Em parte, a imagem de desolação que o Teatro das Figuras deu no concerto de Panda Bear estará mais relacionada com a falta de uma sala de dimensão média na região, do que com o concerto em si.
O público do Algarve continua a ser resistente a projetos que não tenham bastante projeção mediática, mas em parte, a imagem de desolação que o Teatro das Figuras deu no concerto de Panda Bear estará mais relacionada com a falta de uma sala de dimensão média na região, do que com o concerto em si.
Numa era em que o digital, e logo a ausência e a simulação governam e em que os ouvintes estão cada vez mais distanciados dos músicos e da música em geral, talvez não seja a melhor opção replicar esse mesmo apartamento em palco.
Panda Bear terá dito quatro palavras durante todo o concerto, nomeadamente Obrigado e Thank you. Boa noite, não. Nada mais do que isso.
E se há artistas que pecam por falar demais em palco, outros há que confiam em demasia na música para falar por eles. E se os já evangelizados não abandonam a área desiludidos, provavelmente os que estavam em cima do muro, acabarão por ficar pelo caminho.
Para sua sorte e também por mérito, as canções que Noah Lennox compõe e leva a palco, merecem lá estar pelo corpo que esta encarnação da sua banda – onde milita Maria Reis – lhes proporciona, ainda que estas interpretações sejam retiradas quase a papel químico dos discos.
Teria sido interessante ver uma cópula entre as versões anteriores de Panda Bear e esta nova, mais pop, direta e menos etérea. O concerto teria provavelmente ganho outra dimensão.
É possível que parte do distanciamento que imagino que o público tenha sentido e que admito poder não ser mais do que uma projeção do meu próprio deslocamento, via uma espécie de experiência fora do corpo resultante da impossibilidade de o utilizar para exprimir toda a energia que um concerto de Panda Bear transmite.
Há concertos, eu diria a maioria, em que vivê-los sentados é semelhante a uma castração sensorial. O corpo precisa de se manifestar e como nos podemos entregar plenamente, quando presos a uma cadeira?
Lembro-me de ter visto Panda Bear, por alturas de Tomboy no piso inferior da discoteca Lux, onde era possível perdermo-nos voluntariamente nas suas reverberações beachboyanas e que constituiu, não obstante a idade de ambos, uma experiência substancialmente diferente desta.
Esta, que foi agradável, adjetivo demasiado burguês para elogiar música que esperamos, ainda esperamos, atinja o nosso âmago.
A conjuntura não ajudou, a banda também não, as canções sobreviveram e bem, mas se a única coisa que o rock ainda tem para oferecer ao mundo é uma versão civilizada de boas canções que nos deixam na mesma, o que resta dele?
Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor. Copy criativo.