Senhorio da Única, em Lagoa, não renovou o contrato de arrendamento. Adega Cooperativa do Algarve tem até ao final de julho próximo para sair. Se não encontrar um local alternativo, ainda que provisório, poderá fechar de vez a atividade.
Já se sabia que a ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve tem vivido os últimos anos sob o pendor da espada de Dâmocles, desde a que monumental propriedade à beira da Estrada Nacional 125 foi adquirida por um empresário alemão, algum tempo antes da pandemia.
Na altura, o negócio ajudou a resolver o passivo que existia, colocar as contas em dia e impulsionar a atividade vitivinícola. A Única ficou, contudo, inquilina do novo proprietário.
Em tempos mais recentes, o imóvel tem estado à venda e chegou, finalmente, há cerca de duas semanas, a carta registada, remetida pela Lieberwirth, Gestão e Investimento Imobiliário, SA, com a rescisão do contrato de arrendamento.
«Já sabíamos que talvez não houvesse interesse em renovar o contrato», que acabaria no final de fevereiro de 2025, diz Ana Clara Agapito, comercial e polivalente da ÚNICA , que tem assegurado o funcionamento da cooperativa, em conjunto com o enólogo residente João do Ó Marques.
«Até final de julho próximo, temos mesmo de sair daqui. A questão é que se não conseguirmos arranjar um espaço, ainda que temporário, vamos ter de fechar a atividade», afirma.
Neste momento, e apesar do número variar de ano para ano, a cooperativa ainda tem vários sócios que entregam uva suficiente para manter a produção dos rótulos próprios, que se têm vindo a afirmar pela qualidade.
Além disso, a ÚNICA presta serviços a pequenos produtores, que «têm uma confiança enorme no nosso trabalho. Os seus vinhos são tão ou mais medalhados que os nossos. Estamos a falar de rótulos que têm já uma qualidade reconhecida e que estão no mercado com uma base sólida», como é o caso do Barranco do Vale, Dona Niza e Al-Mudd.
O fim da Cooperativa do Algarve seria desastroso «porque até os maiores produtores da região com adegas próprias não têm capacidade para prestarem este tipo de serviço aos mais pequenos», compara.
Por outro lado, sair das atuais instalações será «uma operação logística enorme, muito trabalhosa e complexa. Temos vários vinhos que ainda não podem ser engarrafados porque são referentes à vindima deste ano e têm um tempo de estágio que», no limite do prazo dado pelo senhorio, ainda não estaria completo na totalidade.
«Teriam de sair a granel para que o nosso enólogo pudesse avaliar a sua evolução e o momento certo para o engarrafamento. Mas não queremos, de forma alguma, comprometer o vinho. Seria um absurdo pensar em sair do Algarve estamos a falar de vinhos de Denominação de Origem Protegida (DOP) e de Indicação de Origem Protegida (IGP). Teríamos de o desclassificar para vinho de mesa para podermos deslocalizar. Seria um desastre», explica.
Assim, «a prioridade será engarrafar o vinho de 2022», em data a determinar.
Agapito recusa-se a pensar na possibilidade de o Algarve vir a ser a única região vitivinícola em Portugal sem uma adega cooperativa «que represente os pequenos agricultores e a agricultura tradicional», sobretudo, «quando todos sabemos a importância fundamental de se diversificar a economia do Algarve».
Numa região turística que faz bandeira da Dieta Mediterrânica, «qual será o impacte económico, se o comércio e mercado das uvas no Algarve passar a ser regulado unicamente pelos privados? Criará monopólios com interesses centralizados!», responde.
Questionada se um novo hipotético espaço para acolher a ÚNICA poderia ser em qualquer outra parte do Algarve, Agapito considera que «preferencialmente, gostaríamos de ficar em Lagoa. Temos um protocolo com o município e sempre trabalhamos muito bem em conjunto. No entanto, se a autarquia não conseguir suprir esta questão que é muito urgente e se outro município tiver disponibilidade, nós mudamos. O mais importante é manter a atividade».
Interrogada sobre se o senhorio deu alguma justificação para a não renovação do contrato de arrendamento, Agapito responde que não. «No começo, ele também fazia cá o seu vinho (Quinta dos Capinhas). Creio que encara isto como um investimento. Não sabemos se irá fazer algo para si ou transformar o edifício numa outra coisa. Mas está no seu direito. Não deve ser visto como um vilão», sublinha.
Apesar de ser «um investimento», o facto é que o edifício tem sido votado ao abandono, e há muito que não é alvo de obras de manutenção. Há elevadores de carga que não funcionam, telhados caídos e o estuque das paredes desfaz-se aos bocados à vista de todos.
Em setembro de 2019, o barlavento entrevistou o autarca Luís Encarnação, e colocou uma pergunta acerca da compra da propriedade por parte do investido privado. «A nossa perspectiva é acompanhar com muita atenção aquilo que pode ali surgir. Estaremos sempre disponíveis, dentro daquilo que são os instrumentos de regulamentação do território, de poder ajudar a que a Adega não se torne numa ruína, nem num problema, mas sim em algo que seja bem identificativo e ilustrativo daquilo que é a ligação que Lagoa tem à produção vitivinícola», respondeu então o ainda presidente da Câmara Municipal de Lagoa, que por esta altura já terá conhecimento do prazo dado pelo proprietário do imóvel para despejar a operação.
Quem se mostrou disponível para ajudar é o Grupo Abegoaria, que tem vindo a apostar no trabalho e nos produtos da ÚNICA. «Se for o caso, na altura certa, podem colocar uma linha externa com mais pessoas para engarrafar o vinho» que está a estagiar.
O futuro, contudo, ainda poderá ser positivo, conclui a porta-voz, pois «temos a sorte e felicidade de contar com este parceiro estratégico para nos ajudar a manter as atividades, as contas em dia e possíveis investimentos em equipamentos. Temos clientes, temos bons vinhos e os nossos licorosos são bem conhecidos», conclui.
Um pouco de história
A Adega Cooperativa de Lagoa, nasceu em 1945, seguida pela Adega Cooperativa de Lagos, em 1954. Ambas foram motores de desenvolvimento e inovação numa época em que o vinho algarvio carecia de direção. Com apenas nove sócios no início, a Adega de Lagoa cresceu rapidamente, chegando a quase 400 associados na década de 1970 e uma produção de 4 milhões de litros anuais, posicionando-se como a maior produtora de vinhos do Algarve e uma das mais importantes do país.
As cooperativas solucionaram problemas estruturais, como a falta de capacidade de vinificação e armazenagem e redefiniram os caminhos comerciais, unindo a produção de centenas de pequenos viticultores. Nos anos de ouro da produção, o vinho algarvio atravessava fronteiras, abastecia as forças armadas na Guerra do Ultramar e garantia uma fonte de rendimento para muitas famílias da região. A década de 1980, contudo, trouxe uma crise profunda ao sector.
A expansão imobiliária e o turismo, aliados à falta de incentivos para modernizar a produção, reduziram de forma drástica as terras cultivadas e a competitividade do vinho algarvio. Nos anos 1990, o encerramento das Adegas Cooperativas de Portimão e Tavira simbolizou um período de declínio que parecia irreversível. Ainda assim, a resiliência do movimento cooperativo renasceu em 2008, quando as Adegas de Lagoa e Lagos se uniram para formar a ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Desde então, a adega tem vindo a produzir com uvas locais, como a Negra Mole e a Castelão e também licorosos. Mesmo com dificuldades nas instalações, 2024 foi um bom ano ao nível comercial e trouxe até distinções.