As associações de protecção animal do Algarve estiveram reunidas em plenário há alguns dias e decidiram, na sequência dessa reunião, assumir uma posição conjunta contra a anunciada intenção da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve de instalar dois canis intermunicipais na região. Em causa está, asseguram, a inadequação daquela resposta ao problema do abandono de animais, que nunca será resolvido através do mero «armazenamento» de cães e gatos encontrados nas ruas.
«O modelo proposto não serve a região». É desta forma, directa e lapidar, que a generalidade das associações e dos grupos de protecção animal a trabalhar no Algarve respondem à intenção dos municípios de avançarem a breve trecho com a construção de dois centros de recolha oficial intermunicipais.
«Sabe-se que o primeiro destes centros, destinado a servir os concelhos do Sotavento, deverá ser construído em Alcoutim, não estando ainda oficialmente definida a localização do segundo, que deverá servir o Barlavento. No entanto, mesmo sem ter ainda essa informação, as associações dão já conta do seu veemente repúdio ao projecto, considerando que não está a ser devidamente acautelado aquele que deve ser o princípio basilar deste tipo de decisões: a garantia do bem-estar animal», defendem os ativistas algarvios em nota de imprensa datata de 5 de janeiro.
Numa exposição enviada ao presidente da AMAL, Jorge Botelho, e às 16 câmaras e às assembleias municipais do distrito, PRAVI Faro, PRAVI Albufeira, grupo CIAA (Faro), Animais de Rua (Faro), MAF – Faro, Coração 100 Dono (S. Brás de Alportel), 2NdHand4Footers (S. Brás de Alportel), SOS Algarve Animals (Loulé), Goldra Dog Sanctuary (Loulé), 3AT (Tavira), ADOTA (Tavira), GUADI (Vila Real de Santo António), Refúgio dos Burros (Lagoa), grupo Tiny Shelter (Albufeira), CCCatz (Lagoa), ADAP (Portimão), Cadela Carlota (Lagos), AEZA (Alzejur) e APAR (Olhão) unem esforços e dão conta dos argumentos que sustentam a sua oposição ao modelo proposto pela Comunidade Intermunicipal.
Considerando que «a distância colocará problemas logísticos diversos e implicará custos acrescidos que não podem ser ignorados», dificultando ao mesmo tempo, e de forma assinalável, o desejado envolvimento da comunidade, e em especial dos voluntários desta causa, «disponíveis para ajudar, nomeadamente na socialização e na componente do exercício físico dos animais”, o que culminará necessariamente na redução substancial das hipóteses de adopção destes animais, as associações recusam que a construção de dois canis seja a solução para o problema do abandono animal. Ao mesmo tempo, alegam que a lotação prevista de um dos centros de recolha – cerca de 300 boxes individuais – será rapidamente excedida, renovando-se o problema de acolhimento dos animais que venham a ser resgatados depois disso.
Assumindo como uma mais-valia negocial o percurso de «longos anos de experiência no terreno da maior parte destas organizações, bem como o seu conhecimento da realidade local, dos seus maiores problemas e constrangimentos», defendem a aposta em novas abordagens, mais consentâneas com as necessidades destes animais e com a urgência em encontrar respostas eficazes para o flagelo que assola a região algarvia, as associações exigem ser ouvidas: querem ser incluídas no esforço de reflexão e no processo de tomada de decisões sobre este tema. Acreditam que é preferível a construção de centros de recolha oficiais de menores dimensões, disseminados pelo território, de carácter municipal ou envolvendo dois a três municípios, argumentando que «a construção de centros de recolha de forma isolada não resolve o problema, sendo absolutamente necessária uma atuação integrada que incorpore diferentes medidas».
Preconizam ainda que as autarquias, «diretamente ou em colaboração com organizações zoófilas, devem promover campanhas de esterilização massiva de animais de rua e a preços especiais para famílias carenciadas, bem como campanhas de adoção, educação e sensibilização dos cidadãos, garantindo também todas as condições materiais para que os médicos veterinários municipais possam cumprir cabalmente as suas funções. Ao mesmo tempo, demandam que as autoridades competentes diligenciem no sentido de garantir uma melhor e mais abrangente fiscalização, para “fazer cumprir os normativos legais de forma efetiva, nomeadamente a colocação de microchip e o registo dos animais, orientando parte das receitas resultantes das coimas e das taxas de registo para a concretização de medidas de proteção e bem-estar animal e, consequentemente, para garantir a defesa da saúde pública».
Salientando sempre a necessidade de envolver a comunidade neste esforço, as associações pedem a atenção da Comunidade Intermunicipal para as reivindicações agora expostas, e «convidam a uma nova reflexão por parte daquela entidade sobre a intenção de construir duas mega-estruturas para acolhimento de animais que, em seu entender, pouco ou nada resolverão. Partindo da firme convicção de que é do interesse de todos os cidadãos algarvios resolver da melhor maneira este problema, acautelando os interesses dos animais e das populações, as associações lançam assim um apelo ao diálogo com os poderes públicos, fazendo votos de que dessa reflexão conjunta possa nascer a melhor solução para todos».