Ao cumprir os anos de vida artística que justificam a retrospetiva «Trajectos», Fernando Silva Grade patenteia-nos no Museu Municipal de Faro e na Galeria Arco, uma apresentação, que, não sendo ainda uma Integral, é suficientemente representativa do essencial da sua carreira.
Partindo do universo da Biologia, Silva Grade logrou inserir-se, com completa eficácia, no universo das Artes, desde os primeiros momentos de criação artística, nesse já longínquo ano de 1986.
Embora a sua produção facilmente se furte a classificações ligeiras, pode-se referir o naturo-realismo como o lugar geométrico de eleição do seu itinerário estético, permitindo-me repetir o que escrevi em 2005, quando citei o brilhante comentário de Ortega y Gasset a propósito de Velázquez, de quem afirmou que pintaba el aire. Silva Grade conduziu a técnica a um ponto, que permite transpor e acrescentar o elemento que lá não está.
Recordo o conselho que o famoso promotor das Artes, a quem o país tanto deve, Pereira Coutinho, dono e director da Galeria São Mamede, dava aos jovens pintores, sugerindo-lhes mais «caverna», salientando o labor oficinal que não deve estar ausente do desenvolvimento de um talento que aspira a ser superior.
Pois bem, Silva Grade, desde os seus primeiros passos na Pintura, reivindicou para si a condição de operário das Artes, consagrando-se a um labor constante, regular, recusando liminarmente qualquer incursão nos domínios do facilitismo.
Foi assim, que, de uma expressão, que na passagem dos anos 1980 para 90, seguia uma linha próxima da de João Hogan, com ecos cromáticos de Gauguin, transitou para uma síntese, que foi desbravando os caminhos de uma dolorosa via, das suas duas vivências intelectuais, a científica e a artística, convocando, em simultâneo, a Biologia e a Pintura para um improvável encontro, que se revelou na magnífica série «Substratos», ponto alto de um trajeto singular.
A série «Substratos» enganava o espectador pela lítica textura da mancha, inspirada em estruturas micro-geológicas, sustentadoras do «substrato» biológico, num inspirado regresso às origens científicas, que anunciavam o Futuro, hoje presenciado nos notáveis trabalhos patentes nas séries «Pedreiras» e «Paisagens», representativos da lapidar expressão que o autêntico universo lítico proporciona.
O trajeto global de Silva Grade, coerente e alicerçado num sólido entendimento do dever cívico de intervir em prol da cidadania, tem merecido um público reconhecimento, também ele caucionante da minha admiração, do meu respeito, que justificam a adopção do dito, atribuído a Correggio, que faço meu: Anch’io sono pittore!
Arnaldo de Macedo-Santos