A construção de uma nova Marina em Vilamoura para receber até 68 iates de grande porte, entre 20 e 40 metros, começa hoje com as primeiras dragagens.
A construção de uma nova Marina em Vilamoura para receber até 68 iates de grande porte, entre 20 e 40 metros, foi iniciada hoje, prevendo-se que esteja concluída até ao final de setembro. O investimento total ronda os 23 milhões de euros, sem o apoio de fundos europeus.
«Esta nova marina em Vilamoura é altamente diferenciadora para o destino e vem responder a necessidades evidentes do mercado em relação a embarcações de grande porte, que atualmente passam ao largo da costa», disse aos jornalistas Isolete Correia, administradora de Vilamoura World e principal responsável pelo projeto.
O projeto, que começou a ser desenhado em 2006, «vai aproveitar uma bacia de estacionamento já existente na zona do anteporto, que já alojou as embarcações de pesca até à construção do Porto de pesca de Quarteira. A grande vantagem é não ter que se criar uma infraestrutura de raiz com todos os impactos negativos associados. É uma estrutura já existente que apenas necessita de ser melhorada para poder receber aqui este tipo de embarcações», revelou hoje Katrin Schifferegger, engenheira do ambiente que apresentou os detalhes técnicos do projeto.
Os grandes iates terão os seus novos postos de amarração na zona do anteporto de acesso, a partir do mar, à já existente Marina de Vilamoura, que tem mais de 800 lugares para embarcações de menor dimensão. As embarcações mais pequenas ficarão a norte, e as maiores, a sul. Para já, arrancam as dragagens para retirar entre 150 e 195 mil metros cúbicos (m³) de sedimentos.

«É um sedimento limpo, fino, lodoso, com algum cheiro associado e de cor negra, que não é próprio para a alimentação de praias, nem sequer para ser colocado à deriva no litoral, que é aquilo que está previsto nas ferramentas de gestão. Portanto, vamos ter que imergir esses dragados em quatro pontos, a seis milhas de Vilamoura, à cota do -40. São pontos que a Marina de Vilamoura tem utilizado também nas últimas dragagens de manutenção previstas no plano de afetação» da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) do Ministério do Mar, revelou Schifferegger durante a apresentação às várias entidades, investidores e convidados.
A imersão dos dragados exige um Título de Utilização Privativa do Espaço Marítimo (TUPEM) que foi concedido por aquela entidade, por ser uma operação considerada sem riscos para o ambiente. Depois das dragagens, será feito o prolongamento do molhe poente em 84 metros, em formato oblíquo.
Um assunto muito «escrutinado» para «ter a certeza que não existe aqui nenhum impacte indesejável. É considerado pelos entendidos na matéria que os molhes da Marina de Vilamoura, de alguma forma, interrompam ou que condicionam o transporte de sedimentos na costa algarvia, no sentido oeste para este. E, portanto, o prolongamento deste molhe teve de ser rigorosamente estudado para garantir que esse fenómeno não é agravado», garantiu a engenheira.
Os estudos foram feitos com a colaboração da Universidade do Algarve (UAlg) e da Universidade de Aveiro (UA). Para delimitar a bacia de estacionamento, terá que ser prolongado o dique da Ribeira de Quarteira em 86 metros e construído um quebra-mar.
Também este assunto «foi alvo de rigorosos estudos para ter a certeza que esse prolongamento não provoca nenhum tipo de estrangulamento ao escoamento da Ribeira de Quarteira, e que não existe agravamento do risco de cheias».
«Estes foram os dois assuntos mais críticos do projeto e que foram estudados rigorosamente para que todos nos sentíssemos confortáveis com as soluções que agora vão ser implementadas», acrescentou.
Ainda no âmbito das obras marítimas, terá de ser feito o reperfilamento do talude norte. As pedras vão ser recolocadas para aumentar o declive e ganhar espaço para a bacia de estacionamento. Só então serão colocados os três novos pontões flutuantes e todos os equipamentos de apoio.
Cada um dos novos postos de amarração irá dispor de múltiplas soluções para «promover o conforto e a sustentabilidade».
«Os pontões vão ser equipados com módulos de fornecimento de água de eletricidade. Neste caso será um modelo novo que ainda não existe em Portugal e que permite a monitorização do consumo de água e de eletricidade em tempo real. Pode ser controlado, quer pela recepção quer pelos clientes, com o objetivo de criar aqui comportamentos de poupança», foi anunciado.

«Queremos criar aqui algo topo de gama, sobretudo em termos de sustentabilidade. Estamos neste momento a atravessar uma seca que há 15 anos não acontecia e, portanto, as soluções também têm de evoluir. Vamos implementar um sistema de gestão ambiental, cujo princípio base é a melhoria contínua do desempenho. Estamos a trabalhar na implementação de sistemas de dessalinização para a produção de água» para limpezas «e também de um parque fotovoltaico no sentido da autossuficiência. Estas embarcações têm um consumo de energia bastante grande e queremos suprimir essas necessidades através de produção própria», afirmou Katrin Schifferegger.
Para já, os novos postos vão ter um sistema individual de pump-out para bombear os esgotos produzidos a bordo para a rede de tratamento de águas residuais. Hoje apenas existe um destes pontos na Marina de Vilamoura.
«O barco chega, liga-se ao ponto e a partir daí fica ligado à rede, exatamente como nas nossas casas. É muito funcional, prático e limpo», exemplificou.
Outros aspetos que aumentam a complexidade e o custo do projeto são os mais recentes módulos de segurança, a ligar à central de modo a aumentar a capacidade de reação em caso de emergência, assim com a capacidade para recarregar as baterias de embarcações com sistemas de propulsão elétrica.
«Queremos que esta seja uma Marina topo de gama, que concorre com outras marinas a nível mundial, do Mónaco ao Dubai. Queremos jogar na liga dos melhores, não só em termos da qualidade do serviço prestado, mas também em termos de sustentabilidade. Vamos ter em todos os cais pontos de carregamento para embarcações elétricas. É algo que neste momento ainda não existe muita procura, mas estamos a projetar uma Marina para 50 anos. Estamos a antever o futuro».

Longo processo de licenciamento
Esta é uma área de concessão nova, para a Pódio Navegante, SA, concedida em 11 de agosto de 2023.
«Dada a complexidade do projeto, foi feito um Estudo de Impacte Ambiental, assim como todos os estudos complementares necessários sobre a deriva litoral, da fauna, ecossistemas, arqueologia. Portanto, todos os descritores foram rigorosamente harmonizados e este processo culminou no dia 28 de setembro, na emissão da Declaração de Impacte Ambiental favorável e do título único ambiental», explicou Katrin Schifferegger.
Uma vez reunidos todos estes documentos, a Docapesca, entidade com jurisdição sobre toda a envolvente, emitiu a licença de autorização de construção.
O empreiteiro selecionado é a Etermar – Engenharia SA, cujo core business são as obras marítimas. A fiscalização vai ser garantida pela Future Proman, outra empresa com experiência neste tipo de intervenções especializadas.
O ponto crítico da obra serão os acessos. «Para o prolongamento do molhe, vamos ter de aceder através do lado de Albufeira. Todo o restante material para o prolongamento do quebra-mar terá de vir através de Vilamoura. Será a fase mais incômoda em que haverá um maior impacto sobre a população».
Em termos de cronograma, as dragagens terão de estar finalizadas até ao dia 31 de março.
A partir de fevereiro começam os trabalhos no prolongamento do molhe, do talude norte e também o prolongamento do quebra-mar.
«Vamos fazer todos os esforços possíveis para ter esse trabalho todo finalizado até ao final de junho, para evitar a época balnear. Vai ser um esforço muito grande porque de facto são trabalhos extremamente complexos e pesados», concluiu a engenheira do ambiente.
Aproveitando a presença do empreiteiro, será recuperado um cais de betão utilizado pontualmente pela Marinha onde será feita a plataforma para uma nova área comercial.
Vítor Aleixo elogia o projeto
Para Vítor Aleixo, presidente da Câmara Municipal de Loulé, o momento de hoje «ficará na história deste extraordinário empreendimento turístico de Portugal que é Vilamoura».Citando André Jordan, o autarca sublinhou que «o turismo em Portugal, ou tem uma marca de grande qualidade e excelência associada, ou não terá qualquer futuro».
«Julgo que o projeto está a ser fiel e a interpretar bem uma das mentes mais lúcidas do turismo português». Projetada para um tempo de vida mínimo de 50 anos, a Marinha prevê vários aspetos ambientais do presente.
«Nem de outra maneira poderia ser. Ninguém hoje já faz investimentos com este volume de valor associado sem ter uma componente de sustentabilidade. Nunca é demais repetir, porque continuamos a ver à nossa volta todos os dias investimentos sem pressupostos de sustentabilidade associados, que são verdadeiras loucuras, nunca é demais referir que não é o caso aqui».
Aleixo frisou que Vilamoura «tem feito um esforço assinalável de associar não só este mas muitos outros investimentos que estão em curso e que se projetam para o futuro, sempre com uma marca de sustentabilidade: cuidados que temos que ter com o uso eficiente da água, fontes de energia que têm que ser de natureza absolutamente diferente para combater a pegada de carbono e com muita plantação de árvores que vão ser absolutamente essenciais para que o espaço público possa ser habitável e convivial».

«Todas essas componentes estão, digamos, dentro deste projeto. Vilamoura tem tido sempre presente estes valores absolutamente incontornáveis. O calendário de obras é muito ambicioso. Vamos ter uma grande Marina, vamos ter uma Vilamoura impulsionada ainda mais para cima, porque o turismo do Algarve precisa muito mais do que crescer metricamente ou quantitativamente. Vilamoura e o Algarve precisam de muita qualidade e de excelência», concluiu.
Por sua vez, a secretária de Estado das Pescas, Teresa Coelho, elogiou a capacidade de atrair «um outro tipo de turismo» que o país está a precisar e considerou «prestigiante para Portugal ter uma Marina assim», se tudo correr bem, a funcionar já no início de outubro.
Estiveram também presentes Pedro Reimão, CEO da Vilamoura World, Francisco Sottomayor, CEO da Norfin, João Bugalho, CEO da Arrow Global Portugal e John Calvão, Managing Principal e co-Head da Arrow Global, empresa gestora de fundos de investimento que atualmente detém Vilamoura World, e que em outubro do ano passado anunciou a intenção de investir mais de 500 milhões de euros no resort algarvio.
A atual Marina de Vilamoura foi construída há 50 anos, no concelho de Loulé, e é um dos ex-libris do Algarve e da náutica de recreio em Portugal.
