Investimento de 900 mil euros por parte do município de Albufeira, o novo sistema de videovigilância soma 65 câmaras de alta tecnologia. É o primeiro operado em exclusivo pela GNR no Algarve.
Embora já esteja a funcionar desde 30 de dezembro de 2024, mesmo a tempo para ajudar a tornar mais segura a festa de passagem de ano, o novo sistema de videovigilância foi inaugurado esta manhã, na sede do Destacamento Territorial de Albufeira da Guarda Nacional Republicana (GNR).
Funcionará de forma ininterrupta, 24 horas por dia, em todos os dias da semana, tal como revelou o tenente-coronel Paulo Santos, 2.º comandante do Comando Territorial de Faro da GNR.
«É uma experiência inovadora para nós. É a primeira no Algarve neste modelo de operação em espaço público, materializada por 65 câmaras, que não visa substituir, de maneira alguma, o trabalho policial dos patrulheiros e dos guardas no dia a dia, mas ser um complemento», explicou.
O novo sistema tem por finalidade «garantir a segurança de pessoas, animais e bens em espaço público, a prevenção de crimes, a prevenção de atos terroristas e também, como já sucedeu, o apoio a operações complexas e de grande envergadura», como foi o caso dos últimos festejos de fim de ano.
Quanto às áreas abrangidas, «foram consideradas aquelas com maior número de ocorrências policiais, isto é, os locais de maior preocupação», bem como também algumas áreas de porta de entrada e saída na cidade.
Há também câmaras, desde logo, na Avenida Sá Carneiro (zona de diversão noturna por excelência) e na Baixa de Albufeira. A Rotunda do Inatel, a Rotunda das Três Palmeiras, a Rotunda do Globo e a Rotunda dos Descobrimentos são também locais vigiados.
«São áreas com grande concentração de público e onde, de facto, muita coisa acontece. Este sistema em funcionamento, temos em crer que trará uma importante mais-valia no trabalho por nós desenvolvido», acrescentou.
Sistema inteligente lê matrículas e dá alertas
Ainda segundo o tenente-coronel Paulo Santos, estas são câmaras dotadas da última tecnologia, com capacidade de captar imagens em todas as direções e com grande resolução e alcance.
O sistema incorpora ferramentas de analítica de vídeo e é capaz de ler matrículas. Tem autoproteção à prova de eventuais atos de vandalismo quer nos equipamentos de vídeo, quer em todos os armários por onde passa a ligação de fibra ótica.
A operação será garantida em exclusivo pela GNR.
«Apenas alguns militares terão perfil de autorização. O acesso às imagens e o tratamento de dados é feito de acordo com a legislação, com critérios rigorosos», garantiu Paulo Santos.
Há duas salas de visualização e controlo, uma em Albufeira, onde fica também o repositório dos dados e o servidor do sistema, instalados numa sala técnica, e uma outra no Comando Territorial da GNR, em Faro.
«Estamos a falar de uma ferramenta importantíssima no apoio à investigação criminal. De acordo com a legislação do processo penal, as imagens extraídas constituirão prova dos ilícitos criminais que forem por nós constatados, ou, inclusive, por outros órgãos, como a Polícia Judiciária (PJ) ou a Polícia de Segurança Pública (PSP)», nas suas investigações.
E «pretendemos desenvolver e aprimorar ao máximo o uso deste sistema para tirar maior partido possível, na expectativa de que se torne uma ferramenta importante no incremento da segurança no município» de Albufeira, concluiu.
Do ponto de vista tecnológico, segundo Marco Henriques, responsável máximo da GNR em todo o Algarve, o sistema pode ser programado para estar em alerta situacional.
Por exemplo, «um aglomerado de pessoas a correr, pode ser definido para dar um alarme, de algo estranho que está a acontecer».
Em tempo real, o operador também consegue dar o alerta para as patrulhas agirem de imediato. «Precisamente. O sistema permite rever as imagens e colher outros dados».
Se um ato suspeito envolver um veículo em fuga, cada vez que o mesmo passar por uma das câmaras, «o sistema vai avisar-nos. É uma grande mais-valia».
Autarca critica «modelo de cálculo» da criminalidade
Por sua vez, Francisco Oliveira, presidente da Assembleia Municipal, considerou que esta matéria «é extremamente importante até para a difusão da segurança, não só em Portugal, mas também no estrangeiro».
«A videovigilância é, de facto, fundamental e tem demonstrado, noutras circunstâncias, que traz mais benefícios do que prejuízos relativamente aos direitos, liberdades e garantias» individuais.
«Tem duas vertentes importantíssimas. Uma é a dissuasão, outra é ajudar no combate à criminalidade. Continuo a entender que Portugal é um país dos mais seguros do mundo, Muitas vezes, a informação que é transmitida pode não ser a mais correta. Espero que isto contribua para que Albufeira seja ainda mais segura do que aquilo que é», rematou.
No uso da palavra, o presidente da Câmara Municipal de Albufeira, José Carlos Rolo, mostrou-se, de novo crítico.
«Há dias veio a público uma notícia sobre Albufeira ter a maior taxa de criminalidade do país. Esse valor absoluto de crimes é calculado com base em 44 mil pessoas, que são os nossos residentes segundo os Censos de 2021» e não com base nos milhares de pessoas que visitam e trabalham no concelho, praticamente ao longo de todo o ano, sobretudo na época alta.
«O que não está bem quanto a mim é o modelo de cálculo dos coeficientes. Diria até que quando chegarmos ao mês de agosto, podemos ter cerca de 500 mil pessoas, contando com turistas, residentes e todos aqueles que trabalham na hotelaria».
Ora, «isso é uma base de incidência e de recrutamento do próprio crime. Mas o cálculo é feito como se fosse apenas um universo de só 44 mil pessoas. O que não parece justo», criticou.
Rolo lamentou que tal estimativa, calculada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), dá «uma percepção de um sentimento negativo. Felizmente, Albufeira não tem tido, nos últimos tempos, qualquer crime violento. Esfaquear uma pessoa ou dar um tiro em alguém, pode ser um crime, mas também o é dobrar um sinal de trânsito. O peso é igual. Constam todos no mesmo indicador» para as estatísticas.
«Temos de ser justos na análise destas situações. Dizer nos jornais e nas televisões que Albufeira é dos concelhos mais inseguros do país, não corresponde minimamente à verdade. Não estamos num conselho inseguro, nem numa sociedade insegura. Evidentemente que há situações que não são boas e é por isso mesmo que temos de trabalhar», na prevenção, afirmou.
Questionado pelos jornalistas sobre o panorama criminal em Albufeira, Marco Henriques observou que «de facto, apresenta um número considerável de crimes. Esses crimes são públicos e são publicados» no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), um documento que vem sendo elaborado, de forma ininterrupta, desde 1989.
Contudo, «a severidade dos crimes não existe. Felizmente, é muito pontual», referiu. Os mais frequentes são os «crimes típicos de zonas de lazer, de turismo, como por exemplo o descuido num pagamento na caixa de supermercado, a carteira fica esquecida, e quando se volta atrás, já não está onde ficou», explicou o oficial da GNR.
A questão é que esses delitos «entram nas estatísticas tal como um crime violento e grave, que felizmente, não temos registado aqui na cidade. Portanto, é muito ingrato fazer uma estatística de criminalidade per capita considerando apenas os residentes, quando sabemos que o concelho terá sempre até 10 vezes mais o número de residentes no que concerne a pessoas presentes. Com mais pessoas, a probabilidade de ocorrer um crime será sempre maior», apontou Marco Henriques, que também já comandou o destacamento territorial de Albufeira na sua carreira.
«Apesar de tudo, a criminalidade tem vindo a diminuir ao longo do tempo, se fizermos uma análise retrospectiva, não obstante alguma estatística recente. Não é a primeira vez em que se baseia nos habitantes registados na cidade e não nas pessoas presentes, o que adultera sobremaneira os resultados», acrescentou.
Ainda assim, está em aberto a possibilidade de alargar a nova a rede a mais locais, embora o autarca tivesse tido alguma dificuldade em explicar quais os critérios que irão definir essa possível expansão do sistema de videovigilância.
Dependerá «de várias coisas, não só da avaliação que se possa fazer nos primeiros tempos destas câmaras em funcionamento, mas também daquilo que for a evolução da vida no concelho e também de outros sítios que, porventura, tenham ficado em branco. É só nesse aspeto que acho que deve ser reforçado, embora, como digo, isso não resolva o problema. Temos de continuar a acompanhar e a fazer ações conjuntas, no sentido de minimizar essa questão da segurança. Isto é uma ferramenta extremamente importante para a resolução dos problemas, mas não resolve só por si», concluiu José Carlos Rolo.




