barlavento – Qual é o balanço que faz sobre a atividade da Junta de Freguesia de Odiáxere, em 2014?
Carlos Fonseca – O ano de 2014 foi muito complicado para esta Junta de Freguesia em termos orçamentais. Recebemos muito pouco dinheiro, só para uma ideia, são 47.424 euros através do Fundo de Financiamento das Freguesias, o que nem sequer chega para pagar os salários ao pessoal. Na delegação de competências pela Câmara de Lagos, os novos contratos de execução celebrados permitem-nos receber mais 50.297 euros anuais. E como freguesia rural que Odiáxere é, recebemos por ano mais de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) rústico do que urbano, na ordem de pouco mais de 12 mil euros.
b – Perante as limitações económicas, o que ficou por fazer?
CF – Sou uma pessoa por natureza realista. E sabia que o que iria acontecer devido a mandatos anteriores seria muito complicado até porque a Junta de Freguesia de Odiáxere sempre esteve muito dependente da delegação de competências da Câmara Municipal de Lagos. Em termos orçamentais, a situação até está a melhorar, mas essa delegação de competências permite-nos receber muito pouco dinheiro. Em face dessas limitações, no ano de 2014 ficaram por realizar algumas obras no cemitério, ao mesmo tempo que sentimos imensas dificuldades para conseguir reparar estradas e caminhos rurais com muitos buracos no asfalto. Muitas dessas vias necessitam de tapete novo, o que é impossível neste momento. Para compensar as dificuldades financeiras, temos pessoal no terreno que, muitas vezes, até faz autênticos «milagres».
b – Mesmo assim, qual foi a principal obra levada a efeito?
CF – Estamos essencialmente voltados para as pessoas e ajudá-las em termos sociais tem sido o nosso principal trabalho. Temos uma coletividade, o Cantinho Solidário, que nos dá um apoio excelente ao nível de recolha e distribuição de roupas, estando agora também a ajudar no Banco Alimentar. Para tal, os seus colaboradores deslocam-se a Portimão numa viatura cedida pela Junta de Freguesia de Odiáxere para o transporte de alimentos.
b – Há problemas sociais, há fome em Odiáxere?
CF – Há. E o desemprego é um dos problemas que contribui para essa situação, embora não tenha números sobre essa matéria. Muitas pessoas têm procurado emprego nesta Junta de Freguesia, mas, como sabe, as autarquias estão limitadas pelo Estado ao nível da contratação de pessoal. Em termos de realidade, há muita fome em Odiáxere. Há muitas pessoas idosas a sobreviverem com pensões de reforma de valores mínimos, na ordem dos 250 euros mensais, gastando muito dinheiro em medicamentos. Como tal, têm de recorrer ao Banco Alimentar para levar comida para casa uma ou duas vezes por mês.
b- Quantas pessoas estão nessa situação?
CF – Estão inscritas no Banco Alimentar 26 famílias. Existe uma Rede, que inclui o Banco Alimentar, a ação social, a Câmara Municipal e a Santa Casa da Misericórdia de Lagos, entre outras entidades, as quais partilham informação e tentam responder às solicitações porque havia pessoas que iam buscar alimentos a todo o lado, ou seja, a essas instituições. Infelizmente trata-se de uma situação chocante em pleno século XXI.
b- Também há pessoas a recorrer à Junta de Freguesia? O que lhe pedem?
CF – Há pessoas em estado de desespero a pedir medicamentos e comida. Naturalmente, encaminhamos esses casos para o Banco Alimentar e muitos também para a Câmara Municipal no tocante a medicamentos, uma vez que tem um protocolo com uma farmácia em Lagos em termos de comparticipação nas despesas. E existem muito mais situações problemáticas em que temos de ir ao encontro das pessoas porque elas ainda sentem vergonha. Há muita pobreza envergonhada na freguesia de Odiáxere ao nível de idosos na casa dos 70 anos idade.
b – Os filhos não podem ajudar?
CF – Em muitos casos não têm condições para ajudar os pais. E noutros casos, são os avós e até os próprios pais, mesmo em situação difícil, que estão a ajudar netos e filhos por estes se encontrarem no desemprego. Quando surgem pessoas idosas a ficarem endividadas, tal problema não é mais do que o resultado de estarem a ajudar filhos e netos. Já chegou a essa geração. É esta a realidade, como de resto, infelizmente, sucede por esse país fora.
b – Se lhe fosse possível apontar uma obra, qual seria a aposta durante este ano ou até final do seu mandato, em 2017?
CF – Pessoalmente e a minha equipa também, gostaríamos de apostar numa obra, o «ex-libris» de Odiáxere. Estou a referir-me ao moinho de vento, situado num local estratégico, perto da estrada em direção à barragem, zona de passagem de muitos turistas estrangeiros. Foi reparado no tempo do meu antecessor, Luís Bandarra, e está pronto a funcionar de forma permanente e mais dinâmica. Uma das coisas que gostaria de fazer seria aproveitar aquele moinho para o tornar um ponto de paragem para visita, com exposições permanentes e instalar ali um museu, de modo a aproveitar uma área onde já existe um polo de leitura e um espaço sénior, que está aberto e a cargo de um grupo de amigos para confraternizarem e jogarem pétanca. O que pretendo é que funcione tudo em conjunto, de forma a que o moinho se possa tornar um local de atração para visitantes, incluído nos roteiros turísticos do Algarve, o que poderá contribuir para gerar receitas para os estabelecimentos comerciais, restaurantes e cafés. Qualquer visitante iria adquirir uma lembrança de Odiáxere e tirar uma fotografia junto ao moinho, de modo a tornar esta localidade ainda mais conhecida a nível internacional. Contamos com a colaboração de um senhor que foi moleiro, o senhor Guerreiro, que está sempre disponível para ajudar quando há eventos. O nosso objetivo é pôr o moinho a funcionar, em 2015, com peças antigas, ferramentas, utensílios agrícolas e mostrar às pessoas o espaço como era noutros tempos. Ao fim ao cabo, Odiáxere é uma terra de agricultores.
Por outro lado, existe a Igreja Matriz com um portal manuelino, sobre o qual há quem diga que é o mais antigo do Algarve, assim como uma ponte medieval, a qual esperamos que seja alvo de reparação muito em breve, pois existe uma candidatura nesse sentido, e ainda um menir em Odiáxere. Ou seja, temos muitos pontos de interesse que, se calhar, noutras localidades seriam muito melhor rentabilizados para atração turística.
b – Que impacto sente ao nível do trânsito em Odiáxere, na Estrada Nacional nº. 125, desde a introdução das portagens há mais de três anos na A22/Via do Infante?
CF – Passou a haver muito mais trânsito a passar em Odiáxere. E é muito complicado sobretudo de manhã e ao final do dia entrar na Estrada Nacional nº. 125, para quem vem da Meia-Praia, da zona de Vale da Lama ou da barragem, para atravessar Odiáxere, onde o trânsito fica completamente afunilado, além dos riscos existentes. De resto, sempre foi uma situação crónica mesmo antes da Via do Infante. Por isso, muitas vezes é preciso carregar no botão vermelho dos semáforos numa zona para se conseguir passar, noutra, na EN 125. Felizmente, não têm ocorrido acidentes com maior gravidade em Odiáxere, ao contrário do que vem sucedendo ao longo da EN 125 noutras zonas do Algarve.