E os gritos estridentes dos pavões ecoavam na alma das crianças como inocentes emoções na quente tarde de junho.
Faro. Jardim da Alameda. Uma jovem mãe ensina à filha como se aproximar de um pavão sem o afugentar. Depois observam os pintainhos, seguindo uma fêmea. Iniciação das crias ao debicar do chão em busca de alimentação. Fico definitivamente esclarecido de que os machos é que têm as bonitas caudas de vistosas penas coloridas.
A mãe da criança, de vestido preto, simples, é uma agradável e discreta presença no jardim. O ar corre fresco e livre, não condicionado, ignorando o calor, como só é possível à sombra das grandes árvores.
Uma outra criança, mais criança ainda, observa também as crias dos pavões, na companhia dos avôs. Pequenos passos, hesitantes. Segura em mão velha. O pai, sentado num banco, junto a um carrinho de bebé vazio, tem voz de quem não é algarvio e fala alto ao telemóvel sobre o preço das casas; o tom, entre o inconformado e o resignado, compara preços, fala de uma situação de vida em Lisboa, onde terá vivido…
Uma mulher, de vestido verde de alças, desloca-se de um lado para o outro, inquieta, de voz viva e afirmativa, barafusta ao telemóvel, falando de questões de trabalho. Do que foi feito, de como deveria ter sido feito, de quem não fez bem. Reconheço-a. Mas donde?… O rosto. Tento situá-lo no mapa da memória. Já sei. É professora. Fomos colegas.
Um outro homem, novo, mas com barriga, calças de ganga e polo azul bebé a condizer com umas sapatilhas da mesma cor, não para de andar de um lado para o outro, também ao telemóvel. Protesta, indignado, dizendo – Então, tenho de pagar 100 mil euros?!?!… Creio que fala com as Finanças, um Banco… E penso: Como é possível alguém ter 100 mil euros?… tenha de os pagar ou não.
– Mamã, mamã, o pavão grita!!! – grita a criança e corre, corre…
E os gritos estridentes dos pavões
Ecoavam na alma das crianças
Inocente e gritada
tarde de junho
Na estranheza adulta
gritada ao telemóvel
A vida supostamente