O Algarve envia 80% dos resíduos para aterro e precisa começar a procurar uma solução urgente para a fração resto antes de atingir o limite de capacidade disponível.
Os aterros do Algarve têm menos de um ano e meio de capacidade disponível ao ritmo atual de deposição de resíduos, alertou o presidente da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve, António Miguel Pina, defendendo a necessidade urgente de encontrar uma solução para a chamada «fração resto», os resíduos que não podem ser reciclados nem valorizados.
O tema esteve em discussão durante uma reunião entre a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e os representantes dos municípios algarvios, realizada na tarde de segunda-feira, dia 25 de maio, em Faro.
«Neste momento estamos preocupados com os resíduos ao nível do país e muito preocupados ao nível do Algarve, que tem indicadores ainda mais desfavoráveis do que a média nacional em termos de aterro», afirmou a ministra aos jornalistas.
Segundo Maria da Graça Carvalho, 54% dos resíduos produzidos em Portugal continuam a ter como destino final os aterros sanitários. No Algarve, esse valor atinge cerca de 80%.
«Estamos muito aquém das metas europeias e daquilo que é desejável do ponto de vista ambiental. É preciso encontrar aqui soluções sólidas», sublinhou.

APA vai estudar localização e tecnologia
A governante explicou que, mesmo com melhorias significativas na reciclagem e na separação de resíduos, continuará a existir uma parcela sem alternativa imediata ao aterro. Nesse sentido, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) irá desenvolver um estudo para identificar a tecnologia mais adequada e a melhor localização para tratar os resíduos sem valorização possível, de forma a reduzir a pressão sobre os aterros geridos pela Algar.
«Portanto, para já temos de diminuir o que vai para aterro. Mesmo assim haverá sempre uma parte que não tem outra solução», afirmou.
Maria da Graça Carvalho revelou ainda que os municípios passarão a acompanhar mais diretamente as decisões relacionadas com a gestão regional dos resíduos.
«Estamos a trabalhar, neste caso da concessão da Algar, com a Empresa Geral do Fomento (EGF). Ficou combinado que haveria um representante dos municípios a acompanhar todo este processo», disse, referindo-se a António Miguel Pina.
Novas células terão apenas sete anos de vida útil
O presidente da Câmara Municipal de Faro e da AMAL considerou que a gestão dos resíduos constitui um dos maiores desafios ambientais da região.
«Tenho tentado dar esse alerta a todos os intervenientes e às pessoas que aqui vivem», afirmou, alertando para a proximidade do limite de capacidade dos aterros sanitários do Barlavento, em Portimão, e do Sotavento, na Cortelha.
Embora estejam previstas ampliações nas duas infraestruturas, o autarca admite que a solução terá um alcance limitado.
«Está prevista a construção de mais uma célula em cada um dos aterros. Mas, com isso, teremos um horizonte temporal de no máximo sete anos», estimou.
A situação já tinha sido assinalada anteriormente. Em fevereiro de 2025, o barlavento publicou uma reportagem a dar conta que o Aterro Sanitário do Sotavento se aproximava da capacidade máxima disponível.
António Miguel Pina confirmou também os dados apresentados pela ministra, sublinhando que o Algarve apresenta atualmente os piores indicadores nacionais na gestão da fração resto.
«A nossa região é a pior do país em termos de reutilização. A chamada fração resto aqui é superior a 80%, enquanto no resto do país está ligeiramente acima dos 50%», afirmou.

Valorização energética entre as hipóteses
Para o responsável da AMAL, será necessário alterar hábitos de consumo, aumentar a reciclagem e encontrar uma solução estrutural para os resíduos sem reaproveitamento possível.
«Temos todos um trabalho muito grande a fazer na reciclagem e nos hábitos que todos temos em relação ao lixo. Mas também temos um desafio: o que vamos fazer à fração resto?», questionou.
Confrontado com a possibilidade de recorrer à valorização energética dos resíduos, António Miguel Pina referiu várias alternativas atualmente em análise.
«As soluções previstas são: ou exportamos os resíduos da fração resto, ou enterramos, ou valorizamos energeticamente», afirmou.
O autarca recordou que mesmo os sistemas mais avançados de reciclagem continuam a gerar resíduos sem destino alternativo.
«Mesmo que reutilizemos ou reciclemos muito, há sempre uma parte do lixo que tem de ser colocada algures», salientou.
«Ou vai para um aterro, e então é preciso construir mais aterros, ou vai para incineração com valorização energética. Ou então exportamos», concluiu.
