
«Pela primeira vez encontro um livro que nos fala do modo complexo mas simples, de todas estas atividades, pela voz das pessoas que as praticam, desde Sagres à Fuzeta. É uma peça de arte. Basta folheá-lo para se perceber a qualidade enquanto peça gráfica e artística e pelo conteúdo literário», elogiou.
Na opinião de Fernando Cabrita este é «um manual de complexa simplicidade. Conforme avançava na leitura, fui imaginando estes algarvios que representam a terra e o mar ao mesmo tempo, são quase velhos Ulisses, como os que carpinteiravam a sua casa, o barco, os arados e as cercas, e que depois se punham ao mar. E tudo isto escrito na primeira pessoa. A linguagem não é apenas a que transcreve, mas a que é vivida. É a memória daqueles que viveram o momento», reforçou.
Este trabalho tem a sua génese no premiado (e esgotado) «Algarve Mediterrânico: tradição, produtos e cozinhas», editado pela Tinta-da-china, também coordenado por Maria Manuel Valagão em coautoria com o fotógrafo algarvio Vasco Célio e o chef Bertílio Gomes.
Foi durante o processo de elaboração dessa obra que se tornou urgente a necessidade de aprofundar os contextos da vida no mar, sobretudo através das vozes na primeira pessoa, bem como as características dos peixes e dos seus habitats.
«A decisão de não adiar mais este trabalho foi potenciada por alguns acontecimentos, como o desaparecimento de Dâmaso do Nascimento com quem tínhamos agendado uma conversa sobre a conservação tradicional dos produtos derivados do atum. Ora, Dâmaso seria talvez o último guardião vivo destas práticas o que reforçou a consciência de que é urgente recolher as memórias e fixá-las», recordou Maria Valagão. «Comecei por perceber se esta área agradava ao Vasco Célio, que abraçou a ideia com muito entusiasmo pois já tinha iniciado em tempos uma recolha sobre tempestades e mar revolto. A partir daí convidei a professora Nídia Braz, da Universidade do Algarve e foi assim que constituí o trio de autores que forma este livro», contou ao «barlavento».
Já Vasco Célio, explicou que importância deste livro prende-se com a «preservação da memória e cultura desta região. Sinto que este é mais um dos meus contributos. Espero que mesmo daqui a 100 anos, graças a esta obra, alguém se lembre do que era ser pescador no Algarve».
O texto compila «dezenas de testemunhos de várias gerações. Faltava salvaguardar esta memória e identidade que se vai perder, sobre a realidade atual do que é a paisagem marítima do Algarve. A nossa dependência do mar e dos seus recursos, e a forma como ele nos influencia», sublinhou Vasco Célio.
Uma componente original são «as receitas da gastronomia regional, elaboradas de acordo com a memória das pessoas que entrevistámos». Nídia Braz fez uma intervenção curta mas muito emotiva, destacando a «gratidão e alegria por ter conseguido lançar o livro» e agradecendo a «todas as pessoas que nos deixaram gravar a sua voz em conversas demoradas e trabalhosas para conseguirmos testemunhos reais, vividos na primeira pessoa». E concluiu, referindo a influência que o seu pai teve na elaboração deste livro.
«Durante toda a sua vida o meu pai editou e publicou na imprensa, regional e nacional, mas não teve tempo para publicar todos os livros que tinha na cabeça. Então, é uma grande alegria para mim, estar aqui hoje, e poder dizer que publiquei por mim e por ele. Nesta estima que tenho pelo mar e pela terra, existe muito dele».
Uma das histórias que mais marcou Vasco Célio foi a do mítico pescador «Zé Cinzento», de Sagres. «Já não está no ativo, mas é amplamente conhecido por todos os pescadores daquela zona. Todos conhecem uma história em que durante vários dias consecutivos de nevoeiro, em que ninguém via nada, e por isso, ninguém ia ao mar, ele pegava no barco, ia e vinha, e ainda trazia peixe! O Zé Cinzento tem uma aura de herói. Poder conhecê-lo, olhá-lo nos olhos e sentir a sua energia, foi algo fabuloso. É uma lenda viva», reforçou o fotógrafo.
No início da sessão de apresentação Maria Valagão destacou a importância da memória em 2018 que agora finda e que foi o Ano Europeu do Património Cultural. «A memória é frágil e efémera. Tem que ser captada enquanto os seus atores estão em vida, porque ela finda e foi o que aconteceu durante o processo. Duas das pessoas mais destacadas em toda a narrativa, o Mestre Francisco Faleiro da Fuzeta e o Ti João Andorinha de Vila Nova de Cacela, deixaram-nos na primavera. O livro não é só um tributo às suas memórias, é também um contributo para que estes patrimónios não se desvaneçam, dando-lhes assim continuidade», disse.

A autora terminou lembrando «a singularidade destes homens que vivem em permanente intimidade com os elementos da natureza: a água do mar, essa entidade que nos forma e donde vimos, o vento, o sol, a lua…intimidade essa que talvez forje uma espécie à parte. E é realmente uma pena que muitas pessoas, sobretudo das gerações mais novas, não façam ideia da forma como a identidade algarvia está associada a estas fainas, da pesca do bacalhau e do atum!», frisou.
A apresentação na Escola de Hotelaria do Algarve, em Faro, onde estiveram cerca de 200 pessoas, acabou com pescadores e famílias presentes testemunhando o orgulho de terem participado nesta obra.
