Na passada quinta-feira, 10 de março, o famoso slide que liga Sanlúcar de Guadiana a Alcoutim abriu para a terceira temporada desde que foi inaugurado em novembro de 2013.
Dito de forma simples, é um cabo de aço que liga dois países: Portugal e Espanha. Talvez no passado, os contrabandistas que atravessavam o Guadiana às escondidas tivessem sonhado com algo assim. Mas foi preciso um inglês, David Jarman, de Londres, ter investido 250 000 euros e três anos e meio de trabalho burocrático para o primeiro slide transfronteiriço do mundo nascer entre o Algarve e a Andaluzia.
O ponto de partida fica ao lado do castelo de Sanlúcar de Guadiana, a quase 100 metros acima do rio. A chegada fica a uns meros 15 metros de altura, em Alcoutim. Em média, o declive é na ordem dos 12,47 por cento. A velocidade aproximada que uma pessoa consegue atingir varia entre os 65 e os 80 km/h, dependendo do peso do indivíduo, da força e direção do vento, e da posição do corpo durante a descida. A média para percorrer os 720 metros de distância, até à chegada em Alcoutim, ronda os 40 segundos.
Em Espanha chamam-lhe «la tirolina», nome inspirado no Tirol austríaco, engenho simples usado para transportar mercadorias entre grandes desníveis usando a gravidade. Já fizeram parte dos treinos militares e hoje são usados como entretenimento.
Desde que começou a funcionar, tem recebido visitantes radicais de todas as partes do mundo. Em abril, está marcada a visita de uma equipa de televisão japonesa que irá de propósito a Sanlúcar filmar uma reportagem.
David Jarman chamou à empresa «Limitezero». Antes disto, esteve sempre envolvido em desportos de acção na natureza – paraquedismo, mergulho e BTT. Viveu alguns anos na América Central, na Costa Rica e na Argentina.
«Quando a economia argentina colapsou, resolvi regressar à Europa, mas não ao Reino Unido. Tinha adquirido o sangue latino e portanto, Espanha pareceu-me uma boa ideia. Vivi em Barcelona, e depois vim para o Sul. Em 2002 desenvolvi um negócio imobiliário que correu bastante bem até à chegada da crise. Mas em 2003 visitei Sanlúcar, e comprei uma casa de férias», revelou.
«Fiquei completamente apaixonado com a beleza deste local, duas vilas divididas por um rio, dois países, uma fronteira natural. Fiquei muito impressionado e em 2007 mudei-me para cá permanentemente. Comecei a pensar o que poderia fazer aqui? Sanlúcar não tem uma boa reputação em termos turísticos. É uma vila sonolenta comparativamente a Alcoutim, que recebe muito mais turismo internacional», disse.
«Olhando para as diferenças na geografia, vi que havia a possibilidade de montar um slide, algo com que estou familiarizado. Em 2009 fui a Navarra ver uma instalação feita pela mesma empresa que aqui colocou o cabo. Não é tão interessante, mas é parecida. Foi quando a ideia começou a crescer. Recebi um grande apoio da comunidade, em ambos os lados da fronteira», com o apoio dos dois autarcas, na altura ainda Francisco Amaral era o presidente da Câmara Municipal.
Na altura, «comecei a ver os terrenos mais propícios. Este projeto envolveu muita pesquisa, muita caminhada. Há muitos fatores a ter em conta. É preciso ter bons acessos e estar próximo das vilas. Se colocássemos o cabo no meio do nada, não funcionaria. Queria que seja um estímulo económico para as duas vilas», consideru Jarman. O cabo foi instalado por uma empresa francesa que tem vários destes sistemas espalhados pela Europa, por exemplo, em Ribeira de Pena, no norte de Portugal.
«É uma questão muito interessante. Esta é uma zona que tem recebido muitos fundos europeus para o desenvolvimento transfronteiriço. A qualquer sítio que você vá, verá placas com a bandeira da UE e o nome dos programas comunitários. Muitos dos projetos criaram emprego, mas a verdade é que não criaram mais atividade para além disso. Visitei muitas instituições a perguntar se haveria algum financiamento, mas entretanto Portugal e Espanha entraram na crise económica e portanto, nem um cêntimo disponível», para financiar a iniciativa privada.
«Bem, é preciso dizer que unir dois países por um cabo foi algo de muito original», brinca. »Espanha precisou de mais licenças de diferentes administrações. Portugal foi menos exigente com papéis, mas muitíssimo mais lento no processo», comparo.
Podem fazer a travessia todos os interessados a partir dos 25 quilos e 14 anos de idade, até um máximo de 110 quilos sem limite etário. Num dia atarefado, poderão fazer a travessia até 24 a 30 pessoas por hora. Para mais informações consulte o website http://www.limitezero.com/pt/
Alcoutim e Sanlúcar: Juntos na vida e na fé
Júlio Cardoso, técnico de turismo na autarquia de Alcoutim, vive há mais de15 anos em Sanlúcar de Guadiana, população estimada de 378 habitantes. Tem acompanhado a ideia do vizinho Jarman com curiosidade desde o início. «Chegou a pensar-se que seria mais um projecto de investimento especulativo como aqueles que foram anunciados e nunca aconteceram: a ponte, o teleférico, o ferry para automóveis…»
Em sua opinião, como é que as duas terras convivem? «Historicamente há uma grande convivência. Posso dizer que 85 a 90 por cento das famílias de Sanlúcar são de origem portuguesa. Portanto, há coisas muito curiosas, como andar pelas ruas e ouvir um português antigo, palavras já esquecidas do nosso vocabulário. Há muito parentesco entre as duas terras. As ditaduras afastaram um pouco isso, mas esses laços têm sido recuperados». Por exemplo, as festas de ambas as vilas dedicam um dia ao vizinho do outro lado do Guadiana.
«Os espanhóis são fascinados pelo nosso frango assado, inclusive atravessam o rio só para o ir buscar. É comum as senhoras portuguesas atravessarem o Guadiana para irem arranjar o cabelo a Sanlúcar. Vão também muitos portugueses a um curandeiro que vive a oito quilómetros da povoação. Chama-se António de El Granado e há gente que vem de todo o Portugal para o visitar. Só para se ter uma ideia, quando venho trabalhar às 8h00 da manhã, muitas vezes já estão pessoas à espera para atravessar o rio!»
«Em Alcoutim, quem é daqui da zona, muita gente diz que depois da morte do doutor João Dias, o famoso médico que exerceu medicina no concelho, o seu dom passou para o curandeiro António de El Granado. As pessoas acreditam…»