José Lopes Prates é comerciante há 46 anos, de têxteis para o lar, na rua da Liberdade. «Tudo o que tinha perdi». Estima os prejuízos na ordem dos 15 a 20 mil euros. Desde então, as idas à Câmara têm sido uma constante. «O documento que levo hoje já não serve amanhã. Agora pediram-me testemunhas. De quê? De que a minha loja desapareceu? Até as televisões filmaram!», ironiza, referindo-se ao processo de candidatura aos apoios, cujo prazo terminou na segunda-feira, dia 30 de novembro.
«Estamos perante uma situação dramática. Há quem não tenha meios próprios para solver as perdas. Este caso é emblemático, mas não é o mais grave. As pessoas têm receio de expor abertamente a sua revolta», explica Luís Alexandre, presidente da Associação de Comerciantes e Serviços de Albufeira (ACOSAL), que representa 82 associados.
O também dirigente da plataforma política «Fórum Albufeira» conversou com o «barlavento» após uma reunião com a Caixa Agrícola, na passada quinta-feira, 26 de novembro, «o único banco que se preocupou de forma séria» com a situação.
«O crédito é, neste momento, a boia de salvação porque não há outras. Quando uma Câmara Municipal não arranca ao governo a declaração de calamidade pública, é evidente que não podemos ser protegidos por fundos nacionais e da comunidade europeia». No entanto, o dinheiro emprestado não é uma solução universal, porque, segundo Luís Alexandre, muitos comerciantes já caíram em incumprimentos.
O balanço da Associação Portuguesa de Seguradores estima que foram acionadas apólices no valor de 15,5 milhões de euros. A maioria por danos em habitações. Ao comércio, estão a pagar entre «um terço» e «um quarto daquilo que é o valor segurado». «É normal. O valor real e a idade dos equipamentos desvaloriza as indeminizações», aponta Luís Alexandre. Além disso, «os três fundos disponibilizados não abarcam qualquer proteção a empresários e comerciantes. Houve um cortejo de todos os partidos a percorrer as avenidas de Albufeira, mas a verdade é que não deixaram nenhuma mensagem específica a não ser a palmadinha nas costas. Neste momento, nós precisamos de mais».
Autarquia discorda
«São as más-línguas que estão a fazer essas afirmações», disse Carlos Silva e Sousa quando questionado pelo «barlavento» em relação às queixas dos comerciantes e população. «Só está mal informado quem quer, pois andámos porta a porta a informar as pessoas e há apoios disponíveis», contrapôs o autarca.
«Há um fundo para as infraestruturas municipais, ou seja para as obras públicas, mas também a conta de emergência e um fundo de emergência social», para as vítimas de estragos, desde cidadãos a empresários. Segundo o edil, uma comissão irá decidir, conforme os fundos disponíveis e as provas apresentadas nas candidaturas, os apoios a conceder a cada caso.
A autarquia isentou os empresários de taxas de ocupação de via pública até fevereiro. Deliberou a isenção do pagamento dos consumos de água, que aumentaram devido aos trabalhos de limpeza e recuperação de lojas e habitações.
Quanto à questão dos seguros pagarem valores muito abaixo do total dos prejuízos, Carlos Silva e Sousa garante que será feito um acerto de contas na distribuição dos fundos, de forma a colocar todas as vítimas, elegíveis a apoios, em pé de igualdade, segurados ou não. O autarca garante que estão a ser equacionadas pelos especialistas as hipóteses de drenagem urbana e a retenção de águas a montante para a prevenção de novas inundações.
Passagem de ano fria?
Quanto à grande festa de fim de ano, Alexandre reconhece o prazo de um mês dado pela autarquia às empresas e interventores para reporem a normalidade. «Eventualmente, consegue-se compor a imagem exterior para o fim de ano. Mas os problemas de fundo, a falta de soluções dentro das lojas dos comerciantes, esses ficam por resolver», prevendo um réveillon mais frio e aquém da «dinâmica» festiva habitual de Albufeira. Carlos Silva e Sousa contesta, dizendo que a hotelaria tem metade da ocupação e já há movimento de turistas, estando em curso um reforço das iluminações natalícias.
A luta vai continuar
Alexandre promete não baixar os braços. «Tem que ficar aqui algum marco, tem que ficar aqui alguma culpa. Tem que ficar aqui marcada uma posição para que, quando se repetir uma situação destas, que é bem provável que se repita, haja um histórico de situações e de responsabilidades políticas». Eventualmente «vamos voltar a pedir reuniões específicas com os partidos que agora têm a maioria no Parlamento e que são o suporte do governo, para pedirmos que seja declarada a calamidade pública, que é o único meio que existe para ressarcir» os que mais ficaram a perder com a enxurrada. Por último, recorda as cheias de 2008. «A estratégia foi alimentar esperança para que o tempo passasse, as pessoas perdessem a sua combatividade e assumissem» os prejuízos.
Agravar da sazonalidade matou liquidez do comércio local
«As pessoas não têm um tostão no bolso. Aliás, o comércio do Algarve, em geral, não está nas mesmas circunstâncias?», ironiza Luís Alexandre, presidente da Associação de Comerciantes e Serviços de Albufeira (ACOSAL) e dirigente da plataforma política «Fórum Albufeira». «Os novos comerciantes investem e endividam-se. O dinheiro que os mais velhos adquiriram ao longo da vida, com o desgaste financeiro e a perda de clientes, desapareceu!».
Comerciante na baixa há 22 anos, Alexandre garante que a «ditadura das low cost» veio agravar o problema da sazonalidade que «é um fator gravemente constrangedor» para Albufeira. No inverno, «estamos aqui de porta aberta para levar 10 euros para casa» ao final do dia. Além deste problema de fundo, considera que as intervenções feitas no âmbito do programa POLIS, a colocação de parquímetros e a descentralização de empresas e serviços que antes estavam na baixa, «sob o argumento lírico de ajudar os negócios» na prática, só veio a piorar a vida aos comerciantes. «Albufeira está a cair todos os anos um bocado. Só estes políticos de pacotilha não veem isso», concluiu.