Uma coisa é certa e vai marcar o resultado eleitoral das eleições legislativas do próximo dia 10 de março: a elevada votação do partido Chega.
Uma coisa é certa e vai marcar o resultado eleitoral das eleições legislativas do próximo dia 10 de março: a elevada votação do partido Chega, a que corresponde a intromissão de um partido nacionalista e de extrema direita no clube dos «grandes» em Portugal.
Efetivamente e independentemente do vencedor ser o Partido Socialista (PS) ou a Aliança Democrática (AD), aquilo que vai ser falado e escrito internacionalmente será a chegada a Portugal do populismo que na Europa vem fazendo o seu caminho com o crescimento de movimentos radicais e contra os sistemas democráticos instalados.
Para lá desta constatação interessará assim compreender este fenómeno e as razões que em particular no nosso país conduziram a esta situação, ou como um partido fundado em 2019 conseguiu num prazo de apenas cinco anos de existência e apenas uma cara com expressão mediática «morder os calcanhares» aos dois partidos que dominam desde há quase 50 anos o status quo do sistema político português.
Porque uma coisa é criticar André Ventura, as suas incongruências, ódios e o populismo à flor da pele, outra coisa é tentar perceber porque é que de acordo com todas as sondagens 15 a 20 por cento das pessoas vai votar Chega…
Com um líder que, tal como afirmou o cardeal Tolentino Mendonça, «alguém que tenha pegado numa Bíblia saberá que aquilo que André Ventura defende é totalmente contrário a tudo o que Deus nos diz e pede. Amor, fraternidade e compaixão não é ódio, crueldade e punição», o que leva uma tão grande franja do eleitorado a confiar o seu voto neste sentido?
Em primeiro lugar a uma grande amargura e revolta relativamente aos partidos e às instituições politicas representativas, que ao longo destes anos não conseguiram resolver e traduzir os anseios das populações na resolução dos seus problemas básicos: a falta de habitação, a deficiente oferta de serviços no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a falta de autoridade das forças de segurança e dos professores, a inércia perante as grandes deficiências infraestruturais, etc.
Em segundo lugar, o sentimento generalizado que os grandes e tradicionais partidos tudo fazem no sentido de se protegerem por forma a garantir os seus lugares e interesses.
Exemplo paradigmático desta situação é a sua vergonhosa inação relativamente ao sistema eleitoral vigente, jurando após cada ato eleitoral a sua atualização no sentido de valorizar a sua proporcionalidade mas rapidamente revertendo tais «intenções».
O sentimento que nada é possível alterar contra os interesses instalados é sem qualquer dúvida um enorme catalizador de voto no Chega.
Por outro lado, o sistema partidário tradicional tem falhado na desvalorização de novas formas de comunicação, incluindo a manipulação e distorção da verdade, nomeadamente das redes sociais e nas suas imensas capacidades, num mundo desregulado onde tudo vale, e nas suas formas de montar formas de manipulação a partir de grupos anónimos organizados que se expandem vertiginosamente e que constroem um mundo virtual paralelo, constituindo verdadeiras ameaças à democracia e aos seus próprios pilares.
Como um dia disse Carl Jung «pensar é difícil, por isso que a grande maioria das pessoas prefere julgar».
Não haja dúvidas, quanto mais estas questões se forem agravando e prolongando no tempo mais o descontentamento vai aumentando e mais o Chega vai crescendo, independentemente das suas propostas e ideais, tornando-se por isso o partido e o rosto CONTRA o atual sistema.
Do mesmo modo, a distribuição geográfica da implantação e força eleitoral do Chega reflete sem dúvida e cada vez mais ao distanciamento do eleitorado relativamente ao poder politico local nessas zonas e à falta de confiança nos seus dirigentes políticos e menos à aproximação às causas que aquele movimento defendeu para se impor perante o eleitorado numa primeira fase de arranque do partido.
Isto porque perante o seu crescimento eleitoral houve a necessidade do Chega de abandonar os «nichos» a que se havia dedicado por necessidade mediática e de afirmação.
Por estes tempos alguém mais ouviu o seu líder e única voz voltar a falar de ciganos, de castrações químicas ou penas de morte?
No caso particular do Algarve, onde o Chega obteve nas legislativas de 2022 a sua maior representatividade percentual (mais de 12 por cento dos votos) reflexo do enorme distanciamento entre os interesses e necessidades do Algarve e as efetivas concretizações realizadas, é com muita angústia que se antecipa o resultado desse partido nas próximas eleições, perante a total inoperância de intervenções e obra do poder central na região, ano após ano, nomeadamente no adiamento sucessivo de inclusão do novo Hospital Central, nas grandes opções de investimento, no total desprezo pela sistema de mobilidade da região… o que faria pela região a inclusão na ligação ferroviária em alta velocidade a Espanha!
Sem falar obviamente na mais grave, escandalosa e possivelmente fatal para a região perspectiva de falta de água nas torneiras este verão!
Como poderá um cidadão compreender que perante perspectivas negras anunciadas há décadas, nada tenha sido antecipado e exigido pelo poder local e executado pelo poder central com vista a garantir a sustentabilidade e sobrevivência do Algarve?
Qual a segurança que uma região que vive do turismo pode dispor quando a meses de poder chegar esse dia sem água nas torneiras se limitam a anunciar obras que podem chegar apenas dentro de anos e não se anunciam e garantem soluções de emergência para garantir a água nas torneiras em qualquer situação por forma a acalmar os agentes e mercados turísticos que estão atualmente a alterar os seus destinos com receio da região entrar em colapso?
Na Catalunha perante a eminência da chegada desse dia está já preparado o transporte marítimo de contentores de água, entre outras soluções…
No dia 10 de março, o resultado eleitoral do Chega no Algarve como em qualquer outra região vai ser o «algodão que não engana» e muito mais do que agregar sentimentos ou ideais vai trazer à tona a (in)satisfação dos eleitores com o trabalho realizado pelos seus eleitos.