Ele é arbitro amador. Ela é enfermeira e apaixonada por viagens. Em casa, os irmãos guardam uma coleção de dezenas de camisolas de futebol de clubes de todo o mundo que o pai, Paulo Silva, começou a juntar nos muitos jogos que arbitrou. A arbitragem é uma tradição desta família de Tavira, e já o avô paterno andava de apito ao peito no andebol da primeira divisão.
Há cerca de três meses, o jovem questionou-se: «o que vou fazer com isto tudo?». Lembrou-se das histórias do continente africano. O pai é angolano e o avô fez a guerra colonial em São Tomé e Príncipe. Começou a pesquisar um pouco da história e da realidade atual daquele país – o pé descalço, a roupa rasgada, as peladinhas em campos de terra batida, as crianças felizes com uma bola esfarrapada para chutar. As imagens fizeram-no pensar «nas dificuldades que ultrapassam para poder fazer o que mais gostam, jogar futebol».

Nasceu a ideia de doar tudo. Partilhou-a em casa e teve o apoio da família, em especial da irmã Carina Silva, que se orgulha de «poder ajudar os outros» e «tornar melhor a vida de pessoas que estão doentes».
«O meu irmão manifestou a vontade de fazer uma viagem a São Tomé e Príncipe e doar todas as camisolas. Gostei da intenção, e pareceu um sonho possível». E até se disponibilizou para participar na expedição solidária. Será uma oportunidade de «fortalecer a nossa relação e ajudar o outro».
Clubes da região apoiam «Sorriso dos Príncipes»
A dupla de irmãos até já tem um nome para a causa: «Sorriso dos Príncipes», pois assim é mais fácil divulgar a iniciativa, e está criada uma página de facebook, na qual serão divulgados todos os passos do projeto.
Além das camisolas, o objetivo é reunir «todo o tipo de material desportivo possível, desde calções, botas, luvas, e bolas», pois «eles precisam de tudo», diz João Silva, que já está a falar com os colegas e amigos para doarem «equipamentos de arbitragem. Afinal de contas são um elemento indispensável ao jogo».

Quem não se furtou a apoiar e ajudar foram os clubes e as instituições desportivas da região. «O presidente do Olhanense Isidoro Sousa disponibilizou de imediato o seu apoio na divulgação da nossa iniciativa», diz João Silva, engrandecendo também o gesto «da Casa do Benfica de Tavira, que nos ofereceu mais de 50 equipamentos, além de um saco desportivo para transporte de material».
Uma bicicleta por uma camisola
Na sala de João Silva há um espólio de camisolas de «pequenos» clubes das divisões distritais, passando pelos «grandes» clubes da primeira liga e de ligas internacionais.
Uma delas era de Coelho, ex-jogador do Olhanense. João Silva revela-nos que o médio, quando chegou ao clube algarvio, «publicou uma mensagem no facebook a pedir uma bicicleta emprestada para se deslocar pela cidade. Respondi a dizer que lhe emprestava uma bicicleta se ele me desse uma camisola». Assim foi.
Valor sentimental não impede doação
João Silva é presença frequente no Estádio José Arcanjo, onde há grande proximidade entre jogadores e massa adepta. E o cultivar de algumas amizades também.
Federico Dionisi, avançado do Frosinone, passou por Olhão na época 2013/2014, sendo uma peça importante da equipa algarvia quando alinhava na Primeira Liga portuguesa.
Na tarde de 12 de janeiro de 2014, «eu levei um estandarte que fiz, com a mensagem Forza Dionisi e uma foto dele». O jogador viu e «a reação foi espetacular. Esboçou um sorriso e aqueceu como se estivesse a jogar em alta rotação. Acabou por marcar um golaço». O inesperado aconteceu no final do jogo. «Ele já tinha oferecido a camisola a outra pessoa com quem se tinha comprometido, mas veio-me oferecer os calções».
Dionisi regressou a Itália no final da época, e no dia de aniversário do jogador, João enviou-lhe uma camisola com uma foto de ambos. Dias depois, e sem fazer qualquer pedido, outra surpresa: «ele enviou-me, sem eu pedir, uma camisola sua».
João Silva também fez amizade com Daniel Giraldo, outro ex-atleta do Olhanense. Voltou à Colômbia para representar o Deportivo Cali, um dos maiores clubes do país, mas não esqueceu o amigo português. «Enviou-me uma camisola com o layout da Taça Libertadores da América», a mais importante competição de clubes da América do Sul.



