Questionado sobre a situação da ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve, com ordem para sair do emblemático edifício sede, Luís Encarnação revela que desta vez o município tem de ser informado sobre a venda e não descarta a possibilidade de adquirir a propriedade.
Depois de mais uma reunião com a direção «no sentido de encontrarmos soluções», realizada na terça-feira, dia 14 de janeiro, o presidente da Câmara Municipal de Lagoa diz que nunca teve conhecimento do negócio que conduziu à situação atual da ÚNICA, com ordem de saída por parte do atual proprietário, que rescindiu o contrato de arrendamento daquele espaço.
«Estivemos a debater várias possibilidades. A verdade é que em 2018, fruto das dificuldades financeiras que a adega tinha e do passivo que foi acumulando ao longo dos anos, teve de vender o património para liquidar as várias dívidas à banca e aos associados. Venderam o edifício e o contrato de arrendamento chegou agora ao fim», reconhece.
No entanto, «nunca foi feita qualquer proposta ao município de Lagoa para adquirir o edifício. Nunca fomos vistos nem achados nessa questão. À data da venda, também não existia aquilo que existe hoje, de a autarquia exercer o seu direito de preferência», garante o autarca.
Luís Encarnação diz mesmo que se a venda a um privado tivesse acontecido hoje, «estaríamos em condições de poder fazer valer esse direito. Na altura não. E não houve nenhuma proposta. O negócio foi feito entre privados» e segundo o autarca, só quando a propriedade mudou de mãos é que o executivo municipal foi informado.
«Não era presidente na altura, mas já confirmei isso com o meu antecessor, que me garantiu que não teve qualquer conhecimento. Também já verificámos os registros da Câmara e não há entrada de qualquer proposta nem de qualquer conversa no sentido que possibilitasse à autarquia adquirir a adega», sublinha.
Por outro lado, diz Luís Encarnação, «em 2021, quando atualizámos o nosso Plano Diretor Municipal (PDM), foi colocada uma cláusula que, de alguma forma, é um travão para aquilo que se pretende fazer na adega».
Ou seja, «não é permitido fazer, por exemplo, a habitação» porque isso viola o PDM em vigor.
«O que está previsto é comércio e serviços. E está definido um núcleo de produção de arqueologia industrial, precisamente para manter ali a produção vitivinícola. E também dar espaço a um projeto museológico, que é o Museu do Vinho do Lagoa. Isso será sempre uma exigência que faremos» ao atual ou futuro proprietário do emblemático edifício.
O autarca repete que «transformar tudo aquilo num complexo residencial é impossível, porque seria ilegal. Aquilo que o município vê com bons olhos que se possa fazer, será algo como boutique-hotel, um restaurante ou lojas, mas sempre relacionado com a temática do vinho, mantendo a produção vitivinícola e o museu».
Em suma, «o privado que vier a adquirir a adega cooperativa terá de cumprir estes requisitos».
Luís Encarnação não descarta, contudo, a possibilidade de o município comprar o imóvel.
«Dependerá dos valores em causa, quando houver uma venda, e desta vez é obrigatório dar conhecimento formal ao município, faremos uma análise. Se for um valor dentro daquilo que é a disponibilidade financeira do município, estamos abertos a avaliar uma eventual aquisição e exercer o direito de preferência», insiste.
Caso «os valores sejam além daquilo que é a disponibilidade do município e da nossa avaliação, teremos de deixar o mercado privado funcionar. Mas teremos sempre uma última palavra. Fica também aqui um alerta aos futuros interessados que contactem primeiro a Câmara e percebam muito bem o que podem, ou não, fazer», conclui.
Também a Comissão de Vinhos do Algarve (CVA) revela preocupação quanto ao destino incerto da ÚNICA.
«Infelizmente esta situação já subsistia um pouco ao declínio da adega, que muito tem feito para se manter ativa e sobreviver. Aliás, faz alguns produtos diferenciados, como o vinho licoroso, e tem provas dadas na qualidade dos seus rótulos. Seria de lamentar se a região ficasse sem esta adega cooperativa, que foi a terceira mais antiga do país e que ilustra todo o passado vitivinícola da região», lamenta Sara Silva, presidente da CVA.
«Todo esse património histórico está em risco de se perder. Não é apenas o edifício que todos conhecemos, mas, sobretudo, a continuidade do trabalho. Da nossa parte, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiar, embora sabendo que não será fácil, porque têm de ser encontradas soluções muito objetivas», acrescenta.
Hoje, a Adega Cooperativa do Algarve «não tem a expressão quantitativa de outrora, mas tem um legado importante e continua a dar suporte aos pequenos viticultores, que são um tecido empresarial muito importante para qualquer região», conclui.