No Aeroporto de Faro, os turistas rumam aos seus países de origem num recolher obrigatório ditado pelas circunstâncias. Poucos usam máscaras ou luvas e há uma tensão maior que o habitual. Nas chegadas, não há guias, nem motoristas a exibir placas com os apelidos estrangeiros de quem chega de férias.
A chuva miudinha e o vento que se fizeram sentir, tornavam ainda mais desconfortável a fila para quem espera para entrar no Aeroporto Internacional de Faro.
O acesso está autorizado apenas a passageiros e staff, na única porta aberta para a aerogare, guardada por um segurança e um agente da Polícia de Segurança Pública (PSP).

Há quem se tenha precavido e venha de telemóvel em punho para mostrar o boarding pass digital, embora a maioria não encontre os papéis ou nem sequer saiba que precisa de um papel para entrar.
Lá dentro, algumas lojas fecharam, assim como o posto de informação do aeroporto. Nos cafés que ainda funcionam, a esplanada está recolhida. Bolos e sandes são servidas com máscaras cirúrgicas. Poucas são as companhias aéreas que têm os balcões abertos e nenhuma quer falar com a comunicação social. No lado de embarque, as lojas Duty Free continuam abertas.

As chegadas são uma zona fantasma. Ninguém espera ninguém. Não há motoristas de transferes com nomes estrangeiros em riste para levar os turistas aos hotéis do Algarve.
Um segurança, sob anonimato, diz apenas que nos últimos dias, os aviões que aterram em Faro trazem um terço ou menos dos passageiros.

Nas partidas, o cenário é bem diferente, com as habituais filas para o check-in. Muitos viajam contrariados.
Que o diga Carla Verhees, guia turística da Primavera Reizen, operador turístico especializado no mercado senior holandês, há 30 anos a operar no Algarve.
«Temos mais de 1000 pessoas aqui no Algarve, porque somos uma empresa que trabalha com estadias longas, de dois a quatro meses. Por causa da pandemia do novo Coronavírus, decidimos repatriá-los a todos», explica.

Uma tarefa logística complicada que começou a ser posta em prática com vários dias de antecedência. «Não é assim, tão fácil, mas conseguimos».
A maioria dos holandeses seguiu ontem, sexta-feira, 20 de março em quatro voos, dois operados pela Transavia e dois pela Corendon Dutch Airlines, fretados de propósito para esta evacuação. Os restantes viajam para Schiphol, Amesterdão, durante o dia de hoje.
Carla Verhees explica ao barlavento que maioria dos pensionistas holandeses não queria deixar o Algarve e mostrou desagrado pelo repatriamento forçado.
«Queriam ficar cá porque o clima é melhor, os casos de Coronavírus são poucos» e sobretudo porque se sentem seguros no Algarve. «De certeza», confirma.

«Há outros também que estão com medo e querem voltar para a Holanda o mais rápido possível para estarem junto dos familiares», contrapõe.
A regra excecional causa confusão: quase impossível arranjar 800 boarding passes individuais, à última hora, para os seniores poderem entrar na aerogare do Aeroporto de Faro. Operador e autoridade discutem.
«Arranjámos os voos à última da hora. Não foi possível arranjar cartão de embarque para todos. Normalmente, nem é preciso, basta mostrar o passaporte no check-in».
Ou seja, este embargo na porta principal, na perspetiva de Carla Verhees não pensou nos operadores que lidam com grandes grupos. «Não. E é injusto. Acho que podiam facilitar um pouco porque o avião não espera».

A guia turística da Primavera Reizen não esconde que o futuro «neste momento é preto e deverá ser assim, pelo menos, nos próximos dois meses. Mas penso que depois disto passar, as perspetivas são boas. As pessoas gostam de estar aqui no Algarve e voltarão», prevê.
«Acredito que o perigo vai passar. Não será para já, porque, na minha opinião, se os turistas vão agora para casa e voltam rapidamente, isso poderá provocar uma segunda epidemia. Temos de ter calma e tratar de tudo», considera.
Alguns turistas com quem o barlavento falou, queixaram-se de falta de informação nos hotéis. «Na nossa empresa, enviámos emails diários a explicar a situação e penso que os nossos clientes estão satisfeitos connosco», orgulha-se.

Ontem, em conferência de imprensa, Ana Cristina Guerreiro, delegada regional de Saúde do Algarve, foi questionada acerca das medidas de segurança que estão a ser implementadas no Aeroporto Internacional de Faro.
Na resposta aos jornalistas, a responsável explicou que «não podemos ficar em permanência nos locais de eventual conflito ou que tenham mais problemas. A autoridade de saúde já lá esteve e já falou com o diretor do Aeroporto (Alberto Mota Borges) que é o nosso interlocutor».
«Tivemos conhecimento que funcionários do Free Shop e funcionários do próprio atendimento do aeroporto estão com muitos medos. Telefonam para o nosso departamento a colocar questões e na realidade, nesta situação, o medo é o nosso principal inimigo», disse.

«O medo causa-nos muitas vezes, atitudes e respostas à acontecimentos, um bocadinho desproporcionadas. No Aeroporto de Faro, compreendo o medo do contacto próximo e que as pessoas ultrapassem as recomendações, mas temos que deixar isso por conta do cidadão», apontou a responsável.

«O cidadão também tem de ser responsável. Não podemos por um polícia em cada porta e em cada espaço. Se for necessário em determinada situação, os agentes da autoridade, de acordo com a legislação, estão lá precisamente para exigir o cumprimento desse distanciamento e dos comportamentos das pessoas».

Não foi isso que se verificou, mas também, em breve, pouco ou nenhum tráfego aéreo haverá para justificar mais medo.