma marca profunda e controversa na história de Portugal. O seu regime autoritário e repressivo, que durou décadas, limitou as liberdades individuais e manteve o país numa situação de atraso social e económico.
A censura, a perseguição política e a falta de desenvolvimento em áreas essenciais foram realidades que muitos ainda recordam e criticam, especialmente pelo impacto que tiveram nas gerações que viveram durante o Estado Novo e no longo processo de recuperação pós-ditadura.
A Revolução de 25 de Abril de 1974, que pôs fim ao regime, simboliza a resposta contra esse autoritarismo, representando a conquista da liberdade e o início de um novo caminho democrático para Portugal.
Os bilhetes para o concerto «Lua Ki Di Nos» estão disponíveis na bilheteira do Teatro das Figuras, aberta de terça a sábado, das 13h00 às 19h30, e online.
