A opinião foi unânime entre quem assistiu à estreia da nova Revista à Portuguesa do Boa Esperança Atlético Clube Portimonense, no passado sábado, 13 de fevereiro. O público considerou «Eles querem €… fado e baile» como sendo um dos melhores trabalhos dos últimos anos apresentados por este coletivo. A opinião é justificada pelo formato diferente que imprime ritmo, variedade e um balanço muito bem conseguido entre as tradicionais cenas hilariantes e os momentos mais sérios do espetáculo.
O encenador Carlos Pacheco, sempre em busca de novos talentos para lançar em palco, destacou este ano os temas «Ator» e «Fado» – uma aposta duplamente protagonizada por João Leote.
«O João há três anos que tenta entrar no espetáculo e tinha-lhe prometido que iria mostrá-lo ao grande público. Uma das minhas grandes preocupações era que ele conseguisse fazer o que hoje fez», explicou ao «barlavento», emocionado pelo desempenho do jovem portimonense de 17 anos.
«Temos dois grandiosos momentos sérios que nos dão a garantia de um grande espetáculo. Temos também a parte cómica e a parte musical. Aproveitei o João para cantar quase tudo, sempre com registos diferentes». Dono de uma voz que já faz dele um fadista de nível nacional, a sua performance enquanto ator conquistou o público que não poupou aplausos na noite de estreia.
Já o resto do elenco, Carlos Pacheco, Telma Brazona, Flávio Vicente, Sandra Rodrigues e Miguel Ângelo trouxeram à cena a sua graça habitual, nos apontamentos de fazer rir à gargalhada com a sua abordagem humorística aos principais temas da atualidade nacional.
«É evidente que gostamos da crítica porque é uma condicionante da Revista à Portuguesa. Mas tratamos essa crítica com muita ligeireza para que as pessoas possam vir aqui descontrair. Não as queremos maçar com as politiquices e as desgraças do país. Queremos dar-lhes uma noite bem passada, na qual possam rir a bom rir e, no final saírem daqui bem-dispostas, sem pensarem nos problemas do dia-a-dia», acrescentou o encenador.
No corpo de baile, este ano também houve mudanças, com a Catarina a acumular as funções de coreógrafa e a entrada da Eliana, vinda do ballet e da ginástica rítmica, ambas cumprindo muito bem as suas tarefas. Rafaela Jesus e a veteraníssima Manuela Pacheco estiveram iguais a si próprias.
Carlos Pacheco admite que marcou, de propósito, a estreia de «Eles querem €… fado e baile» para depois do carnaval. Por um lado, para evitar a interrupção nas apresentações que o entrudo obrigou nos anos anteriores. Por outro, para cortar de vez com a ideia de que este espetáculo é uma revista de carnaval.
Um preconceito que, no ponto de vista do encenador, já não faz sentido devido ao formato e ao conteúdo que este coletivo tem vindo a imprimir ao espetáculo. A Revista à Portuguesa – um teatro satírico baseado na caricatura e na música popular – é o culminar de vários meses de ensaios, de construção de cenários que são sempre diferentes, de escrita de textos e letras de canções originais.
De salientar a enorme prestação e esforço do ator Flávio Vicente, que é o responsável pela conceção e fabrico de todos os cenários.
Refira-se que a sala do Boa Esperança tem 250 lugares e esgota com facilidade. O pano sobe às sextas, sábados, e domingos às 21h30 (neste dia, há matiné às 16h00). Convém reservar pelos telefones 282 422 976 ou 967 188 290.
A tradição renovada
«Cada vez mais, afirmarmo–nos como grupo de teatro e dá-nos um prazer e um gosto imenso militarmos aqui nesta casa que tem uma mística muito própria», explicou Carlos Pacheco, encenador e um dos principais mentores do Boa Esperança Atlético Clube Portimonense. «O teatro tem sido, digamos, o motor fundamental. Ou seja, sustenta todas as atividades que esta instituição promove, desde as danças de salão, a escola de Fado, a escola de música e muitas outras. Já fomos um local privilegiado para a exibição cinematográfica nas décadas de 1970/80. Já fomos muito ligados ao desporto, nomeadamente o futebol, nos anos 1930/40, conquistando o título de campeões do Algarve. Atualmente estamos mais virados as atividades culturais e recreativas», acrescentou. Em relação aos espetáculos, «tudo começou há cerca de 50 anos, com umas rábulas para alegrar os associados da coletividade. Já cá estou há cerca de 30 anos, trabalhei com os mais velhos e aprendi com eles. Depois, tornou-se uma brincadeira muito séria e já não comportava ser só aquela semanita no carnaval. Fomos cada vez mais exigentes e transformámos essa base, com todos os seus melhores ingredientes, numa Revista à Portuguesa. Antes, os algarvios iam a Lisboa de propósito para verem estes espetáculos. Agora recebemos excursões de todo o sul do Tejo», ao que se acrescenta uma habitual itinerância pela região algarvia.