barlavento – No último congresso nacional a JSD/Algarve conquistou uma marca importante. Quais as responsabilidades que têm?
Carlos Gouveia Martins – Este processo já começou em 2014, quando a JSD/Algarve conseguiu recolocar um algarvio eleito na Comissão Política Nacional (CPN) da JSD após mais de uma década de interregno. A Permanente da CPN da JSD é constituída apenas pelo presidente, vice-presidentes e secretária-geral, a que acresce o coordenador nacional autárquico e a auditoria financeira. É esta curta equipa que tem a responsabilidade de, diariamente, delinear a ação política da JSD. Neste restrito «núcleo duro» só há registo de um algarvio, há mais de 37 anos, quando Vasco Grade fundou a JSD e liderou a estrutura na região. As responsabilidades que temos hoje, por fazer parte deste «núcleo duro», não são só do Carlos Gouveia Martins. Foi o trabalho da minha Comissão Política Distrital (CPD) que me colocou «ali» e é com eles que continuo a aconselhar-me. Naturalmente, e salientando que é uma marca histórica, é positivo existirem vozes algarvias a apresentarem junto do país as preocupações e os problemas que a região vive e que há quase quatro décadas não tinha esse privilégio diário de «falar».
Qual o balanço que faz dos últimos dois anos a liderar a JSD/Algarve?
Um balanço muito positivo. A nível interno, aumentámos o número de militantes da JSD na região, se quisermos precisar, posso dizer que foi um aumento em 220 por cento face ao que havia até maio de 2014. Hoje em dia temos JSD em cerca de 75 por cento do distrito e quando pegámos na estrutura esse número estaria entre os 30-40 por cento. Renovámos a imagem da estrutura e isso mexeu com todo o contacto com os militantes e os algarvios, desde comunicação interior a exterior, mailing list até sms ou contactos telefónicos, sem falar que, todos os mese,s os militantes recebem o nosso trabalho político via newsletter. Hoje não haverá um militante do Algarve info-excluído, e tenho orgulho disso. Quanto a trabalho político, e também iniciado no Congresso Nacional da JSD, em Braga, em 2014, quando apresentámos cinco propostas políticas setoriais, fomos neste Congresso Nacional da JSD de 2016 novamente a Distrital que apresentou mais propostas políticas – sete – o que nos faz ver que, mesmo representando apenas 1 por cento da militância nacional, conseguimos valer 13 por cento de todas as propostas políticas do país. Mas este trabalho não é fruto do acaso. Nasceu de reuniões periódicas e trimestrais com entidades regionais, como o diretor regional de Agricultura e Pescas, o seu homólogo da Educação, com o IPDJ, com associações juvenis, com a Entidade de Turismo ou mesmo com a Docapesca. Aliás, neste mandato abrimos as portas até a outros quadrantes políticos, ou não tivéssemos nós reunido com a histórica líder socialista Jamila Madeira ou o atual secretário de Estado socialista José Apolinário que também é uma referência no PS. E, com isto, dizer que fomos a CPD da JSD/Algarve que criou a primeira Academia de Formação Política no distrito, que queremos manter e é claramente uma das melhores do país já, não obstante ter apenas duas edições. Em propostas políticas não podemos esquecer que nasceu da JSD, de um militante nosso, um sucesso do município liderado pelo presidente Rui André na implementação do financiamento para primeira habitação jovem no concelho de Monchique. Na área da saúde apresentámos uma proposta para aumentar a acessibilidade de estudantes deslocados, na Universidade do Algarve (UAlg), terem acesso a cuidados de saúde primários via SNS, reunindo com o presidente da ARS/Algarve, Dr. João Moura Reis, e vimos essa medida ser protocolada entre a ARS e UAlg ser assinada depois. E, para finalizar, não esquecemos que a JSD/Algarve foi a única força política regional sempre coerente e ativa contra a implementação das portagens na A22 proposta pelo governo PS de José Sócrates em 2009. Fosse o primeiro-ministro José Sócrates, Pedro Passos Coelho ou António Costa, a JSD/Algarve demonstrou sempre uma única posição, na defesa do turismo e realidade regional e não fruto de «partidarite». Não fomos ziguezagueantes como o PS/Algarve que já tem três posições distintas neste processo. Foco que, na campanha eleitoral de 2015, referiram que iriam reduzir de imediato as portagens na Via do Infante, escrevendo inclusive no seu programa que queria a A22 «gratuita», está escrito e é público, e agora passados mais de seis meses de governação da geringonça de que fazem parte ainda não cumpriram e até já votaram em Assembleia da República contra a suspensão de pagamento dessas mesmas portagens enquanto a via de circulação alternativa, que não o é na realidade – a Estrada Nacional 125 – estiver em obras de requalificação. Que os algarvios se pronunciem sobre este mau exemplo de se estar na política.
Por todas as razões que apontou, Deduzo que se recandidate ao próximo mandato…
Já é oficial, [desde sexta-feira, 27 de maio], após ter sido publicado no mecanismo de convocatória do PSD, «Povo Livre», que o terceiro Congresso Distrital da JSD/Algarve e as eleições serão a 9 de julho, em São Brás de Alportel. O regulamento e o cronograma estão legitimamente aprovados pelos estatutos do partido. Na última reunião com a minha CPD da JSD, há duas semanas, quando iniciámos este processo eleitoral, informei que entendia que, não só este compromisso não estava finalizado, como era minha responsabilidade dar consistência, sustentabilidade e continuidade ao projeto que desenvolvemos, em conjunto, por mais dois anos. Por isso, sou recandidato, assumi-me perante a minha equipa como tal, sendo a primeira vez que o divulgo publicamente. Sou recandidato a presidente da JSD/Algarve com muita honra.
Que propostas tem para o próximo mandato no âmbito desta recandidatura?
Se me concederem a honra de ser reeleito, a 9 de julho, poderei dizer que, enquanto presidente da JSD/Algarve tive a responsabilidade de atravessar todos os processos eleitorais que uma estrutura política pode viver: eleições europeias, presidenciais, legislativas e, agora, autárquicas, em 2017. O foco de uma estrutura política como a JSD tem de se adaptar à realidade, não é estanque e cristalino. Neste novo mandato teremos de dar primazia à formação autárquica. Já demos uma resposta cabal ao país, de como somos capazes de o fazer, através do «Formar Algarve», porque vivemos numa região que tem pouco mais de 10 jovens autarcas da JSD. É fruto da má preparação que tivemos e de não termos sido capazes, no passado, de formar jovens que fizessem parte do grupo dos melhores preparados que tiveram a felicidade de estar nas listas autárquicas às Juntas, Assembleias e Câmaras. Temos o objetivo primordial de, e sabendo que não iremos negociar quotas mas apenas mérito e trabalho, formar jovens para que sejam capazes de apresentar soluções e trabalhar em prol dos seus concelhos. Se conferirmos ferramentas para essa formação autárquica, tenho a certeza que cumpriremos o objetivo de ter muitos mais jovens presentes nas listas, fruto da sua qualidade, e de serem os melhor preparados. E não apenas por serem militantes do PSD ou terem menos de 30 anos.

Claro. O Algarve não se esgota nas autarquias e nos cargos de decisão política. A JSD/Algarve tem de manter a sua postura inexcedível de apresentar propostas políticas que visem melhorar a qualidade de vida da juventude algarvia, como temos feito nas áreas da saúde, da habitação ou também no associativismo juvenil. Aliás, fomos a única força política que colaborou com o IPDJ para a implementação de medidas de potenciação desta área. Sem esquecer que, e fruto do desgoverno de António Costa que «virou a página», de facto, para andar para trás, o desemprego cresce e não diminui, ao contrário do que aconteceu durante o governo de Pedro Passos Coelho. Teremos de nos preocupar com o desemprego jovem que existe na região. Teremos de olhar para o turismo que é uma bandeira mundial do Algarve. Teremos tanta coisa por fazer ainda… mas é por isso que sinto que quero continuar. É porque o Algarve precisa desta JSD que tem muita vontade de trabalhar.
Quais são os problemas que mais preocupam os jovens?
Olhando para o Algarve, mas também para o país, há três grandes preocupações da juventude, claramente identificados, inclusive, por estudos. A taxa de desemprego jovem, o primeiro contrato de trabalho e o acesso à primeira habitação. Mas o que vemos, no dia a dia, deste governo da «geringonça» é que as prioridades das Esquerdas não são essas! São matérias pouco importantes para construirmos o presente e o futuro da juventude portuguesa: Ouvimos falarem na mudança de sexo aos 16 anos, na mudança do nome do Cartão de Cidadão, nas barrigas de aluguer, de matérias (que devem ser estudadas, sim) como a morte assistida. Mas e que mais? O aumento de desemprego já não interessa? É tudo «errata» como fizeram no Orçamento de Estado? O retrocesso da economia do país já não influencia?
Cada vez mais os jovens adiam a sua vida? Considera que se não houver dinheiro, estabilidade, as pessoas também não têm filhos, não deixam de depender dos pais?
É factual que se não houver a criação de emprego, a distribuição de rendimentos e um contrato de trabalho que confira estabilidade para os casais mais jovens, a natalidade será afectada no mau sentido. Haverá quem tenha filhos em condições menos ideais, não deixa de ser menos pai ou mãe por isso, mas o ideal de condições benéficas para esse marco de família faz-nos acreditar que, assim, com o aumento do desemprego, retrocesso no crescimento da economia, diminuição das exportações, aumento das importações e, no geral, com esta linha do governo de António Costa é complicado. Na altura das próximas legislativas, o PS voltará a preocupar-se com a natalidade, mas entretanto, dirá algumas coisas sobre isso, vagas e sem substância, visto ser claramente um candidato permanente que tem como hobby ser primeiro-ministro de Portugal.
Falta que algumas entidades, autarquias, organizações olhem mais para os problemas dos jovens ou jovens adultos? A geração mais qualificada ainda é a que mais sofre com o desemprego, como disse antes.
Falta muita coisa. Mas neste caso concreto, falta que quem tem a responsabilidade de ter o poder da decisão política (entidades, autarquias ou organizações), tenham a sensibilidade e a vontade de se sentar à mesa com diferentes gerações, onde está esta «mais qualificada de sempre», para construir soluções. É preciso abrir as decisões à sociedade civil, a quadros independentes de análise, a quem não foi eleito, mas tem ideias, vontade e capacidade de propor. A JSD/Algarve, também nisso, já mostrou que é possível. Apresentámos propostas à Direção Regional de Agricultura e Pescas, Educação, à Docapesca, a secretários de Estado, ao IPDJ, à ARS do Algarve, à UAlg… mas, e virando ao contrário, porque é que também outros não imitam a JSD e vão ao encontro de quem decide? Falta vontade de ambas as partes. Mas há quem lance uma pedrada no charco para mudar esta realidade. Tenho orgulho de ser dos que querem construir e não estão acomodados, e o melhor exemplo no distrito é a JSD/Algarve.
Na sua opinião, os jovens estão a aproximar-se mais da política ou vê-na com descrédito?
Tem resposta dupla. Sei que exemplos como temos dado, aproximam os jovens algarvios da política e consequentemente da JSD. Mas, à escala global, não somos utópicos ou hipócritas. Há menos participação cívica em 2016 do que em 2000, quando me inscrevi na JSD. Há menos militantes, mas acima de tudo há menos cabeças pensantes que tenham vontade de trocar opiniões e propostas. Hoje é difícil superiorizar os bons exemplos aos maus exemplos. Vivemos num país que teve um ex-primeiro-ministro preso, um país que vive constantemente casos menos apelativos no setor bancário e que até no desporto há provas de comportamentos menos dignos. O que têm em comum? O álibi perfeito para todos eles é sempre o mesmo, o culpado para o povo português é «o político». Mas, saibamos o seguinte. Quer em 2000, como em 2016 haverá sempre bem e mal intencionados, na política como na associação de moradores da freguesia. Só valorizando o trabalho é que poderemos voltar a credibilizar quem está político nas suas vidas, porque político somos todos. A partilha de opiniões acontece nos partidos ou até numa mesa de café sobre o jogo da bola. Política é bem mais do que ideologia de direita ou esquerda. A visão dos portugueses há de melhorar se os melhores se chegarem à frente.
No último congresso assumiu o cargo de coordenador nacional autárquico pela JSD. Quais são as suas responsabilidades atuais?
É o maior e mais desafiante projeto que a JSD me conferiu neste percurso que já tem mais de 15 anos. Aceitei o convite do meu presidente nacional da JSD, Simão Ribeiro, acima de tudo, por me sentir capaz e motivado para liderar este processo no país. Em conjunto com o PSD, sei que teremos uma grande responsabilidade de conferir as ferramentas formativas e informativas aos jovens portugueses da JSD que têm vontade de participar na condução dos destinos dos seus concelhos. Uma coisa é certa: não irei negociar quotas para a juventude, nem lugares em listas autárquicas. Quero, sim, e é uma ideia enraizada em toda a JSD e não apenas no seu coordenador nacional, que sejam escolhidos os melhor preparados e os mais capazes em todas as listas. Até esse processo de seleção, irei trabalhar para que nesse conjunto dos «melhores» estejam muitos jovens que o atinjam por mérito. Sei a responsabilidade que também me cabe, através das propostas políticas que cada jovem possa ter para os seus municípios, que os projetos em que estiver o PSD saiam vencedores nas freguesias e nos concelhos. Neste ano, que assinalamos os 40 anos das primeiras eleições democráticas livres de Portugal, o historicamente maior partido autárquico escolhido nas urnas pelo povo, terá de recuperar do pior resultado em eleições autárquicas que tivemos em 2013. Em 2017, espero que fruto do trabalho e em virtude das melhores soluções e propostas, o PSD volte a ter a responsabilidade de presidir a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), assim como a Associação Nacional de Freguesias (Anafre), conquistando, claro está, a maioria das Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia desses 308 municípios que o país tem.
Enquanto coordenador autárquico pela JSD, no caso do Algarve, há câmaras que podem ser mais complicadas de conquistar. Loulé, Portimão, Lagoa. Como vê este desafio?
Falar do distrito que melhor conheço é mais fácil, ou não tivesse a felicidade de acompanhar na pele eleições autárquicas desde 1989, quando então o meu pai foi candidato e teve o melhor resultado do PSD na minha cidade, em Portimão. No Algarve temos a consciência que vimos do segundo pior resultado de sempre, em 2013 conquistámos apenas cinco Câmaras Municipais e cerca de 20 Juntas de Freguesia. Extrapolando pelo que disse para o país, o que quero e irei esforçar-me por isso, é que o PSD no Algarve recupere, pelo menos, o resultado que alcançou em 2001, quando teve, pela primeira vez, a maioria das Câmaras no Algarve, nove na altura.
É possível voltar a repetir este resultado?
Não há uma Câmara Municipal que não seja difícil de conquistar. Como também todas são difíceis de manter, veja-se o exemplo da Câmara Municipal de Portimão, que sempre foi presidida pelo PS, e que também será difícil de a manterem. Há, em primeiro lugar, respeito pelo trabalho que está a ser desenvolvido no local, a nível das secções do PSD. Mas há, sempre, concelhos identificados e assinalados em que temos uma história que diz muito à população. Cada caso é um caso. Mas vejamos Loulé, que até esta eleição de Vítor Aleixo (PS) em 2013, foi tão bem governada pelo grande presidente Seruca Emídio. Aliás, ainda há dias víamos o primeiro–ministro inaugurar uma obra desse tempo, do PSD de Seruca Emídio e não deste executivo. A população louletana reconhece o trabalho meritório do PSD e a grande proximidade da equipa do então presidente de Câmara e também, por isso, não me escondo de referir-me como «grande» ao presidente Seruca. Em Loulé, que muito nos diz, a história demonstra que o PSD pode sempre ambicionar ganhar a Câmara. Talvez, como aconteceu em 2002, Vítor Aleixo volte a perder. Lagoa também era uma Câmara, historicamente PSD, em que a história de trabalho também nos favorece, que hoje tem, e na política temos que ser sinceros, um bom presidente. O Francisco Martins é um bom autarca que tem valorizado o seu mandato. É uma autarquia difícil como as outras 15, mas onde o PSD não se pode esquecer que tem muitas décadas de trabalho autárquico bem conseguido e, em parte desse processo com Francisco Martins na governação do PSD, e portanto ele teve aqui, em tom de brincadeira, uma boa «escola».
E Albufeira?
É uma cidade conhecida pelo bom trabalho que tem sido feito. Ainda há tempos houve o infortúnio das cheias e, logo, se denotou o trabalho de terreno do presidente Carlos Silva e Sousa, que vem também no seguimento do que foi feito pelo presidente Desidério Silva. A população de Albufeira reconhece o bom trabalho que tem vindo a ser feito. É difícil manter, como todas as outras 15, mas também é muito difícil para outro partido ganhá-la, pois tem um trabalho tão bem conseguido pelo Partido Social Democrata.
Assim como Monchique?
Sim. De facto, o Rui André é um presidente jovem, que orgulha muitos jovens que gostam de política, pelo bom trabalho que tem desenvolvido. Ativo, dinâmico e que é um exemplo, porque também é capaz de dar, a nível metafórico, um murro na mesa, quando não gosta independentemente da cor do partido que defende. Foi o caso dos tribunais em que ele foi contra a medida imposta. Não estou a dizer que concordo. Apenas que foi contra a medida de Pedro Passos Coelho, porque entendia que a população de Monchique merecia a ter o seu tribunal. É um exemplo, porque tem valorizado a implementação de jovens e novos moradores no concelho, bem como a marca do concelho. É um bom presidente de Câmara e essa também será uma difícil de ganharem-na ao PSD. Depois temos Vila Real de Santo António, onde Luís Gomes tem o último mandato. Será um desafio enorme. No entanto, Luís Gomes ficará para a história como o melhor presidente de Câmara que VRSA teve, com muita obra feita. Foi sempre um concelho mais apagado no distrito, fruto das circunstâncias, de ter uma densidade populacional menor. Hoje é um concelho com muita vida, com muita iniciativa das juntas de freguesia, onde também destaco o bom trabalho do presidente da Junta de Freguesia Luís Romão, um trabalho de muita proximidade no centro histórico. É um local onde o PSD tem os seus pergaminhos e pode ganhar assim com merece.
No entanto, é uma Câmara que tem problemas financeiros…
Sim. É dito que Vila Real de Santo António tem os seus problemas financeiros. Podemos ver que a obra foi feita e agora, para já, a dívida gerada é em virtude dessa obra e de compromissos assumidos. Nunca é bom ter dívidas, mas, se olharmos para os encargos em VRSA, vemos que foi em virtude de obra feita. Não é como o caso de Portimão, em que a dívida é bem superior até! As pessoas gostam de comparar o incomparável. Em Portimão não há obra, é uma cidade em declínio total e há uma dívida que ninguém percebe de onde veio.
O PSD está disposto a realizar coligações para conquistar essas autarquias mais complicadas? Quão longe está o partido disposto a ir?
As direções nacionais dos partidos têm que chegar a um consenso para verem até que ponto podem ir os partidos nesta predisposição de criar coligações locais. Depois passará pelas concelhias e distritais. Eu acho que o mais importante é existir um projeto único, em que as pessoas de partidos diferentes, mas que tenham uma leitura, uma visão para os concelhos do projeto unificado, em prol do desenvolvimento territorial, se possam juntar. Há, por exemplo, um bom caso de coligação já no Algarve e que deverá continuar: Faro. A Câmara Municipal de Faro tem um bom presidente. Há pouco falava-se de dívida. Neste caso houve um trabalho hercúleo na diminuição da dívida deixada pelo PS, que atualmente preside a Assembleia Municipal. O PSD, através primeiro do Macário Correia e depois do professor Rogério Bacalhau, foi abatendo essa dívida e hoje as contas estão totalmente estáveis. É um trabalho de muito mérito, que deve ser destacado na região. Fruto de uma coligação estável, sólida e em prol dos farenses. Espero que nestas autárquicas e, deixando já o desafio e dizendo qual a missão para Faro, é reconquistarmos a maioria no executivo da Câmara porque efetivamente temos uma oposição que só se preocupa em destruir, à semelhança do governo. É tudo contra só porque vem de uma Câmara PSD+CDS. Respondendo ainda à questão das coligações, há localidades onde existem projetos que se assemelham e que podem valorizar um comum.
É natural de Portimão… No caso desta Câmara vê com bons olhos uma coligação?
Veria com bons olhos que existisse em Portimão um projeto comum a muitas vontades de recuperar a capital do Barlavento algarvio e a segunda maior cidade da região. Portimão é uma cidade que sempre foi governada pelo PS, os únicos responsáveis pelas coisas boas que hoje são esquecidas no concelho, mas que também existiram em tempos, mas pelas muitas coisas más que o concelho tem. Desde a dívida, o desemprego, ser uma cidade que está defraudada dos pergaminhos de ser a mais bonita e apelativa. Neste momento, é uma cidade caída ao abandono e, portanto, quando se cai ao abandono, depois arranjam-se ferramentas para alguém tratar daquilo que abandonamos e há rotundas a serem dadas a empresas…
Mas uma será do PSD/JSD Portimão…
Onde a JSD se prontificou e disponibilizou para ajudar e trabalhar pela cidade através da rotunda, sim.
Voltando à coligação…
Reitero que veria com bons olhos um projeto comum, uma possível coligação de diversas forças vivas do concelho, sim. O que se vê é que a população portimonense está farta deste modelo governativo do deixa andar, da espiral recessiva em tudo o que o concelho tinha de bom e até melhor que outros concelhos. Agora uma coligação em que sentido? Entre portimonenses que tenham a predisposição para se unir, unir propostas para melhorar a cidade. Existe um acordo de coligação na cidade efetuado entre as Comissões Políticas do PSD e do CDS. Existe um bom trabalho da oposição feito pela Comissão Política do CDS, vereador José Pedro Caçorino, que infelizmente não tem a resposta à altura do PSD. E falemos das coisas como elas são, pois esta é uma situação conhecida no distrito e até no país. Portanto vejo com bons olhos, acho que é possível, haver um acordo de coligação alargado para conquistar pela primeira vez a Câmara Municipal de Portimão. Veremos.
Como vê a atualidade política. Acha que o governo socialista chegará ao final da legislatura?
Passado seis meses é visível que António Costa personificou bem aquilo que vê do seu mandato com a história da vaca voadora. Vive num conto de fadas, numa fantasia política em que se encarrega de destruir tudo o que foi bem feito pelo anterior governo, como aliás diversos países europeus e a Comissão Europeia dizem e reafirmam, mas Costa não vê. Estava a ser conseguida a retoma económica que o país necessitava. Percebe-se, porque é um governo sustentado pelo BE, portanto esquerda radical, e pelo Partido Comunista Português, e há que satisfazer as vontades. António Costa vai ter que arcar com as consequências de querer o poder a todo o custo. É um primeiro-ministro que é um candidato permanente e que faz hobby de ser primeiro-ministro do país e, portanto, a principal preocupação é estar em campanha diária. Fala, por isso, de coisas que não são exequíveis. Indicar metas que sabe que não lá vai chegar ou indicar orçamentos cheios de erratas. Percebe-se o porquê. Aquilo que vejo deste governo, além de ter uma estabilidade muito virtual, os três partidos que sustentam esta coligação de esquerda são unânimes em conseguir concordar naquilo tudo que discordam. Estão muito agarrados ao poder. Depois tem a força supernatura dos sindicatos. Basta ver que a CGTP tinha o Arménio Carlos, que há um ano ia para a luta sob o mote «governo para a rua» e a «luta continua» e hoje é um Arménio Carlos, uma CGTP, que é a voz do governo junto dos trabalhadores e do tecido sindical. Passou a ser «a luta continua nas empresas e na rua». Vê-se que está muita gente presa por arames a este governo. Se acredito se durará até ao fim da legislatura? Entendo que é difícil, porque mais dia, menos dia, estatística atrás de estatística, índice atrás de índice, os dados vão sendo cada vez mais preocupantes. Vemos as exportações diminuir, as importações aumentar, o défice aumenta, não estabiliza nos números que querem, o desemprego aumenta a um ritmo galopante, embora o governo diga que é um erro estatístico e de cálculo. Depois temos um ministro da Educação que efetivamente não é Tiago Brandão, mas Mário Nogueira, líder da FENPROF. A partir do momento em que quem ganha eleições não faz governo e quem perde é governo, já podemos acreditar em tudo. Até poderá chegar ao final do mandato se eles entenderem que o poder a todo o custo é que conta e o país não conta assim tanto.
Acha que os portugueses fizeram sacrifícios em vão durante quatro anos?
Sim, os portugueses fizeram muitos sacrifícios e é isto que também descredibiliza a política. Foram feitos para haver uma retoma económica, crescimento, mais exportações e a diminuição das importações. Para o desemprego descer, até valores onde não estava desde o governo anterior a José Sócrates. Esse trabalho foi agora destruído em seis meses. Isto descredibiliza, porque quem está mais desatento o que se lembra é: «há meia dúzia de meses sacrifiquei-me, paguei mais, fui taxado e hoje terei que fazê-lo outra vez». Esquecer-se-ão, porque a memória é curta nestes casos, que os governos mudaram. E quem fez os cortes foi um governo que era o bicho papão, vindo depois os outros, de armas e bagagens. E afinal não vieram dar, porque isto já me faz lembra 2011. O que passa, para quem anda mais distraído, é que os políticos são todos iguais. Infelizmente há quem só se preocupe com ele próprio e com o estar eternamente em campanha. Hoje em dia assusta ver que estamos a andar para trás. O virar de página de António Costa acontece, mas é virar de página para trás. É o virar de página para a austeridade de esquerda.
Há algumas notícias, nos últimos dias de que haverá um certo ambiente de instabilidade no PSD. Quer comentar?
Temos que entender que não seria humano um projeto político sair vencedor e não poder governar, fruto de diligências que todos nós conhecemos. É normal, em virtude de sermos seres humanos, que tenha existido, após o empossamento de António Costa algum desencantamento do PSD. Trabalhou, ganhou as eleições e não pôde governar. Tem sido dito que Pedro Passos Coelho poderá ser um governante a tempo e a prazo. No entanto, há que recordar que ganhou com 95 por cento o Congresso do Partido. Pedro Passos Coelho foi o único dirigente político europeu a ganhar eleições democráticas, após um longo processo de austeridade. É o único! E quer se queira, quer não, é apenas o terceiro líder do PSD a ser reeleito, após Sá Carneiro e Cavaco Silva. É fácil dizer que está sozinho. E eu pergunto, se é, quem ganhou? Venceu as eleições legislativas, na Europa também demonstrou que ganhou, ganhou o partido com mais de 95 por cento. Está sozinho? Acho que não. É natural que os outros partidos consigam arranjar, através de pequenas estratégias, forma de dizer que o PSD está instável, quando o que não está estável é o governo. São coisas distintas. O PSD, não o escondemos, fez o luto natural do processo que houve, mas já acabou. E, prova das propostas estruturais e reformistas que temos apresentado ao governo, é um partido que está vivo. Também nunca escondemos que sempre houve divergências. Ainda bem que existem. Antes ser do PSD do que um partido que fala a uma só voz e toda a gente é abafada. Vejo um partido vitorioso, que está mobilizado, unido e focado no próximo objetivo: ganhar as autárquicas. Depois, ou antes, haverá legislativas e aí acredito que, pela terceira consecutiva, o PSD irá ganhá-las.
Por último, gostaria de ter a sua perspetiva sobre a atual política europeia. Wolfgang Schäuble quer castigar Portugal….
Wolfgang Schäuble dizia, há uns meses, que era bom este governo socialista começar a olhar para todas as coisas que foram feitas e para ter cuidado, mas o que vemos é que há um ministro das Finanças em Portugal, Mário Centeno, por acaso algarvio, e outro quando vai a Bruxelas e a Estraburgo. Vemos alguém que fala para dentro do país a dizer que é preciso ter cautela, existir recato nas declarações sobre os défices, o programa de ajustamento e de independência financeira. Wolfgang Schäuble não acorda hoje e pensa: «vou dizer que, em Portugal, é melhor terem atenção e continuar o processo que estava a ser feito do crescimento económico e da sustentabilidade em virtude das reformas que estavam a ser implementadas». Não. Agora temos um governo que não. Faz-me lembrar a expressão socialista de «que quem se mete com o PS leva». É um bocado isto. Vemos que nem alguém como Wolfgang Schäuble, com o percurso que tem, pode aconselhar um governo português. É aqui que vemos logo uma clara diferença de quando era o governo de Passos Coelho. Houve críticas e desconfiança. Os ratings falam por si. Foi um governo, muito atacado numa fase inicial, mas que nunca vimos negar ou ir contra a palavra da UE. Chegou ao fim de mandato. Quando se vê Wolfgang Schäuble dizer: «sigam as medidas do anterior governo», é uma prova de confiança, de meritocracia, que é dada ao governo anterior. Se estava tudo a ser bem feito? Sejamos realistas, não. Não era o paraíso também. Havia coisas a melhorar. No entanto, o caminho era aquele. Hoje, poderá haver coisas bem feitas por António Costa, mas o caminho não é este e as pessoas estão a avisar. Começa, uma vez mais, a ser parecido com 2011. Parece que foi já ali, mas 2011 vai ser já acolá.
